O que a campanha #MeToo conseguiu mudar de fato?

21/05/2018 - 15:43 -
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O Oscar, o Globo de Ouro, o Festival de Cannes… até 2017, todos esses eram eventos em que – salvo raras exceções -, atores, atrizes, produtores e diretores trocavam tapinhas nas costas e elogios amistosos. Neste ano, no entanto, tornaram-se palco de uma campanha robusta de protesto.

(BBC Brasil, 21/05/2018 – acesse no site de origem)

O movimento #MeToo, uma campanha que se multiplicou entre as atrizes de Hollywood contra a cultura de assédio sexual no principal cenário do cinema mundial, tomou conta desses eventos e repercutiu em todos os cantos do planeta.

Tudo começou com um caso que veio à tona no jornal The New York Times acusando um dos maiores executivos de Hollywood, Harvey Weinstein, de ter assediado, abusado e até estuprado dezenas de atrizes. As primeiras acusações apareceram em 5 de outubro, e o poderoso produtor acabou demitido de sua própria empresa durante aquela semana. A “Caixa de Pandora” foi aberta. Weinstein nega ter se envolvido em sexo não consensual.

Em 15 de outubro, a atriz Alyssa Milano sugeriu no Twitter que todas as mulheres que tivessem sido sexualmente assediadas ou agredidas respondessem para ela na rede social com a hashtag #MeToo (“Eu também” em tradução livre). A ideia era mostrar a dimensão do problema. Pelo menos meio milhão de mulheres enviaram suas respostas nas primeiras 24 horas.

Desde então, uma enxurrada de denúncias surgiu contra homens da alta classe do entretenimento, da mídia, da política e da tecnologia. Muitos negam as acusações. Até hoje surgem novas denúncias e novas repercussões, e a dinâmica de poder em Hollywood, sem dúvida, mudou.

Mas as mudanças mais efetivas que o movimento trouxe na prática, para além do universo hollywoodiano, ainda não estão tão claras: há algo de diferente acontecendo para as milhões de mulheres que compartilharam suas histórias com a #MeToo? Será que o movimento também trouxe mudanças para as vidas delas? Até que ponto esse protesto trouxe uma mudança real?

Efeitos

Uma iniciativa que surgiu a partir da campanha foi a proposta de criação de fundo para arrecadar dinheiro e fornecer ajuda legal a mulheres que sofreram assédio ou abuso, o “Time’s Up Legal Defense Fund”.

Mais de 300 atrizes, escritoras e diretoras lançaram o projeto em 1º de janeiro deste ano e arrecadaram US$ 21 milhões (cerca de R$ 78 milhões) em apenas um mês para ajudar a bancar os custos judiciais de processos de assédio sexual sofrido por mulheres no trabalho.

O National Women’s Law Center (NWLC) – centro de auxílio jurídico para as mulheres com sede em Washington DC – está reunindo as vítimas e indicando advogados para ajudá-las gratuitamente.

“Nós recebemos mais de 2,7 mil solicitações de mulheres de todos os Estados americanos e existem mais de 500 advogados na rede dispostos a ajudar nos casos do Time’s Up”, explicou Sharyn Tejani, diretora do fundo na NWLC, à BBC.

“O fundo prioriza casos envolvendo mulheres de baixa renda, outras que estão em empregos ‘não tradicionais’, pessoas negras, LGBT, e as que estão enfrentando retaliações legais por terem denunciado casos de assédio”, completou Tejani.

Tina Tchen, que também coordena os esforços de assistência jurídica do fundo, disse que os beneficiários incluem “trabalhadoras da construção civil, guardas prisionais e policiais”, e acrescenta: “Há homens que se apresentaram também.”

Ela explica que alguns desses homens vivenciaram o assédio sexual e outros as procuram por conta de suas esposas ou de algum familiar.

