Com a saída de Michelle Bachelet no Chile, América Latina fica sem nenhuma presidente mulher

20/11/2017 - 17:03 -
Print Friendly, PDF & Email
Email this to someoneShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0

Momento coincide com eleição de candidatos ligados a elite empresarial. Mulheres são em média 50% da população da região.

(G1, 20/11/2017 – acesse no site de origem)

A eleição presidencial deste domingo (19) no Chile, que definiu Sebastián Piñera, de centro-direita, e o senador de centro-esquerda Alejandro Guillier, no segundo turno, torna iminente algo que há anos não se via na América Latina: a ausência total de presidentes mulheres.

Independente do vencedor, Michelle Bachelet sairá de cena como a última presidente mulher da região.

A mudança é um revés para a representatividade feminina na região, que dois anos atrás tinha simultaneamente três líderes femininas: Bachelet no Chile (2006-2010 e 2014-2017), Cristina Kirchner na Argentina (2007-2015) e Dilma Rousseff no Brasil (2011-2016).

Desde 1974, quando Isabelita Perón foi eleita na Argentina, o continente teve 11 mulheres presidentes, sendo 8 eleitas (veja no quadro abaixo) e 3 interinas.

Presidentes mulheres na América Latina (Foto: Alexandre Mauro/G1)

Presidentes mulheres na América Latina (Foto: Alexandre Mauro/G1)

Especialistas ouvidos pelo G1 indicam que uma América Latina governada apenas por homens não representa as mulheres da região, que em média são metade da população, e reflete um problema mundial que não é novidade: a desigualdade de gênero na política.

O momento coincide com a chegada de novos governos mais conservadores do que os da chamada “onda rosa”, quando candidatos ligados a partidos de centro-esquerda foram eleitos no início dos anos 2000. As posses de Maurício Macri, em 2015, na Argentina, e Pedro Pablo Kuczynski, no ano passado, no Peru, são exemplo disso.

Para a diretora da ONU Mulheres para a América Latina e Caribe, Luiza Carvalho, os partidos da região “têm demonstrado pouca habilidade em fazer apostas em candidaturas de mulheres”. Além disso, segundo explica, a recente tendência eleitoral latino-americana aponta para a escolha de candidatos ligados a uma elite empresarial, outro âmbito em que as mulheres ainda são minoria.

“A trajetória dos líderes na Europa está muito vinculada à sua vida partidária. Há um crescimento dentro do espaço político. O que estamos vendo aqui na América Latina, nessa saída das mulheres e a chegada de homens, é uma vinculação com uma elite empresarial. Normalmente as mulheres têm dificuldade para serem líderes dentro da sua classe empresarial”, diz ao G1.

Mulheres no Chile

Beatriz Sánchez e Carolina Goic, candidatas presidenciais no Chile (Foto: Ivan Alvarado/ Reuters)

Beatriz Sánchez e Carolina Goic, candidatas presidenciais no Chile (Foto: Ivan Alvarado/ Reuters)

Ainda que houvesse duas mulheres competindo nas eleições chilenas – Beatriz Sánchez, do Frente Amplio (FA), de esquerda, e Carolina Goic, do oficialista Partido Democrático Cristiano -, o cientista político e professor da Universidade de Santiago Marcelo Mella diz que só é possível atingir a igualdade de gênero na política com reformas estruturais nos partidos.

“No caso do Chile, os partidos estão estabelecendo códigos de boas práticas no sentido de apoiar uma maior inclusão de representação de mulheres nos cargos de direção e na nomeação a candidatos ao Congresso. Mas a verdade é que ainda há uma grande brecha entre homens e mulheres, para que compitam em iguais condições, e isso não vai se resolver até que existam políticas públicas que permitam resolver questões estruturais”, diz o professor.

Obstáculos

Alguns dos principais obstáculos institucionais para que uma mulher consiga se candidatar e eleger na América Latina são o acesso mais difícil a financiamento de campanha e às estruturas internas dos partidos, explica a pesquisadora do Grupo de Estudos de Gênero e Política da Universidade de São Paulo (USP), Beatriz Rodrigues Sanchez.

Para a eleição de cargos legislativos, outro fator agravante do ponto de vista da representação igualitária é o sistema de lista aberta, em que os candidatos competem individualmente, como ocorre no Brasil. “Os países em que a representação política das mulheres é maior adotam um sistema eleitoral de lista fechada, com alternância de gênero. O eleitor vota nessa lista, e não nos candidatos”, afirma.

A ex-presidentes Cristina Kirchner e Dilma Rousseff em imagem de arquivo (Foto: Roberto Stuckert Filho / Presidência)

A ex-presidentes Cristina Kirchner e Dilma Rousseff em imagem de arquivo (Foto: Roberto Stuckert Filho / Presidência)

 

Na América Latina, alguns dos países que adotam a lista fechada são a Argentina, Costa Rica, Colômbia, Paraguai e Uruguai.

Avanço no Legislativo

Apesar da ausência de presidentes mulheres na região, a representação feminina tem avançado nos cargos legislativos. O porcentual de mulheres nos Congressos nas Américas saltou de 20,6% em 2008 para 28,1% em 2017, segundo dados da ONU Mulheres. O índice deste ano está acima da média mundial (23,3%) e perde apenas para a participação feminina no legislativo dos países nórdicos, que é de 41,7%.

No Brasil, o índice de representação feminina na Câmara dos Deputados é de 10,7% e no Senado 14,8%. O país é um dos piores da América Latina neste quesito, ficando à frente apenas do Belize e do Haiti.

Para avançar neste campo, muitos países da região aprovaram lei de cotas para candidatura de mulheres a cargos legislativos e no caso de cinco deles – Bolívia, Equador, Costa Rica, Nicarágua e México – a taxa tem que ser de 50%.

“É certo que na maior parte dos países a discussão sobre paridade de gênero nos cargos de representação pública está instalada e é um processo sem volta”, afirma o professor da Universidade de Santiago, Marcelo Mella.