Para especialista, questão de gênero e violência sexual andam lado a lado

24/05/2018 - 16:21 -
Print Friendly, PDF & Email
Email this to someoneShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0

Parte do problema tem a ver com crenças e atitudes, diz Karina Lira, da ONG Visão Mundial Brasil

(Folha de S. Paulo, 24/05/2018 – acesse no site de origem)

“Faz porque é safada”, “gosta de vida fácil”, “não quer saber de trabalhar”. Crenças como essas, que reduzem a violência sexual a uma escolha da criança ou adolescente, são um problema no combate à exploração sexual, afirma a enfermeira Karina Lira, mestre em saúde pública e assessora de proteção à infância da ONG Visão Mundial.

A organização, criada em 1975 e presente em quase cem países e dez estados brasileiros, desenvolve projetos nas áreas de saúde, educação e proteção à infância voltados para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Mulher morena com blusa verde

Karina Lira, assessora nacional em proteção à infância da ONG Visão Mundial Brasil (Foto: Divulgação)

Para ela, que está há 13 anos na ONG, encarar a questão de uma forma inadequada e machista leva à omissão da sociedade em relação a abusos e à discriminação das vítimas.

Outro percalço no combate ao crime é culpar apenas as famílias pela exploração, não o Estado, que não tem oferecido serviços básicos e condições de sobrevivência para as famílias, diz.

Programas educativos em escolas e de geração de renda são algumas soluções citadas por Lira para evitar que meninas e meninos caiam na rede. Mas diz que toda a sociedade tem a responsabilidade de ajudar no combate, ao não encarar a questão como algo natural e denunciar o crime às autoridades.

Como a ONG atua para combater a exploração sexual de crianças e adolescentes?

Nosso foco é na prevenção. Trabalhamos para reduzir riscos e fortalecer fatores de proteção, como ir à escola, ter uma família presente e conseguir uma capacitação profissional.

O que leva os jovens à rede de exploração?

A pobreza é uma das razões. Algumas famílias, por falta de informação, não buscam alternativas para superar problemas econômicos. Mas culpar só a família pela exploração é perverso. Quando uma criança chega a essa situação, significa que houve uma negação de vários direitos de responsabilidade do Estado. Estão desamparados pelo sistema que deveria garantir serviços básicos e condições de sobrevivência para a família.

O combate ao crime é prioridade para governos?

É preciso ter mais investimentos. Não existe solução simples e única, mas é importante assegurar a permanência de crianças e adolescentes na escola, dar oportunidades econômicas para a família e fortalecer o sistema de proteção de direitos, para que crianças em situação de risco sejam identificadas, e as exploradas sejam acolhidas.

Vocês também acompanham vítimas de exploração?

Há cerca de nove anos, desenvolvemos um projeto em Fortaleza (CE) para identificar meninas exploradas e outras em situação de risco. Foi realizado um programa educativo semanal e um projeto de empreendedorismo e geração de renda para essas vítimas. Houve casos de meninas que estavam naquela situação não só para ajudar a família, mas para poder comprar tênis de marca, biquínis de grife ou jantar em lugares caros. Trabalhamos para que entendessem a questão do consumo e de suas necessidades.

Qual deve ser o papel da família para evitar que os filhos caiam na rede?

Os pais precisam estabelecer um diálogo com os filhos e observar eventuais sinais de mudança em seus comportamentos. Exploração, de maneira geral, não é tão velada quanto abuso. Se acompanharem, souberem onde a criança está, com quem anda, dá para identificar se há algo errado. Também devem ensiná-los desde cedo a dizer não e a pedir ajuda.

A forma com que os meninos são criados colabora para o crime?

Questões de gênero e violência andam lado a lado. É preciso trabalhar com a educação de meninos e meninas sob a perspectiva de igualdade, de valorização do ser humano. Em todas as classes, a criação de meninos precisa ser muito trabalhada, tanto nas escolas quanto nas famílias. É preciso criar espaços de debate, aprendizagem e reflexão.

O que mais leva ao problema?

Parte da violência sexual tem a ver com crenças e atitudes. No caso da exploração, a crença é que a criança ou adolescente está fazendo isso porque quer. Porque é safada. Porque gosta da vida fácil e não quer trabalhar.

De onde vêm essas ideias?

Têm a ver com machismo, com consciência coletiva de que se trata de uma escolha. Se a pessoa tiver uma ideia inadequada sobre violência, vai se omitir e discriminar. Eu já vi homens dizendo que faziam sexo com meninas porque achavam que as estavam ajudando.

A onda de feminismo ajuda na prevenção e combate?

A menina e a mulher são as principais vítimas de exploração e da violência sexual. Então faz sentido que haja uma discussão sobre empoderamento das meninas nos processos de formação. Da parte dos meninos, deve haver uma desconstrução de atitudes machistas e da cultura da violência.

Como as pessoas podem ajudar no combate à exploração?

É fundamental não silenciar diante do que se vê. É um problema tão comum, que a sociedade diz que é coisa do Estado e da família, e se omite. Denunciar é importante. É perigoso que a violência vá se naturalizando.

Júlia Zaremba