SobreElas: Lupa checou 46 promessas feitas por políticos às mulheres

01/04/2018 - 17:08 -
Print Friendly, PDF & Email
Email this to someoneShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0

Ao longo do mês de março, a Agência Lupa analisou 46 promessas feitas por 21 governadores e 19 prefeitos de capital*. A série SobreElas, que somou 33 postagens, também contou com cinco reportagens especiais em que os checadores se aprofundaram em números e em dados oficiais sobre a situação da mulher brasileira. Duas dessas reportagens de fôlego foram derivadas do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), que chocou o país em 14 de março.

(Agência Lupa, 01/04/2018 – acesse no site de origem)

A proposta do trabalho, iniciado na primeira semana deste mês, era checar se haviam saído do papel as promessas de políticas públicas que os políticos fizeram para suas eleitoras nas eleições de 2014 e 2016. Para tanto, a Lupa analisou todos os planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesses dois anos. Em 2014, 21 governadores registraram propostas específicas sobre elas. Em 2016, 19 prefeitos fizeram algum tipo de promessa no mesmo sentido.

Veja a seguir outros números da série:

A série SobreElas envolveu toda a equipe da Lupa ao longo deste mês e repercutiu em cada checador de forma diferente. Veja, a seguir, a opinião de cada um sobre a produção e as revelações extraídas desse trabalho.

Leia mais: 
SobreElas: prefeito de Manaus não construiu casa de passagem que prometeu (Agência Lupa, 30/03/2018)
SobreElas: Crivella cumpre promessa, mas reduz verba para atendimento de grávidas no Rio (Agência Lupa, 30/03/2018)
SobreElas: MG promove ações contra violência, mas feminicídio aumenta (Agência Lupa, 29/03/2018)
SobreElas: CE destaca abertura de Casa da Mulher, mas local segue fechado (Agência Lupa, 29/03/2018)

Cristina Tardáguila, diretora:

A série SobreElas traz dados concretos sobre a situação das mulheres no Brasil e mostra, com enorme clareza, que é preciso cobrar dos políticos que eles cumpram aquilo que escrevem. Fiquei especialmente chocada com projetos aparentemente simples e baratos que não saíram nunca do papel. Ou foi por desinteresse do político eleito ou por descaso com suas eleitoras.

Clara Becker, repórter:

Num primeiro momento, ainda durante a leitura dos programas de governo, em busca de promessas “checáveis”, me saltou aos olhos o número de candidatos que nem sequer incluíram a igualdade de gênero em suas propostas ou que o fizeram de forma genérica, só para constar. De acordo com levantamento da Lupa, um em cada cinco governadores e um em cada quatro prefeitos não planejou sequer um projeto para suas eleitoras. Num segundo momento, já na apuração das frases selecionadas, me espantei com o fato de que o conceito de igualdade de oportunidades na política ainda é incômodo. Apesar de as mulheres representarem 51,8% da população brasileira, segundo dados do IBGE, a ideia de elas ocuparem metade das secretarias de um governo é inconcebível. Na Bahia, apesar de o governador Rui Costa (PT) ter se comprometido a “promover igualdade de oportunidades (entre homens e mulheres) na gestão pública”, apenas 5 das 23 secretarias são chefiadas por mulheres. Recebi como resposta de um dos assessores que isso era “querer demais” e que em “nenhum lugar do mundo as mulheres ocupam metade dos cargo de chefia”.  A Lupa não recebeu outro lado em nota do governo e a conversa telefônica, por não ter sido gravada, não foi publicada. Mas registro aqui meu espanto. Em Cuiabá, outra situação semelhante se deu. O prefeito Emanuel Pinheiro (MDB) prometeu “ampliar a participação e representação da mulher na política”. Nas 15 secretarias que tem, apenas uma é comandada por mulher. Recebemos como resposta de sua assessoria que aumentar o número de mulheres na política “é uma questão mais ligada aos partidos porque no Executivo isso não é uma realidade”. Aí fica a pergunta: e por que não?

Flávia Campuzano, novos negócios:

Nossa sociedade é machista e extremamente desigual, então não foi de todo surpreendente constatar a falta de políticas públicas efetivas para combater a violência contra a mulher e a desigualdade no mercado de trabalho, entre outras questões. Também vimos como é difícil promover a igualdade de gênero, em várias esferas, especialmente na política. Através das checagens realizadas ao longo deste mês, ficou evidente que o Brasil ainda precisa investir muito em políticas públicas voltadas exclusivamente para as mulheres para termos uma sociedade mais justa.

