As iniciativas culturais e sociais que combatem a cultura do estupro em Brasília e no Brasil

25/03/2017 - 14:26 -
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No cinema, na música, na literatura, nas ruas, as mulheres estão unidas para subverter violências e abusos do dia a dia.

Uma jovem sai do trabalho e se reúne com algumas colegas do mesmo ofício. Gostos parecidos ou afinidades pessoais? Nada disso. O que as une é o medo de enfrentar o caminho até a parada de ônibus sozinha. Juntas, elas se sentem mais fortes. Indiretamente, todas carregam um temor que acompanha a maior parte das mulheres brasileiras: o de serem vítimas de estupro.

(Huffpost Brasil, 25/03/2017 – acesse no site de origem)

A sensação de vulnerabilidade não é frescura. Recentemente, uma pesquisa conduzida pelo Datafolha constatou que um em cada três brasileiros culpa as vítimas pelo violência sexual sofrida.

Cerca de 33% da população ainda reproduz discursos do conjunto de crenças que responsabilizam a mulher. Entretanto, 67% não pensam dessa forma. Em parte, graças a iniciativas que põem fim à famigerada cultura do estupro. O objetivo? O consenso geral e definitivo de que quando uma mulher diz não, é não. E ponto.

Corrente do bem

O relato de mulheres famosas que revelaram os abusos sexuais sofridos durante a infância, adolescência e até na idade adulta faz que outras mulheres se sintam mais motivadas a primeiramente entender o que é o estupro, que não necessariamente envolve ato sexual. Elas também se sentem mais dispostas a denunciar casos pessoais.

Celebridades como Rita Lee, Xuxa, Luana Piovani, Luiza Brunet, Madonna e Oprah Winfrey já compartilharam situações de abuso e violência. Em comum, deixam claro que a vítima, elo mais fraco da situação, precisa de proteção, apoio e cuidado. Sem julgamentos.

Feminismo para todos

Mais que replicar conceitos, a brasiliense Nana Queiroz preferiu confrontá-los na obra Você já é feminista — Abra esse livro e descubra o porquê.

São 23 artigos sobre o movimento que ganhou força nos últimos anos divididos em temas, um deles dedicado ao assunto.

Para que o estupro não seja uma ameaça recorrente, a melhor ferramenta, defende a publicação, é a construção de uma sociedade com menor disparidade de gêneros e que humanize a mulher, deixando de vê-la como um objeto.

Em 2014, Nana Queiroz ficou mundialmente conhecida por liderar a campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada, reação da internet diante de uma pesquisa segundo a qual 1/4 dos brasileiros condenavam as vítimas pelo estupro, em vez dos algozes.

Nem a roupa, nem a comportamento ou a hora que saiam às ruas dá o direito de invasão do corpo feminino. A campanha foi endossada por nomes como Valesca Popozuda, Juliana Paes e Claudia Leitte. A hashtag ainda é usada como forma de protesto nas redes sociais.

Desde então, Nana tem sido uma das mais importantes vozes do movimento feminista brasileiro. Segundo a escritora, a equidade entre homens e mulheres está intrinsecamente ligada à informação.

Para disseminar um pensamento humanitário, em busca de uma sociedade justa e segura, o livro lançado em 2016 derruba estereótipos com escrita simples e conteúdo aprofundado.

“Há quem ache que a cultura do estupro significa que todo homem é estuprador. Não é isso. Ela naturaliza a violência, pondo a culpa na mulher”, explica Nana Queiroz.

Ouça a entrevista com a jornalista:

Espelhos da alma

Lançado na última edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário Câmera de Espelhos, da diretora pernambucana Dea Ferraz, também enfrenta a cultura do estupro. No filme, 14 homens selecionados em um anúncio de jornal conversam como se estivessem em uma mesa de bar.

Provocados a falar sobre como enxergam as mulheres por meio de vídeos exibidos em uma tela, os diálogos revelam o conservadorismo em relação a questões como a violência sexual. Mais que estimular uma “guerra dos sexos”, Dea pretende discutir, de maneira aberta, o machismo que habita o imaginário comum, em frases como: “Se sai com uma roupa dessas, ela quer o quê?”, dita por um dos personagens do filme.

A película não pretende demonizar os homens, mas construir, com eles, um caminho sólido e consciente de revisão de atitudes, gestos e comportamentos sociais.

Entrevista Dea Ferraz

Cerca de 65% das mulheres têm medo de sofrer violência sexual. Como chegamos a esse ponto e o que podemos fazer para reverter esse quadro?

É preciso estar atenta e pronta para combater o machismo cotidiano, apontado-o e denunciando-o o tempo inteiro. Porque enquanto não nos damos conta das pequenas violências, parece que há algo que nos permite aceitar ou justificar as grandes. Precisamos sensibilizar os homens para uma reflexão sobre os lugares que eles ocupam nisso tudo. Mas as mulheres precisam se empoderar. As ações devem ser muito mais profundas e, certamente, devem nascer daquelas que são as oprimidas, ou seja, devem nascer das mulheres — cis e trans. O filme Câmara de Espelhos traça um retrato do machismo no País.

Que paralelo podemos estabelecer entre a cultura machista e a do estupro?

Há algo na expressão ‘cultura do estupro’ que sempre me incomodou. Era como se me passasse uma ideia que minimiza a questão, mas que eu não entendia muito o porquê. Até que ouvi de uma professora maravilhosa da UnB, Rita Segato: ‘O que a gente chama de cultura é uma coisa estabilizada, inocentada, simplesmente um costume. Estupro não é cultura, é significado de uma falência do Estado e também da própria sociedade. Trata-se de um processo histórico desequilibrado e genocida. Então, acho profundamente infeliz utilizar essa expressão quando estamos tratando de um assunto sério como esse’. É como se a cultura machista em que vivemos encontrasse seus meios e justificativas para minimizar o problema da violência do estupro, que, como diz Segato, é justamente a falência da nossa sociedade machista e patriarcal.

