‘Banho de cândida’ e pregador para afinar o nariz: quando o racismo está dentro de casa

26/06/2017 - 15:50 -
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O que acontece quando existe racismo dentro de casa? De que maneira ele se manifesta? Como casamentos inter-raciais podem gerar crianças que são segregadas, no próprio ambiente doméstico, por causa de sua cor? Por que muitas pessoas brancas negam a raça negra de seus cônjuges –por elas escolhidas– e até de seus filhos? Algumas respostas para estas perguntas aparecem em um estudo da doutora em psicologia social Lia Schucman, que pesquisa as relações raciais no Brasil.

(UOL, 26/06/2017 – acesse no site de origem)

Para seu trabalho de pós-doutorado na USP (Universidade de São Paulo), intitulado “Famílias Inter-Raciais: Tensões entre Cor e Amor”, ela entrevistou 13 famílias que se dispuseram a falar sobre o tema –muitas vezes em conversas pontuadas por tensão e discordância em relação a raças. No final, a psicóloga usou relatos de cinco famílias com diferentes manifestações daquilo que Lia chamou de “racismo de intimidade”.

Racismo na cantiga de ninar

Há extremos, como o caso de violência racista presente em uma cantiga de ninar cantada pela mãe branca para sua filha negra: “Dança negrinha. Não sei dançar. Pega no chicote que ela dança já”. Na outra ponta desta história aparece uma mãe branca que, de forma instintiva, ajudou seus filhos na construção de uma identidade negra positiva.

Abaixo, os resumos dos relatos registrados e analisados na pesquisa, que a psicóloga pretende transformar em livro ainda neste ano.

João*, 24, considerava-se diferente de todos em sua casa e, por isso, já quis tomar banho de cândida. Hoje, se define como negro. Sua mãe, branca, diz que “ele começou com isto [esta classificação racial] depois de ir para a universidade, mas não é negro”.

Juliana*, 36, é parda. Sua mãe, branca, desmanchava os penteados feitos na infância pelas primas –isso porque eles a deixavam “mais negra”. Quando garota, se sentia fisicamente inadequada. Hoje, a mãe ainda chama de “roupa de negros” suas vestes coloridas.

Amanda*, 25, não sabe sua raça. Não se sente branca, como o pai –em viagem à Europa, acredita ter sido considerada uma “não branca”. Tampouco se sente negra, como a mãe. Enquanto a progenitora foi tomada muitas vezes por babá da filha, Amanda diz nunca ter sofrido preconceito.

Dulci*, 37, quase teve o cabelo alisado na infância pela mãe, branca. Mas a mulher reavaliou (“por que só o liso é arrumado?”) e levou a filha, negra, para trançar os fios. Sempre assegurou que o nariz e cabelo da garota eram lindos. Seu irmão Daniel, 35, se lembra também de a mãe dizer chamar de lindos os negros que apareciam na televisão.

Mariana*, 32, era a filha mais parecida com o pai, negro, entre seu irmão e suas quatro irmãs. Ganhou da família o apelido de “nega”. Esse era o carinhoso. Na hora da raiva, sua mãe, branca, a chamava de “preta fedida”, “sovaco fedido”, “macaca” e apontava seu “cabelo de Bombril”. Quando criança, dormia com pregador no nariz, pois a mãe dizia que assim ele poderia afinar.

Racismo de intimidade

Também autora da tese de doutorado “Entre o ‘Encardido’, o ‘Branco’ e o ‘Branquíssimo’: Raça, Hierarquia e Poder na Construção da Branquitude Paulistana”, Lia Schucman explica que o racismo no Brasil não necessariamente segrega. Em alguns casos, como mostra a maioria dos relatos acima, ele faz parte da intimidade. “Não é porque existe intimidade, afeto e amor que não existe racismo: ele não anula esses sentimentos, mas certamente hierarquiza as relações”, define a pesquisadora. Isso, na prática, se traduz naquele discurso do “não sou preconceituoso, tenho até um amigo preto”.

Quando esse tipo de manifestação aparece dentro na família, as consequências podem ser ainda mais graves. “A obrigação dos pais passa pelo cuidado que eles têm com seus filhos. Portanto, é muito violento quando o racismo está justamente no ambiente onde se espera encontrar amor, proteção, acolhimento. Se a questão racial divide a família, considerada um núcleo, a cicatriz é ainda maior”, explica a psicóloga.

Isso fica claro com o relato de Mariana. “Ser preta, para mim, dói. É uma coisa que não está bem resolvida porque me traz muitas lembranças doloridas”, conta. Mas, há alguns anos, ela luta para mudar isso. A primeira pessoa que ouviu falando claramente sobre a questão racial, de uma forma como se identificou, foi o rapper brasileiro Mano Brown. Desde então, aderiu a grupos de militância negra, assumiu o cabelo natural (antes alisado) e hoje faz terapia –tudo isso, segundo a pesquisadora, permite que Mariana se “desidentifique” com a forma negativa como a mãe branca a ensinou a ser negra.

“Estou trabalhando isso na terapia e sei que vou conseguir um dia me olhar no espelho e não ver aquela criança que eu fui. […] Eu não consigo me livrar disso ainda. É muito doído.”
Mariana, 32, sobre a aceitação de sua raça.

Negação da negritude

Quando a mãe a xingava e Mariana chorava, a adulta muitas vezes mudava de atitude e a consolava. Dizia que o pai era macaco, e não a garota, porque ela era “mais clara”. A situação ilustra o que a pesquisadora define como negação da negritude, existente inclusive entre cônjuges: para amar um negro, muitos os “embranquecem”.

“O que se nega não é a cor real do outro, mas sim todo o significado racista que recairá sobre o outro ao nomeá-lo como negro. Temos, portanto, o paradoxo da negação, pois o que parece solução contra o racismo acaba por reafirmá-lo. Em outras palavras, para ficar longe do significado racista sobre ‘ser’ negro, estas pessoas negam a negritude e perdem a possibilidade de desconstruir os estereótipos negativos atrelados ao ‘signo’ negro”, explica Lia em seu estudo.

“Parece que minha mãe pintou meu pai de branco, ela nunca nem sequer falou a palavra ‘negro’ para descrevê-lo. Eu não entendo como, mas ela parece ter continuado racista.”
Juliana, 36, sobre como a mãe nega a raça de seu pai

É justamente o contrário do que fez Jussara*, 66, mãe de Dulci, Daniel e José* (único dos três filhos que se considera branco, por ter nascido com a pele muito clara). Ela, branca, casou-se com Guilherme, autodeclarado moreno. Desde o começo, percebeu a existência do racismo (algo que que seu marido nega) e educou seus filhos para desconstruí-lo, trabalhando com eles a consciência racial e a valorização de suas origens. A filha se lembra de quando chorou, pois disseram na escola que seu nariz era de batata. No que ouviu da mãe: “Você é linda, seu nariz é lindo, seu cabelo é lindo! Não deixe que o outro decida quem você é”.

* Os nomes foram trocados pela pesquisadora para preservar as identidades de seus entrevistados

Juliana Carpanez