MT tem maior número de casos de racismo contra índios do país, aponta relatório

06/10/2017 - 16:43 -
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Levantamento mostra situações diversas: índios que sofreram discriminação em hospitais, delegacias e nas próprias aldeias. Mato Grosso tem 52 terras indígenas.

(G1, 06/10/2017 – acesse no site de origem)

Mato Grosso é o estado que mais se registra casos de racismo e discriminação étnica contra índios no país, segundo relatório divulgado nessa quinta-feira (5) pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). De acordo com o relatório, houve um aumento significativo de tipos de violência e violação de direitos dos indígenas no estado, que conta com 52 terras indígenas.

O Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, com dados de 2016, apontou que Mato Grosso teve o maior número de casos de racismo. Em uma das situações, um delegado disse para uma jornalista que sentia ‘inveja’ dos colegas do sul do Brasil. A autoridade policial teria comentado que ‘Lá, eles não têm índios para se preocupar’. A situação ocorreu na cidade de Ribeirão Cascalheira, a 893 km de Cuiabá, e envolveu xavantes da Terra Indígena Pimentel Barbosa.

Índios bloquaram rodovia em protesto contra prisão de indígenas durante caça, em 2016, em  Ribeirão Cascalheira (MT) (Foto: Polícia Rodoviária Federal de MT)

Índios bloquaram rodovia em protesto contra prisão de indígenas durante caça, em 2016, em Ribeirão Cascalheira (MT) (Foto: Polícia Rodoviária Federal de MT)

As lideranças indígenas denunciaram, na época, o tratamento que policiais civis e militares deram a três indígenas xavantes. Eles caçavam um caititu dentro da área de reserva legal de uma fazenda que está situada dentro do território Xavante, quando foram autuados e presos. O pretexto foi o fato de portarem três espingardas. O porco seria parte da criação do fazendeiro.

Em 2016, índios fizeram bloqueio em protesto contra a morte de dois indígenas, na BR-070 em Primavera do Leste (Foto: Polícia Rodoviária Federal de MT)

Em 2016, índios fizeram bloqueio em protesto contra a morte de dois indígenas, na BR-070 em Primavera do Leste (Foto: Polícia Rodoviária Federal de MT)

Conforme o Cimi, o animal é um símbolo religioso fundamental do ritual Way´á, que acontece a cada 15 anos. Segundo os indígenas, o gerente da fazenda, em conversa com eles, havia autorizado a caça. Os xavantes foram encaminhados à prisão de segurança máxima de Água Boa.

Além de várias irregularidades, como a ausência do delegado para proceder o interrogatório, os policiais não comunicaram a situação à Fundação Nacional do Índio (Funai). Os três indígenas presos quase não conseguiam se comunicar em português e, segundo denúncia das lideranças, sofreram maus tratos e agressões verbais racistas.

Não havia luz nas celas, onde ficaram em colchões no chão. Além de tudo isso, ainda foram ameaçados de que “se reclamassem, iriam aparecer cabeças cortadas de xavantes”.

Benedito Tserenhõrowe, de 20 anos, morreu atropelado por caminhonete em rodovia (Foto: Jorge Temaité Dzamirê/ Arquivo pessoal)

Benedito Tserenhõrowe, de 20 anos, morreu atropelado por caminhonete em rodovia (Foto: Jorge Temaité Dzamirê/ Arquivo pessoal)

Ainda no levantamento, o Cimi pontua que em Primavera do Leste, a 239 km de Cuiabá, indígenas Xavanteque protestavam contra o atropelamento de um membro de sua comunidade, foram alvos de comentários racistas de internautas: “Esses patifes adoram fazer pedágio, tem mais é de atropelar mesmo!” e “Estou com você, atropela esses bichos que não servem para nada”.

Numa fila de hospital em Cuiabá, uma indígena Myky também foi alvo de discriminação. Com a filha no colo, ela esperava para ser atendida no hospital. No entanto, ela foi afastada da fila de atendimento por pessoas que protestaram dizendo: “ela é índia, tem que esperar, o direito é nosso”.

Em Juína, a 737 km da capital, os Enawenê-Nawê também foram alvo de discriminação e racismo em postagens na internet: “Não sei qual é a raça pior… índios ou ciganos… Só tumultuam, além de serem lixos de pessoas. O certo é exterminar tudo”, diz outro internauta.

Há relatos de discriminação também na terra indígena Kanela, em Luciara, a 1.180 km de Cuiabá. Nessa região, de acordo com o relatório, os índios sofrem com a discriminação de grande parte da sociedade, que não os reconhece como povo indígena.

Cenário

Para o Cimi, pode-se dizer que o patrimônio indígena foi ‘duramente atacado’ ao longo do ano de 2016. Sem recursos para realizar a proteção e fiscalização das terras indígenas, os órgãos mantiveram-se distantes delas, o que desencadeou uma intensa ofensiva de madeireiros sobre as florestas existentes nas áreas de comunidades e povos indígenas, especialmente nos estados de Rondônia, Mato Grosso, Pará, Acre e Maranhão.

Foto tirada durante o Encontro dos Povos Indígenas de Mato Grosso, em 2016 (Foto: Lucas Ninno/GCOM-MT)

Foto tirada durante o Encontro dos Povos Indígenas de Mato Grosso, em 2016 (Foto: Lucas Ninno/GCOM-MT)

Em Mato Grosso, o relatório contabilizou nove casos relativos a invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio. Também conta no levantamento dois casos de ameaça de morte contra indígenas: um deles na terra indígena Kanela, em Luciara.

As lideranças afirmaram que os indígenas são constantemente ofendidos com ameaças e palavras de baixo calão por alguns moradores da região, que teriam declarado que os tirariam de lá à força, custe o que custar. Os moradores aparecem armados de repente na aldeia, querendo conhecer as lideranças e, muitas vezes, impedem os indígenas de extrair materiais, como madeira e palha, para a construção dos barracos, ateando fogo em volta da aldeia.

Outra situação documentada ocorreu na terra indígena Arareião e Piebaga, em Rondonópolis, a 218 km de Cuiabá. Segundo a comunidade, um homem, não indígena, casado com uma índia, anda sempre armado dentro da aldeia, atirando e ameaçando os indígenas de morte.

Há suspeitas de que ele esteja envolvido com garimpo e extração de madeira. Ele costuma dizer que ‘os indígenas são trouxas, que vai extrair quantas madeiras quiser e que lá é ele que manda’. Já trouxe três homens de fora, sendo que um deles está morando com uma indígena de 12 anos. A comunidade afirmou que tem medo de se manifestar por causa das ameaças.

Denise Soares