Inimigo íntimo?

Dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, no Brasil, todos os anos, 50 mil pessoas são estupradas. Embora seja associada a um crime monstruoso cometido por desconhecidos em becos escuros, a verdadeira face do criminoso é outra.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) comprovaram que 67% dos casos de violência entre as mulheres são cometidos por parentes próximos ou conhecidos das famílias das vítimas — a maioria com menos de 18 anos.

Foi o que aconteceu com a estudante de cinema carioca Marccela Moreno. Ela se recusou a transar. Ainda assim, o ex-namorado a obrigou a ter relação sexual com ele. Mais que o corpo, a atitude machucou a alma.

Demorou alguns dias até ela perceber: havia, sim, sido vítima de violência. Aquela que se demora a constatar mas, lamentavelmente, a mais comum de acontecer. Ao conversar com amigas sobre o caso, percebeu que muitas, infelizmente, já haviam passado por situação parecida.

A partir dessa constatação, Marccela decidiu tornar público o caso em O mais barulhento silêncio, documentário que questiona como todas as responsabilidades recaem nas costas da mulher — até mesmo a de evitar o estupro.

Mais uma vez, o cinema independente, moderno e ligado a questões feministas se engajou, convocando mulheres e homens a se posicionarem contra o senso comum de que a vítima provocou o agressor.

A carioca defende a tese de que os meninos, desde a mais tenra idade, devem ser orientados a respeitar os direitos da mulher. Ainda pequenos, precisam entender que um não é um simples e apenas… Não.

Luta sonora

O enfrentamento do conjunto de ideias que perpetuam comportamentos machistas não se restringe à literatura e à sétima arte. Na música, não faltam exemplos de artistas que se posicionaram contra o abismo de gêneros que naturaliza a violência.

Quando lançou A mulher do fim do mundo, em 2015, Elza Soares fez história. Tratou de agressões domésticas em Maria da Vila Matilde. Virou musa do empoderamento e, mesmo sem falar abertamente sobre crimes de estupro, divulgou o número 180, que também recebe denúncias com esse teor.

A cantora Lady Gaga foi ainda mais explícita. No ano passado, a americana subiu ao palco da cerimônia do Oscar, em Los Angeles, com vítimas de violência sexual. Na ocasião, cantou a música Til it happens to you (Até que aconteça com você, em tradução literal), trilha do filme Hunting Ground, indicado na categoria melhor canção original. Gaga não levou a estatueta, mas mostrou a milhões de pessoas que assistiam à premiação a dor de quem sofre um estupro.

Até mesmo o serviço de streaming Spotify defendeu que a violência sexual não é culpa da vítima com uma playlist impactante lançada em maio do ano passado, quando uma jovem carioca de 16 anos foi vítima de estupro coletivo. Ela teria sido violentada por mais de 30 homens. Segundo inquérito policial, sete deles foram indiciados pelo crime. Nem todos foram presos.

Acolhimento

A situação é ainda mais alarmante do que imaginamos. Se todos os casos de estupro fossem denunciados, os números seriam infinitamente maiores. No Brasil, somente 10% dos casos são notificados.

As Delegacias da Mulher são os locais mais indicados para receber e investigar esse tipo de crime. O número 180 também. Entretanto, muitas vítimas se sentem coagidas porque não são raros os casos de autoridades que desconfiam do relato ou que as constrangem com perguntas como: o que você estava vestindo quando o crime aconteceu?

Algumas delas não se sentem confortáveis para ir até a delegacia registrar um boletim de ocorrência. Simplesmente desistem de punir os verdadeiros culpados. No Distrito Federal, de janeiro a julho desse ano aconteceram mais de 300 casos de estupro, segundo a Segurança de Segurança Pública.

A maior parte dos estupros não ocorreu no Plano Piloto, mas em regiões como Ceilândia, Planaltina, Gama e Samambaia (veja infográfico). Uma prova de que nas comunidades mais afastadas dos grandes centros e com renda per capita inferior, o crime aparece com mais frequência.

Moradora de São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal, a baiana Hellen Cristhyane Correia acolhe vítimas de violência na Casa Frida, espaço de cultura popular e de empoderamento feminino situado na cidade.

Primeiro, Hellen lhes oferece um teto. Ouve o que têm a dizer e, principalmente, confia nos relatos. Se necessário, encaminha ao Conselho Tutelar ou a polícia.

“Não fazemos pré-julgamentos”, afirma a ativista feminista, que concentra as forças em uma iniciativa totalmente voluntária. Palestras, sessões de cinema, aulas de autodefesa e cursos de capacitação são realizados na residência multicolorida, sem vínculos governamentais ou com partidos políticos, para atender a demanda pessoal e profissional dessas mulheres.

Alguns hospitais do Distrito Federal também estão orientados a receberem mulheres vítimas de violência com tratamento digno, rápido e humanizado, como o HMIB, na Asa Sul, e o Hospital Regional de Ceilândia.

No mapa abaixo, confira alguns endereços do Distrito Federal que oferecem apoio a vítimas de estupro. Um crime que, no que depender da força social e cultural empregada em sentido contrário à ideia que a culpa é da mulher, terá fim.

Artigo escrito por Rebeca Oliveira, jornalista pós-graduanda em Jornalismo Digital e Produção Multimídia

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.