Como é o atendimento médico a uma vítima de estupro

04/09/2017 - 13:53 -
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Exames laboratoriais para ajudar na investigação, pílula do dia seguinte e antirretrovirais, além do acompanhamento psicológico por seis meses. Confira como é o protocolo de atendimento a vítimas de violência sexual.

(Bem Estar, 04/09/2017 – acesse no site de origem)

Após um estupro, a vítima faz o boletim de ocorrência (confira aqui como denunciar) e é encaminhada para o Instituto Médico Legal — caso seja necessário perícia por violência física ou conjunção carnal (introdução do pênis). Depois, recebe medicamentos contra doenças sexualmente transmissíveis e anticoncepção de emergência — a pílula do dia seguinte, para o caso de uma possível gravidez.

Ainda, são feitos exames e a vítima passa pelo serviço social. Ali, são verificadas as circunstâncias do abuso: será avaliado se é necessário chamar o conselho tutelar para o caso de abuso infantil, por exemplo, ou se a vítima tem condições de voltar para a casa.

Por fim, recebe-se encaminhamento para acompanhamento por psicólogo no sistema público por seis meses. O atendimento psicoterapêutico geralmente não é feito na hora mas, em princípio, todos os profissionais devem estar preparados para lidar com o caso com a sensibilidade necessária.

“Muitas vezes, as pessoas chegam sem saber o que vai acontecer. Só a explicação de que ela vai ter todos os cuidados necessários já diminuem a angústia e a ansiedade”, informa Daniela Pedroso, psicóloga que atende vítimas de estupro no Hospital Pérola Byington, referência em violência sexual em São Paulo.

“O primeiro atendimento é importantíssimo e vai definir se a pessoa vai se sentir à vontade para buscar ajuda”, diz Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Mesmo para os casos em que não há estupro “consumado”, com conjunção carnal e penetração, o serviço público está habilitado a lidar com todos os tipos de abuso, informa Daniela, inclusive com atendimento psicoterapêutico oferecido a quem viveu situações similares à que ocorreu no transporte público de São Paulo.

“Lembrei de duas situações parecidas que estou atendendo, algumas ligadas ao ambiente de trabalho”, diz Pedroso. “Mesmo com um sofrimento similar, são poucas as pessoas que buscam ajuda nesses casos.”

Há várias maneiras de se conseguir o atendimento médico: o encaminhamento pode ser feito na própria delegacia ou por outro serviço público. Também é possível chegar em qualquer unidade de saúde e informar sobre o abuso — sem a necessidade de boletim de ocorrência, embora ele seja recomendável. A unidade de saúde irá colocar um protocolo de atendimento em prática ou vai encaminhar a vítima para um centro de referência, informa Daniela Pedroso.

Poderão ser feitos exames de sangue e vaginais para detecção de DSTs e outros testes para subsidiar a investigação, como a procura por vestígios de esperma na vagina, boca, vulva, ânus e outras regiões envolvidas na violência. Medicamentos serão administrados em um prazo de 72 horas (profilaxia pós-exposição para HIV e hepatites virais, além da contracepção de emergência).

Também, a depender do serviço (se for de referência ou não), o profissional de saúde poderá colher a história clínica detalhada, com todos os detalhes da violência sofrida e formas de constrangimento empregadas. Não há prazo para buscar ajuda no atendimento médico.

“Qualquer hora é hora de buscar ajuda. Às vezes, recebemos pacientes com abuso de anos no pronto-atendimento e o protocolo e escuta será com a mesma atenção e cuidado”, relata Ivete Boulos, coordenadora do Núcleo de Assistência à Vítima de Violência Sexual do Hospital das Clínicas de SP.

No Hospital das Clínicas de São Paulo, o núcleo de atendimento à violência sexual funciona 24 horas por dia e o serviço é de excelência, com reconhecimento internacional. Segundo Ivete Boulos, toda a equipe está preparada e treinada para saber reconhecer um abuso, mesmo quando há um trauma físico mais evidente.

“As vítimas podem chegar com um neurotrauma e com uma queimadura no pronto-atendimento. Nós orientamos a equipe a reconhecer que aquilo pode ter acontecido em decorrência de uma violência sexual”, explica Ivete Boulos.

No Hospital das Clínicas, também é feita a coleta de sangue para ver sobre a existência de doenças sexualmente transmissíveis.”É importante saber se a infecção ocorreu pelo abuso”, explica Ivete. No HC, também a contracepção de emergência pode ser dada em um tempo um pouquinho depois de que outros centros: como é usado o levonorgestrel, é possível a aplicação em até 100 horas depois do abuso, ao invés das 72 horas usuais. “Depois vem a fase de vacinas, com imunização para hepatite B, por exemplo, caso não tenha sido administrado ainda.”

