‘Ajudo mulheres que querem fazer aborto: envio pílulas para 180 países’

05/10/2017 - 15:09 -
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‘O aborto é assistência à saúde. Você não precisa acreditar nessa necessidade, mas ela existe.’

(Revista AzMina, 05/10/2017 – acesse no site de origem)

Quem senta no Divã hoje é a Danielle “Davi” Lopez-Green.

“Meu nome é Davi, tenho 28 anos e trabalho como conselheira médica de aborto. Isso significa que eu apoio mulheres para que tenham abortos seguros e dignos em todo o mundo usando as pílulas do aborto.

Comecei a trabalhar com aborto há cerca de cinco anos. Já há bastante tempo eu entendo que é parte do meu dever, como ser humano vivendo neste planeta, reconhecer e aprender sobre as injustiças e a opressão que muitas pessoas enfrentam.

Vivo na Cidade do México, onde o aborto é legal até 12 semanas de gestação. Nos outros estados do México, o aborto é legal somente em certas circunstâncias, como em casos de estupro. Embora aqui na cidade o aborto seja legal, sempre há barreiras para acessá-lo, por muitas razões diferentes.

Mas o meu trabalho é remoto, o que significa que nós apoiamos as mulheres de maneira on-line, por e-mail e live chat. Qualquer mulher com acesso à internet pode nos escrever.

Minha organização trabalha com centros de distribuição para enviar as pílulas do aborto para o mundo. Fornecemos serviços de aborto para cerca de 180 países, mas esse número muda dependendo do sucesso ou fracasso da distribuição dos pacotes em seus destinos.

Infelizmente, não prestamos serviços ao Brasil, pois os pacotes são barrados pela alfândega. Nós tentamos por um tempo, mas apenas alguns pacotes chegaram. Depois disso todos passaram a ser interceptados na alfândega.

Gosto do meu trabalho porque todo dia é uma experiência de aprendizagem. Ele me permite conhecer a maneira como as mulheres estão vivendo sua experiência de aborto. Cada mulher é única e cada história é diferente, embora sempre existam semelhanças.

Eu aprendo como ser uma melhor ouvinte, a ser paciente e a comunicar informações de forma clara. Mas a melhor parte é apoiar mulheres para que tenham acesso a uma necessidade básica de saúde. Porque o aborto é assistência à saúde, é efetivamente simples assim.

Você não precisa acreditar nessa necessidade, mas ainda assim ela existe. Apoiar as mulheres de forma amorosa e sem julgamento é realmente algo que muda o jogo, porque muitos de nós sofrem com o estigma, em muitos níveis diferentes.

Gosto de ser uma voz suave e amigável para aqueles que dizem que o aborto é errado. Gosto de ser uma voz que respeite o direito de cada ser humano à autonomia e à autodeterminação do corpo.

Gosto de dizer “Olá. Eu ouço você e eu respeito e apoio qualquer decisão que você precise tomar”. Ouvir isso pode ser chocante para mulheres que esperam ser atacadas, julgadas e persuadidas a não abortar.

As histórias que sempre me tocam são as das mulheres que nos dizem que estão começando a sentir-se elas mesmas de novo após o aborto, e que estão felizes em continuar suas vidas como planejaram fazê-lo antes de engravidar. Somos pessoas complexas e lidamos com problemas e desafios durante toda a vida.

Não estou sugerindo que o aborto seja difícil para todas, mas, nos casos em que é, é muito bom ver as mulheres que expressam que tiveram uma experiência de aborto positiva e que estão se sentindo muito bem depois dela. Nós vemos isso muitas vezes, isso sempre aquece meu coração e me faz sentir que somos uma comunidade cuidando uns dos outros.

Reconheço que saúde reprodutiva e justiça estão ligadas a muitas outras coisas, como justiça racial e econômica, por exemplo. Eu gosto da complexidade desse trabalho e da maneira como ele está conectado a qualquer outra luta que a nós, como feministas, pareça distante.

Para mim, o advocacy pelo aborto seguro e o trabalho para fazer dele uma realidade são uma parte pequena, mas muito importante, da nossa luta global para fazer deste mundo um lugar em que realmente valha a pena viver.”