Cofundadora do coletivo Não me Khalo fala sobre feminismo nas redes sociais

22/07/2017 - 15:02 -
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Em entrevista para o Jornal O Dia, Gabriela Moura enfatizou a necessidade de educar meninos e meninas para uma sociedade mais justa

(Portal O Dia, 22/07/2017 – acesse no site de origem)

Desmascarar as amarras impostas pela cultura machista de nossa sociedade é um desafio para poucos. Expor as contradições dessa sociedade e dar voz àquelas que durante séculos sofreram caladas a violência naturalizada por uma cultura, que coloca o sexo masculino em posição de superioridade e tolera todo tipo de violência e violação ao feminino, é uma atitude corajosa e desafiadora.

É difícil encontrar um usuário de redes sociais que não tenha conhecimento da campanha #meuamigosecreto, que convida as mulheres a contar suas experiências pessoais envolvendo algum tipo de assédio, violação e até violência de cunho sexual. A campanha foi criada pelo coletivo feminista ‘Não me Khalo’ (uma referência à artista mexicana contestadora e revolucionária Frida Khlalo). O movimento tomou uma proporção tão grande que a campanha resultou no livro ‘Meu amigo secreto: feminismo além das redes’.

Em entrevista para o Jornal O Dia, a cofundadora do coletivo, Gabriela Moura, falou sobre feminismo em tempos de redes sociais, que ao mesmo tempo em que dá visibilidade às questões referentes à igualdade de gênero, também faz ecoar a voz daqueles que querem manter os privilégios masculinos. Gabriela enfatizou a necessidade de educar meninos e meninas com vistas à formação de uma sociedade mais justa.

No entanto, ao contrário do que propõe o coletivo, que é não se calar diante dessas questões complexas, Gabriela Moura preferiu não responder quando questionada sobre o papel do homem que reconhece a sua própria educação machista e concorda que homens e mulheres têm direitos iguais, dentro dessa luta por direitos. Ela também não responde quando questionada se, em algum momento da vida os homens também sofrem com o machismo.  Sobre a influência do capitalismo dentro do movimento feminista que ganhou força nas redes sociais, ela também preferiu se calar.

Confira a entrevista: 

Qual foi a motivação para a criação do coletivo Não me Khalo? E por que atuar nas redes sociais? Vocês tinham ideia da dimensão e repercussão desse movimento? 

Foi uma movimentação muito natural e orgânica. Eu atuava com a Bruna Rangel em outra organização, onde tentávamos colocar na pauta da comunicação assuntos como violência contra a mulher, assédio, maternidade, racismo, e todas as dificuldades comumente encontradas por mulheres em situações como mercado de trabalho, etc. Mas encontrávamos muita dificuldade, e tudo tinha que passar pela aprovação de homens. Foi então que surgiu o coletivo, que mais tarde se desvinculou da organização. Criamos nosso site e começamos a produzir nossos materiais da forma que julgávamos necessária.

As redes sociais são uma caixa de ressonância dos anseios e opiniões da sociedade e das formas mais diversas. Sobre as reações negativas, como a página lida com isso? 

Existem comentários que chegam a beirar atitudes criminosas… Reações negativas vão acontecer. Afinal, o que propomos é a quebra de paradigmas. Nós lidamos com isso com muita força e disposição. Se necessário for, tomamos as medidas cabíveis.

Como você avalia o avanço e ao mesmo tempo o retrocesso que as redes sociais promovem ao dar espaço para a manifestação de movimentos feministas, por exemplo. Mas que ao mesmo tempo dá voz aos intolerantes, machistas, racistas… 

Qualquer meio de comunicação sempre terá esse tráfego de diferentes vozes, faz parte. Seja na internet, no jornal ou na TV. Na internet é mais fácil, porque qualquer um pode criar uma página, um blog, às vezes até de forma anônima, e falar o que quer. Mas o problema não é a internet em si, mas a sociedade.

Comentários preconceituosos são reflexos do que a sociedade mantém hoje culturalmente.

Dentro desse movimento forte e crescente, qual o lugar do homem que toma consciência de sua condição machista? Você acredita que a ele deve ser dado espaço para lutar junto com as mulheres por uma sociedade igualitária?