Um outro ponto é que, a depender do prazo em que a vítima procurar ajuda, é possível que haja a ocorrência de gravidez. Nesse caso, o aborto é permitido e realizado em hospitais de referência, como o Pérola Byignton. Todo o processo será acompanhado por equipe multiprofissional, informa Daniela Pedroso, que irá informar a vítima de todas as suas opções antes de qualquer decisão.

Pela especificidade do atendimento médico, há uma norma específica só para o acolhimento de vítimas de violência sexual, publicada em 2015 pelo Ministério da Saúde. Segundo a norma, todos os passos do atendimento e testes devem ser feitos com o consentimento do paciente e deve-se respeitar o sigilo absoluto das informações confidencializadas. O cuidado também deve ser integrado, tendo-se em conta a situação de fragilidade da vítima.

“A violência sexual, em razão da própria situação e das chantagens e ameaças, que humilham e intimidam quem a sofreu, pode comumente vir acompanhada de sentimentos de culpa, vergonha e medo, sendo necessário tempo, cuidado e respeito no atendimento e na escuta ofertada nos serviços de saúde e em toda a rede”, detalha a norma.

“Todo o acolhimento deve ser feito em ambiente privativo, com o mais absoluto sigilo”, explica Carmita Abdo.

O tratamento psicoterapêutico

Passado o atendimento emergencial, a vítima será encaminhada para a psicoterapia, em que é acompanhada por seis meses. Aqui, começa um período de entendimento do que ocorreu, e da superação do trauma, muitas vezes consistentes com sintomas de diagnóstico do transtorno do estresse pós-traumático — transtorno de ansiedade com diferentes níveis de gravidade em que a vítima passa a reviver o que passou não raro com o mesmo sofrimento.

Há uma fase de sintomas agudos, em que a vítima apresenta muita ansiedade, insônia e medo de sair de casa, explica Carmita. “É possível que a pessoa se sinta extremamente desmotivada para o trabalho e para o relacionamento social, com medo. É uma experiência intensa nos primeiros dias.”

Os sintomas mais agudos tendem a desaparecer, mas depois vem a fase da “evitação” — quando a vítima passa a evitar encontros sociais ou qualquer situação que possa remeter ao abuso. “Como evitar o transporte público, por exemplo”, diz Carmita. Ivete Boulos conta o caso de uma senhora que passou a evitar ir ao ginecologista e só descobriu que tinha uma doença sexualmente transmissível em decorrência de um abuso após consultar o oftalmologista.

“Ela tinha desenvolvido um problema de visão em função de uma sífilis de um abuso sofrido há uns 20 anos. Ela nunca tinha contado para ninguém, deixou de fazer os exames ginecológicos, e só descobriu porque foi ao oftalmologista, um especialista em que não precisava se expor.”

As consequências do abuso podem ser várias. Pacientes podem desenvolver transtornos alimentares, automutilação, dificuldades de autoestima. No limite, o abuso pode até fazer com que a vítima tenha uma tendência a procurar relacionamentos em que a violência se reproduza.

Superação e vários tipos de violência

O caminho para a superação do trauma não é fácil. “Mas aquelas que seguem até o tratamento conseguem sim restabelecer o seu cotidiano”, diz Daniela. No Hospital das Clínicas, o seguimento também é feito por aproximadamente seis meses, mas, a depender do caso, a vítima pode dar prosseguimento ao tratamento na psquiatria.

Daniela Pedroso explica que o trauma independente de ser “estupro com penetração” ou não – como o que ocorreu com vítima em transporte público em São Paulo. Segundo Daniela, o fato é sentido com a mesma violência que estupro com conjunção carnal. “Ela não tem um outro fato para comparar e se sente igualmente vulnerável e exposta”, diz.

“Basta exercer a empatia: não é uma violência você estar dormindo em um ônibus e ser acordada com uma ejaculação?”, questiona a psicóloga.

Daniela explica que os sintomas são similares ao estupro consumado e muitas vezes consistentes com o diagnóstico de estresse pós-traumático: há medo de sair de casa, dificuldades para realizar atividades rotineiras, dificuldades no relacionamento. Há o risco de depressão, fobia social e uma perda total em qualidade de vida se o episódio não for tratado.

“Elas passam pelos mesmos sintomas de quem foi estuprada de fato. Têm medo de sair, dificuldade de se aproximar de um homem. É tudo muito parecido”, diz Daniela.

“Tivemos o caso de uma moça que teve sua roupa rasgada na rua por um grupo. Não houve tempo de acontecer nada, mas ela teve consequências muito sérias”, conta Ivete Boulos.

Ivete Boulos explica que a literatura científica já demonstra que os traumas decorrentes de violência sexual independem de o estupro ser consumado — e que todas as vítimas que buscam o serviço são atendidas. “Embora não necessariamente serão feitos todos os exames, todo o atendimento é feito igualmente e com o mesmo cuidado”, explica.

Monique Oliveira