Hellen Guimarães, estagiária:

Desaponta – ainda que não surpreenda – a fragilidade das propostas de políticas públicas para mulheres: muitas não apontam qualquer medida concreta. Tantas outras englobam grupos sociais de necessidades totalmente diferentes em uma mesma promessa genérica. Muitos programas só lembram da existência de mulheres na área da saúde, limitando-se, por exemplo, a gestantes e câncer de mama ou útero. Embora sejam temas fundamentais, essa abordagem sequer tangencia o machismo presente em nossa sociedade. Parece um “cumprir tabela”, em vez de algo capaz de efetivamente discutir e combater a desigualdade de gênero – tão forte em todo o país.

Tal fragilidade também se reflete no diagnóstico. Além da subnotificação, a integração da rede de informações sobre violência em todos os níveis de poder é incipiente. Isso implica a ausência de diversas informações de interesse público nas bases de dados públicas, o que dificulta denúncias, análises e, principalmente, que a própria população tenha dimensão fiel dos problemas. Das 27 unidades federativas, 10 sequer reúnem e/ou apresentam dados sobre feminicídio ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É um atraso perigoso para qualquer sociedade que pretenda se tornar mais justa e democrática.

Esse descaso também está nas fontes: a simples tarefa achar o contato dos assessores de órgãos públicos é muito mais difícil do que deveria ser. Conseguir respostas, então, é quase uma via crucis. Certa assessoria, após estourar todos os prazos, me assegurou que enviaria, abro aspas, “a resposta se sua demanda terá ou não resposta” ainda naquela tarde. Nenhuma das duas jamais chegou à redação. Por tudo isso, #SobreElas é o projeto mais difícil e desafiador da minha curta vida profissional. Fica, porém, a sensação de dever cumprido em realizar minha parte do trabalho de formiguinha – na série e no debate.

Natália Leal, subeditora:

Nasci no sul do país e aprendi cedo a conviver com a cultura machista, tradicional do interior do Rio Grande do Sul. Mais tarde, quando me mudei para Santa Catarina, esse sentimento não me abandonou. É outro estado onde convivi diariamente com assédios e discriminação de gênero, na rua e no trabalho. O fato de os governadores dos estados e os prefeitos das capitais dessa região específica do país terem dedicado tão pouca atenção às mulheres em seus planos de governo não é surpreendente – o que não significa que não seja revoltante. A série SobreElas mostrou que o machismo no Brasil independe de posição geográfica, mas reforçou uma crença que tenho do que aprendi com a vida: que no Sul, apesar de altos índices de desenvolvimento humano, do clima ameno e do bairrismo declarado, é muito difícil ser mulher e ser tratada com igualdade. A falta de políticas públicas claras em Porto Alegre e Florianópolis – para não falar de Curitiba, onde Rafael Greca não dedicou nem uma linha sequer de seu programa de governo às eleitoras – é um demonstrativo do descaso. Vi inúmeras marchas de mulheres nas capitais do RS e de SC, onde morei por mais de 10 anos. Mas não encontrei nos planos dos governantes um reflexo disso. Uma prova de que a cabeça dos políticos está longe dos anseios reais da sociedade.

Chico Marés, repórter:

O que mais me chamou a atenção, embora não tenha me surpreendido, foram os dados eleitorais referentes à participação de mulheres na política formal. Embora a questão feminina tenha ganhado grande peso no debate político dos últimos anos, isso não se refletiu no mundo político. O número de mulheres eleitas não evoluiu nos últimos quinze anos, e isso aconteceu, em grande parte, porque os partidos tendem a colocar suas campanhas, salvo algumas exceções, no fim da lista de prioridades. Acredito que há uma correlação entre a baixa representatividade feminina na política e o descaso de governantes em cumprir suas promessas para mulheres.

Leandro Resende, repórter e coordenador do projeto:

Foi estarrecedor ter a comprovação empírica de algo que já suspeitava: o descaso com que se trata a informação pública no Brasil. Não foi raro ter que lidar, ou observar minhas colegas de trabalho tendo que suar a camisa em busca de um telefone ou um endereço de email para o simples encaminhamento de perguntas relativas à série. Sites de prefeituras e governos que não funcionam ou estão desatualizados foram quase a regra do jogo. Destaco, ainda, que o desinteresse com que alguns gestores públicos encararam o tema da série, somado a alguns comentários agressivos que recebemos nas redes sociais só reforçam a necessidade de se debater e combater diariamente o machismo que ainda é regra no Brasil. Que esta série tenha sido um pequeno passo no longo caminho a se trilhar.

*Na abertura da série, a Lupa publicou que 22 governadores fizeram propostas específicas para as mulheres. Mas, durante a publicação, identificou e que o Rio Grande do Norte, na realidade, tinha feito um diagnóstico sobre a situação delas – e não uma proposta específica. Por isso, não houve uma checagem do Rio Grande do Norte.