Prefiro não responder

Dentro dessa nova sociedade que se vislumbra, onde homens e mulheres sejam tratados de forma igual, como pais e mães devem conduzir a educação de seus meninos? 

Não me sinto muito apta a responder esse tipo de questionamento, é muito amplo. Considero que a educação das crianças é responsabilidade de toda a sociedade. A família tem esse peso considerável, mas a sociedade também precisa estar pronta para receber e acolher as crianças, respeitando suas singularidades e protegendo-as da violência física e psicológica. Precisamos mostrar para as crianças que violência não é natural, não é normal, e que meninas não são inferiores ou fracas.

Você acredita que os homens, em sua formação, em algum momento da vida também sofrem com a cultura machista?

Prefiro não responder.

Há grupos que veem com desconfiança a apreensão, por parte do capitalismo, da ideia de empoderamento feminino. Como se essa fosse uma tentativa de manter o movimento feminista sob algum tipo de controle. Você percebe essa movimentação? 

Prefiro não responder.

Combate a cultura machista 

Aprofundando o assunto, e buscando preencher as lacunas não respondidas por Gabriela Moura quanto ao feminismo, O Dia foi conversar com Luciane Santos, membro da executiva nacional do Movimento Mulheres em Luta e integrante da diretoria do grupo no Piauí. A ela, direcionamos os questionamentos ignorados na entrevista anterior.

Dentro desse movimento forte e crescente (feminismo), qual o lugar do homem que toma consciência de sua condição machista? Você acredita que a ele deve ser dado espaço para lutar junto com as mulheres por uma sociedade igualitária? 

A exploração e a opressão contra a mulher é uma questão de classe e não de gênero, há muitas coisas em comum entre todas as mulheres, mas que a opressão sobre a mulher trabalhadora é muito pior, pois tem como objetivo superexplorá -la e arrancar dela mais mais-valia, que sustenta a sociedade capitalista, inclusive a mulher burguesa. Apesar de sofrer opressão, esta última possui recursos e mecanismos que a fazem contornar e, muitas vezes, suportar a mesma. A diferença fica melhor evidenciada no capítulo que trata da mulher no mundo do trabalho. Nesse sentido, o homem da classe trabalhadora, compre um papel importante nessa luta contra a exploração e a opressão das mulheres trabalhadoras, pois a luta contra qualquer tipo de opressão é um dever de toda a classe trabalhadora.

Você acredita que os homens, em sua formação, em algum momento da vida também sofrem com a cultura machista?

Sim, a luta contra o machismo, o racismo e a LBTfobia e pela libertação da exploração capitalista é uma luta de toda a classe trabalhadora, pois não tenhamos dúvida, quem mais se beneficia com as opressões é o capitalismo, pois se utiliza das diferenças para melhor explorar e garantir a mais valia. Basta ver que no Brasil as mulheres ainda recebem um salário abaixo do salário de um homem, desempenhando a mesma função. A partir do momento em que o homem é educado no seio de uma família e de uma sociedade em que os fazeres domésticos são apenas algo inerente às mulheres, e os homens se furtam desses deveres.

Há grupos que veem com desconfiança a apreensão, por parte do capitalismo, da ideia de empoderamento feminino. Como se essa fosse uma tentativa de manter o movimento feminista sob algum tipo de controle. Você percebe essa movimentação?

A teoria do empoderamento tem sido defendida ferreamente pelos setores da classe dominante, pois aponta para os setores oprimidos da sociedade, como: mulheres negras e negros e LGBTs, uma saída individual, basta você se empoderar sozinho que os problemas de opressão e exploração que você sofre serão resolvidos. O problema que as mulheres sofrem no mundo não é apenas uma questão de gênero, mas de classe. Vivemos numa sociedade em que grupos exercem poderes sobre outros, o que é um fator determinante para o aumento da opressão. A ideia de individualidade, como a promovida por pessoas como Margaret Thatcher, que disse “não existe o que chamamos de sociedade: o que existe são homens e mulheres individualmente”, destrói a noção do coletivo. Essa revolução e esse empoderamento individual é inofensiva para o capitalismo e classe dominante.

Karliete Nunes