Em audiência pública, ONU lembra marcos globais para a defesa dos direitos das brasileiras afrodescendentes

19/07/2017 - 15:54 -
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Em audiência pública no Senado Federal, na última quinta-feira (13), a ONU Mulheres discutiu os marcos internacionais que orientam as iniciativas das Nações Unidas na defesa dos direitos da população negra no Brasil e no mundo. Evento promovido mensalmente pela Procuradoria Especial da Mulher lembrou o Julho das Pretas para discutir desafios enfrentados pelas mulheres afrodescendentes brasileiras.

(ONU Brasil, 19/07/2017 – acesse no site de origem)

Eunice Borges, assessora do Programa Liderança e Participação Política da agência da ONU, abordou a Conferência e o Plano de Ação de Durban, a Década Internacional de Afrodescendentes e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A especialista também apresentou a estratégia de comunicação e mobilização política do organismo, chamada Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030.

“O que temos feito é caminhar de mãos dadas, apoiando o movimento de mulheres negras, que no Brasil tem uma capilaridade extraordinária, para que juntas possamos trabalhar um Planeta 50-50 que seja justo para todos e todas, sem deixar ninguém para trás”, apontou.

A audiência pública organizada pela Procuradoria é conhecida pelo nome Pauta Feminina. O encontro de julho foi a 44ª reunião organizada pela entidade do Senado. Encontro celebrou os dias de Tereza de Benguela, ícone na luta anti-escravocrata no Brasil, e da Mulher Afro-latina, Afro-americana, Afro-caribenha e da Diáspora, celebrados no próximo 25 de julho.

Mulheres envolvidas no ativismo pela igualdade

Também presente na reunião, Agda Alves, negra e nordestina, contou que se encontrou no ativismo após ficar cadeirante e vir para Brasília com os filhos. Atualmente, representa 85 mil brasilienses no Coletivo de Mulheres com Deficiência do Distrito Federal. À frente do grupo há um ano, ela avalia que a principal demanda das mulheres é por empoderamento.

“A mulher precisa ocupar espaço empoderando outras mulheres. Não vamos conseguir sozinhas, por isso, temos que nos ajudar no dia a dia. As mulheres precisam se unir para mudar a história do Brasil com união e educação”, defende.

Eunice acrescentou que é preciso acabar com o racismo para que as mulheres possam se empoderar entre si, para que à medida que uma suba, possa puxar a outra para ocupar os posições importantes de representação. “Se o racismo estrutural não acabar e as discriminações não forem combatidas por todos, a gente não consegue puxar as outras num ambiente que não nos permite alcançar a igualdade”, avaliou.

Articulação pela tecnologia, pela arte e pela educação

Flora Egécia, cineasta e diretora do documentário “Das Raízes às Pontas”, destacou o papel da internet e das redes sociais para que um maior número de mulheres negras e não negras possam falar sobre suas realidades, preenchendo lacunadas deixadas pela mídia tradicional, que ainda as exclui.

“Ainda que o acesso não seja tão amplo, quando isso acontece, elas encontram uma rede de apoio, para a continuação da luta. Não ser a única mulher negra fazendo o que eu faço é muito encorajador. Produzir ativismo a partir da ferramenta do audiovisual é uma revolução”, contou.

Também presente na audiência, a jornalista e dançarina Joceline Gomes encontrou na dança o seu ativismo contra o racismo. Segundo ela, a vasta cabeleira crespa, que exibe com orgulho, é sempre alvo de comentários preconceituosos e mãos indiscretas. Ela associa esses episódios à herança escravocrata e à visão do corpo negro como algo público. Joceline tenta desconstruir essas tendências com sua arte.

“Quando a gente dança, eu coloco esse corpo, que é meu, não é público, como eu quero, como eu desejo executar. A dança é um instrumento de empoderamento”, argumentou.

Uma das pautas do debate foi a Lei 10.639/2003, sobre o ensino da história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas do Brasil. Para Joceline, a legislação é um passo importante para empoderar pessoas negras desde a infância, mas a diretiva ainda é negada pelo racismo institucional.

“Nas escolas, com essa lei, poderíamos ter mais referências, ferramentas para fazer a defesa política do nosso corpo, das nossas histórias, da nossa cultura e da nossa trajetória. O racismo impacta muito mais na vida das mulheres negras e cada um de nós precisa fazer alguma coisa dentro da nossa comunidade”, explicou.