Esse foi outro fenômeno importante da #MeToo: o fato de lançar holofotes para os homens, que também apareceram como vítimas. Segundo Sian Brooke, do Instituto de Internet da Oxford, que estuda gênero e sexismo online, essa foi uma das revelações mais importantes do movimento.

“Um grupo pode receber atenção e ser levado a sério com relação a alegações de estupro, sem tirar qualquer peso de outra parte”, observa ela.

O #MeToo ajudou vítimas a buscar ajuda?

De outubro a dezembro de 2017, as ligações para a Rede Nacional de Denúncias de Estupro, Abuso e Incesto nos Estados Unidos aumentaram 23% em comparação com o mesmo período de 2016.

Algumas vítimas chegaram a mencionar a hashtag #MeToo como uma influência para terem denunciado e afirmaram que ela ajudou a remexer a dor que estava adormecida. Outras afirmaram que não se sentiam mais sozinhas e tiveram coragem para falar sobre um trauma de abuso com familiares ou com outras pessoas que tiveram experiências similares.

“O movimento trouxe à tona o tema do assédio sexual e do abuso para a consciência das pessoas”, disse Brooke.

“Mesmo que parte da discussão seja crítica ao movimento, você ainda está trazendo uma consciência de que isso acontece”.

Uma organização sem fins lucrativos chamada 1in6, em Los Angeles, apoia os homens sobreviventes de abuso sexual. A diretora de comunicação do grupo, Meredith Alling, disse à BBC que a hashtag #MeToo teve um impacto rápido e importante no número de homens que procuraram a instituição quando o movimento veio à tona.

“Vimos um aumento de 110% no tráfego do site e 103% de aumento no uso do serviço online de ajuda do grupo entre setembro e outubro de 2017. E essa tendência continuou”, disse.

Ambiente de trabalho

Nos Estados Unidos, as empresas estão pensando em novas maneiras de criar um ambiente mais positivo no trabalho e uma cultura mais saudável depois do #MeToo.

Ted Bunch é o co-fundador de um grupo de ativistas que promove formas mais saudáveis e respeitosas de “ser homem” – são chamados “A Call To Men” (Um chamado para os homens, em tradução livre), e eles têm relatam um aumento da procura por parte das empresas.

“Vimos principalmente o aumento do número de empresas buscando entender por que o assédio sexual é tão comum nos locais de trabalho”, disse.

Brunch acredita que problemas podem surgir porque o ambiente de trabalho é um microcosmo da sociedade no qual homens e meninos são muitas vezes ensinados a verem mulheres como objetos, que valem menos.

“A maioria dos homens não é abusadora. Mas quase todos os homens já riram de piadas machistas, ou objetificaram as mulheres de alguma forma. Quando você liga os pontos e mostra para os homens que essas piadas que eles julgam serem inofensivas validam e alimentam o comportamento nocivo contra as mulheres, eles começam a querer mudar”, disse.

Além dos EUA

Fora do território americano, o impacto da campanha contra o assédio iniciada em Hollywood é sentido de forma diferente por diferentes grupos. No Reino Unido, uma consultora de recursos humanos disse que ficou surpresa com a falta de demandas inspiradas no #MeToo.

“Não observamos nenhum aumento no volume de solicitações de treinamento ou mesmo no volume de treinamento que estamos recomendando. Não acho que tenha tido um impacto significativo”, disse Elaine Howell, gerente de RH da PlusHR.

“Temos clientes em serviços profissionais, clientes industriais, financeiros, marketing … Parece ser algo bem específico para essa indústria [entretenimento]”.

Mas quando consultamos o sindicato de atores britânicos Equity, que representa mais de 43 mil profissionais, eles relatam uma experiência diferente.

O órgão não revela números exatos, mas afirma que houve um aumento significativo “em consultas e casos trabalhados desde o #MeToo”.

Para a vice-presidente do Equity, Maureen Beattie, a mensagem já ficou clara para o mercado: nenhum comportamento inadequado vai passar mais sem ser punido. “Se você faz algo errado com algum dos nossos membros, algo inaceitável, nós vamos atrás de você até o fim”, disse.

