Estado de SP tem apenas 13% delegacias da mulher funcionando 24h, enquanto pedidos de medidas protetivas saltam 67%

Ato contra Feminicídio

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

21 de janeiro, 2026 Brasil de Fato Por Beatriz Drague Ramos

Estado caminha na contramão da lei federal, com apenas 18 delegacias 24h para 513 municípios

Enquanto os pedidos de socorro das mulheres explodem, a estrutura física de acolhimento no estado de São Paulo segue pequena. Dados de segurança pública adquiridos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelo Brasil de Fato revelam um cenário alarmante: o número de Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) saltou de 57 mil em 2022 para mais de 96 mil em 2025, um aumento de 67%. No entanto, apenas 18 das 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) atendem 24 horas, representando 12,68% do total.

“O número é completamente insuficiente, sobretudo se considerarmos que estamos no estado mais rico e populoso do país, com cerca de 46 milhões de habitantes e que possui 645 municípios”, afirma Beth Sahão, deputada estadual do Partido dos Trabalhadores que lidera a Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e Proteção de Mulheres e Meninas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

A preocupação é compartilhada por Tatiana Campos Bias Fortes, defensora pública coordenadora do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (Nudem). “É amplamente sabido, inclusive a partir de dados empíricos e da atuação cotidiana da Defensoria, que grande parte das violências domésticas e familiares contra a mulher ocorre no período noturno e aos fins de semana. Por isso, a existência de delegacias especializadas em funcionamento 24 horas é uma medida central de proteção e não um detalhe administrativo”, ressalta a defensora.

O abismo entre a demanda e o acolhimento

A disparidade entre a violência real e a resposta institucional é nítida. Em 2025, o estado registrou um recorde de 65.645 Boletins de Ocorrência online e 96.078 solicitações de medidas protetivas.

“A estrutura atualmente disponível não apresenta a mínima condição de garantir a segurança para as vítimas de violência. É humanamente impossível a demanda ser atendida nesse cenário”, reforça a deputada Beth Sahão.

Para Tatiana Bias Fortes, a implementação da lei federal não pode ser postergada. “A Defensoria Pública de São Paulo tem tratado esse tema como prioridade institucional, atuando para que a implementação da lei não seja tratada como uma política opcional: trata-se de um dever jurídico vinculado à proteção dos direitos fundamentais das mulheres e ao enfrentamento da violência de gênero”.

A advogada Sueli Amoedo, do projeto Justiceiras, pontua que a liderança numérica de São Paulo em delegacias é ilusória, pois muitas se concentram em regiões centrais e atendem grandes territórios, dificultando o acesso de mulheres periféricas, negras e rurais.

Sobrecarga e a falta de escuta qualificada

Os dados revelam uma pressão insustentável: com a média anual de 126.542 procedimentos (soma de BOs Online e MPUs), cada policial das DDMs é responsável por processar, em média, 98 novos casos por ano.

Considerando apenas os delegados, a carga sobe para 557 casos por delegado/ano, o que evidencia uma sobrecarga estrutural que compromete a qualidade da investigação e do acolhimento. “Muitas mulheres relatam descrédito, julgamentos morais e minimização da violência sofrida. A revitimização institucional é uma queixa frequente”, afirma Sueli Amoedo.

Tatiana Bias Fortes explica que, na ausência de uma DDM 24h, o risco de prejuízo na qualidade do atendimento é alto. “É fundamental que todas as delegacias sejam permanentemente orientadas e capacitadas nos princípios do atendimento às vítimas de violência, com foco na escuta qualificada, no respeito à palavra da mulher e na não revitimização. O Estado tem o dever de garantir que o atendimento em delegacias comuns não reproduza violências institucionais nem fragilize o acesso às medidas protetivas”.

A deputada Beth Sahão atribui essa fragilidade à postura política do atual governo. “O governo Tarcísio representa forças políticas e sociais do atraso, que flertam com discursos machistas e misóginos. Analise a postura de grupos que o apoiam, especialmente a extrema direita. A postura deles é de ódio às mulheres”.

Substituição pelo digital

Para suprir a falta de unidades físicas, o governo apostou em 170 “Salas DDM Online”. Entretanto, as especialistas alertam para os limites da tecnologia. “O atendimento remoto é importante, mas deve ser visto como complementar, e não como substituto. A escuta qualificada envolve não apenas o relato verbal, mas também a percepção de sinais não verbais, o acolhimento do sofrimento e a avaliação imediata do risco. O contato humano é um elemento central da proteção”, defende a coordenadora do Nudem.

Além disso, a defensora pública alerta para o risco de exclusão social. “Muitas mulheres em situação de vulnerabilidade extrema não dispõem de internet estável, equipamentos adequados ou um ambiente seguro e privado para denunciar. A política pública não pode se apoiar prioritariamente no modelo online, sob o risco de excluir justamente as mulheres que mais precisam da proteção, aprofundando desigualdades já existentes”, alerta Tatiana Bias Fortes.

Já Beth Sahão critica o remanejamento orçamentário. “Enquanto reserva apenas R$ 10 milhões para a Secretaria de Políticas da Mulher em 2026, o governo concede isenções fiscais de R$ 61 bilhões. O dinheiro doado para grandes caloteiros poderia ser usado para casas-abrigo e ampliação das DDMs”.

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