Crianças negras são mais ativas nos espaços distantes do racismo

25/10/2017 - 15:55 -
Print Friendly, PDF & Email
Email this to someoneShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0

Pesquisa mostra como o contato dos pequenos com as culturas ancestrais estimula maior participação e criatividade

(Jornal da USP, 25/10/2017 – acesse no site de origem)

Em uma escola pública de Salvador, na Bahia, o contato de crianças negras com suas culturas ancestrais as torna mais participativas e criativas, principalmente no que se refere às suas conquistas e interesses em relação aos adultos. “Existe naquele espaço uma participação intensa das crianças em atividades como dança, grafite, teatro e percussão”, conta a educadora Míghian Danae Ferreira Nunes. Por um período de cerca de um ano (2014-2015), ela acompanhou cerca de 14 crianças, com idade média de quatro anos, estudantes da escola municipal Malê Debalê, localizada no bairro de Itapuã, em Salvador, para seu estudo de doutorado desenvolvido na Faculdade de Educação (FE) da USP.

A pesquisa Mandingas da Infância: as culturas das crianças pequenas da escola municipal “Malê Debalê”, em Salvador (BA), que teve orientação da professora Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento, mostra como os pequenos daquela unidade apresentam um comportamento diferente, se comparado ao dos que estudam em colégios convencionais. A escola é uma associação entre o Bloco Afro Malê Debalê e a Prefeitura Municipal de Salvador. “A administração municipal entra com recursos materiais e humanos, e o bloco, com as instalações físicas; nelas, ocorrem também atividades culturais das quais as crianças participam intensamente ”, conta Míghian.

Na escola municipal Malê Debalê, a administração municipal entra com recursos materiais e humanos, e o bloco, com as instalações físicas (Foto: Míghian Danae Ferreira Nunes)

“Minha intenção não foi estudar, analisar ou denunciar situações de racismo para com as crianças negras, mas tentar descobrir como elas enxergam o mundo a partir de uma experiência em que não sejam vítimas do racismo interpessoal, aquele que está presente desde muito cedo nas escolas e faz com que as crianças não se sintam bem ao estarem lá, por serem o tempo todo agredidas, verbal e fisicamente, por sua condição racial”, descreve a pesquisadora.

A partir de suas próprias experiências em escolas tradicionais, Míghian destaca que na Malê Debalê não há situações em que uma criança negra prefira ficar sentada nas últimas fileiras ou seja submetida a tratamentos discriminatórios. “Ainda pode-se perceber nas escolas convencionais crianças negras sendo tratadas por apelidos como ‘buiú’, ‘neguinho’, ‘pretinho’, entre outros. Na Malê Debalê não percebi qualquer situação desse tipo”, exemplifica, ressaltando que, apesar disso, “é correto afirmar que é possível encontrar o racismo institucional instalado quando não temos uma escola com recursos materiais e humanos, funcionando de maneira precária, que continua a ver a criança negra como portadora de déficit intelectual. As crianças negras que frequentam as escolas da periferia brasileira sofrem esse racismo cotidianamente, ainda que estejam em espaços onde se vejam representadas”.

A escola atende cerca de 200 crianças em Itapuã, em Salvador (BA), e tem 11 anos de existência (Foto: Míghian Danae Ferreira Nunes)

Sociologia da infância

De início, o principal objetivo de Míghian era fazer um registro historiográfico da unidade de educação a partir do acompanhamento do dia a dia das crianças. “Ao chegar lá, percebi uma participação intensa e ativa das crianças em praticamente todas as atividades”, conta a pesquisadora. A partir de suas observações, ela optou por adotar o conceito teórico da sociologia da infância, tal como ele vem sendo desenvolvido a partir da década de 1970. “Partimos do princípio de que as crianças não serão, mas já são, e que necessitam ter espaço para falar dos seus pontos de vista e serem consideradas”, justifica Míghian.

“Minha intenção não foi estudar, analisar ou denunciar situações de racismo para com as crianças negras, mas tentar descobrir como elas enxergam o mundo a partir de uma experiência em que não sejam vítimas do racismo interpessoal, aquele que está presente desde muito cedo nas escolas e faz com que as crianças não se sintam bem ao estarem lá, por serem o tempo todo agredidas, verbal e fisicamente, por sua condição racial.”

Assim, a educadora fez incursões diárias à escola para simplesmente acompanhar as atividades das crianças e fazer anotações sobre seus comportamentos. Por serem de um grupo racial homogêneo, predominantemente negras, aquelas crianças participavam intensamente das atividades do bloco afro. “Além do estudo convencional, elas tinham como base o tema do bloco para o próximo carnaval de Salvador. Lá no Malê Debalê os temas são discutidos em sala o ano todo, juntamente com os alunos.” A escola atende cerca de 200 crianças em Itapuã e tem 11 anos de existência. Até então, segundo Míghian, não havia nenhum estudo acadêmico sobre a instituição. Para a pesquisadora, este descaso demonstra parte do desinteresse da academia em estudar a história da educação brasileira a partir da história dos grupos brasileiros que não aqueles que possuem uma influência europeia.

Por serem de um grupo racial homogêneo, predominantemente negras, as crianças participam intensamente das atividades do bloco afro Malê Debalê (Foto: Míghian Danae Ferreira Nunes)

O corpo fala

Em suas observações, Míghian percebeu que, fora da escola convencional, aquelas crianças negras usavam de algumas estratégias para obter suas conquistas e interesses em relação aos adultos. “É o que denomino ‘mandinga’, expressão tomada de empréstimo da capoeira e utilizada na tese como um conceito para falar sobre as estratégias das crianças para fazer frente ao mundo adulto. E isso observei ao me aproximar do ponto de vista das crianças, quando elas próprias acabaram por apresentar alguns temas, entre eles, a relação com os adultos, que não eram vistos como pessoas naturalmente detentoras de autoridade, ou seja, as crianças estão sempre questionando o lugar do adulto na sociedade e também a relação com o corpo, que para elas tem perspectivas diferentes das nossas, comunicando muito das suas mandingas”, descreve.

Nestas negociações, segundo a pesquisadora, não apenas as palavras são utilizadas, mas as expressões corporais também surgem com força. Além dos pequenos, de modo secundário Míghian também observou as ações dos adultos. Entre tantas observações, a pesquisadora constata que o estudo demonstrou que, embora as crianças estejam num espaço em que as culturas negras são vivenciadas, tanto os meninos quanto as meninas negras ainda são submetidos a normas de raça, sexo e gênero. “Apesar disso, foi na intersecção entre as mulheres negras presentes no campo de estudo que foi possível, em primeiro lugar, desfazer a ideia de um adulto universal e perceber as possibilidades de encontro entre adultos e crianças a partir de lugares comuns de opressão entre nós e elas.”

“Foi na intersecção entre as mulheres negras presentes no campo de estudo que foi possível desfazer a ideia de um adulto universal e perceber as possibilidades de encontro entre adultos e crianças a partir de lugares comuns de opressão entre nós e elas.”

Além disso, ressalta, foi importante perceber que “às crianças, outras coisas importam do que apenas fazer frente ao mundo adulto. Elas também têm suas próprias questões a resolver, que não se relacionam apenas em resistir ou combater. Resta a nós, assim, um olhar menos ‘adultocêntrico’ para enxergar nos mundos das crianças seus próprios termos, aprendendo com elas a, literalmente, deslocar nossos pontos de vista para construirmos relações menos verticais entre nós. Perceber estas questões a partir do convívio com crianças negras, grupo social alijado dos espaços de poder e participação social privilegiada em nossa sociedade, só reforça a importância que estes deslocamentos têm”.