“Essas pessoas (abusadores) não foram embora. Estão embaixo de uma pedra. Estão se escondendo, esperando apenas o momento em que ninguém mais estiver olhando”, completou.

“Uma das coisas que estamos fazendo é pedindo às pessoas que estão no mercado há bastante tempo, pessoas que são estrelas, pessoas que têm influência, para ficarem de olho. Não que eles tenham de ser treinados para ajudar alguém que tenha sido assediado sexualmente, mas [eles] podem dizer: ‘Com licença? Você não pode agir assim com as pessoas’.”

Online e offline

A hashtag #MeToo ganhou fama recentemente, mas o movimento, originalmente, é mais antigo. Em 2006, a ativista negra Tarana Burke fundou o Me Too como uma iniciativa para reunir vítimas de violência sexual.

Desde que ele tomou maiores proporções com a chegada da hashtag na internet, ela se empenhou em fazer com que o movimento tivesse uma mudança mais efetiva em diferentes níveis da sociedade.

Um de seus comentários mais contundentes aconteceu uma semana antes dela andar no tapete vermelho do Oscar de 2017: “Se continuarmos apenas fazendo declarações e não partirmos para a ação, nós estaremos em apuros.”

Sarah Jackson, professora de estudos de comunicação na Northeastern University, acredita que o contexto é a chave para dar sustentação ao Me Too.

“Eu não chamaria a hashtag ‘Me Too’ de um movimento. Eu chamaria de uma campanha que é parte de um movimento maior. O movimento é pelos direitos das mulheres, é pelo feminismo. Eu diria que a #MeToo é um indicativo do tipo de debate que precisa acontecer”, disse.

“O próximo passo é dizer: ok, sabemos qual é o problema, então, como podemos fazer para expandir esse debate para o mundo todo?”

O Google, com o projeto “Me Too Rising”, conseguiu ilustrar como a conscientização com relação a essa questão se espalhou pelo mundo.

As informações mostram que o termo foi buscado em muitas partes do planeta, mas a repercussão foi maior em alguns países. A liberdade de imprensa de um país ou o potencial das redes sociais também tiveram impacto nisso – ainda é cedo para dizer como o movimento vai influenciar os locais onde ele repercutiu de maneira mais discreta, como o Japão e a Coreia do Sul, por exemplo.

Karuna Nundy, advogada da Suprema Corte da Índia, compartilhou sua opinião sobre a relevância de #MeToo para o país, onde a revolta com crimes sexuais provocou ondas de protestos nos últimos anos.

“As conversas do #MeToo na Índia são limitadas a uma faixa de pessoas que falam inglês e têm acesso à internet. É bastante em números absolutos, mas pequeno para a Índia. No entanto, isso se soma às enormes conversas que já estavam acontecendo. A ideia de que a Justiça está falhando para as mulheres, e a desobediência civil pode ser legítima nesses casos”.

Nundy, que esteve envolvida no movimento para aprovar a lei anti-estupro na Índia em 2013, afirma que as vítimas agora são levadas mais a sério quando denunciam.

“Eu tive um caso de estupro ontem contra um produtor importante de Bollywood (a versão indiana da indústria americana do cinema). Minha cliente é uma mulher muito jovem que disse ter sido estuprada por um período de seis meses com lesão corporal. Independente da decisão do tribunal, acho que a forma como fomos ouvidas pelo presidente do Supremo Tribunal e pelos dois juízes é muito diferente da maneira como teríamos sido ouvidos, digamos, 15 anos atrás”, afirmou.

“Existe uma interação entre a consciência social, a lei e a Justiça de fato. E é exatamente isso que eu acho que está acontecendo. ”

Desse modo, talvez a #MeToo não seja um ponto final, mas o início de algo maior. Um toque para as pessoas buscarem mudanças nas suas comunidades e para lutarem por melhorias no sistema – especialmente para aquelas que não têm o poder para lutarem sozinhas.