A conta não fecha: 4 em cada dez mulheres já sofreram importunação sexual e viveram situações de controle e violência doméstica, mas poucos homens assumem essas práticas

Percepções sobre controle, importunação, perseguição, assédio e violência doméstica (1090 × 460 px)

12 de setembro, 2022 Por Agência Patrícia Galvão

Sofrer x praticar: a conta está longe de fechar! Enquanto 45% das mulheres dizem que já tiveram o corpo tocado sem seu consentimento em local público, apenas 5% dos homens admitem já ter feito isso. Ainda, 32% das mulheres afirmam ter passado por situação de importunação/assédio sexual no transporte público, mas nenhum homem reconhece já haver praticado esse tipo de violência. Pesquisa inédita realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e Ipec, com apoio da Uber, revela também que 31% das mulheres declaram já haver sofrido tentativa ou abuso sexual.

A pesquisa Percepções sobre controle, assédio e violência doméstica: vivências e práticas revela também que as mulheres tendem a reconhecer mais do que os homens que exercem situações de controle e práticas invasivas sobre o parceiro, como exigir a senha do celular e/ou redes sociais ou então o bloqueio ou exclusão de amigos das redes. Os homens afirmam mais que proíbem o uso de roupas e acessórios.

Realizada com o objetivo de compreender e analisar as experiências e percepções da população brasileira sobre o recurso à violência, práticas invasivas e de controle e situações de importunação, perseguição, assédio sexual e violência doméstica, esta pesquisa de opinião revela que as práticas de controle, somadas aos relatos de agressões físicas e verbais, apontam para dinâmicas conflitivas nas relações afetivas de boa parte da amostra, tendo o ciúme como principal catalisador. Afeto e posse se confundem em parcela significativa dos relacionamentos amorosos: ao término de uma relação, controle, perseguição e calúnia são as agressões mais relatadas.

Mais mulheres (34%) do que homens (25%) declaram terem sido obrigadas, após o fim do relacionamento, a bloquear contato, mudar de telefone (18% das mulheres x 8% dos homens) e registrar um boletim de ocorrência (15% das mulheres x 6% dos homens).

Acesse na íntegra o relatório da pesquisa Percepções sobre controle, assédio e violência doméstica: vivências e práticas (Instituto Patrícia Galvão/Ipec, setembro/2022).

Mulheres e homens não heterossexuais declaram mais sofrer violência doméstica

Mulheres relatam mais brigas com atuais ou ex-parceiros (52%) e homens afirmam que brigaram mais com familiares (32%). Uma em cada 4 mulheres agredidas declara que a violência doméstica acontece com frequência, enquanto apenas 1 em cada dez homens afirma sofrer violência frequentemente. Ciúme motiva a maioria das agressões, para homens e mulheres na mesma proporção. Mais mulheres (30%) do que homens (10%) apontam parceiro que estava bêbado ou drogado ao cometer a violência.

Os jovens de ambos os sexos, as mulheres e os homens não heterossexuais relatam mais sofrer violência sexual dos parceiros. Chamam atenção os maiores percentuais de homens e mulheres de 16 a 24 anos e de homens não heterossexuais que declaram terem sido obrigados a fazer sexo quando não queriam e a manter relações sexuais sem preservativo.

Percepções de impunidade e descaso da polícia e justiça revelam descrença sobre a efetividade da Lei Maria da Penha

Para 9 em cada 10, amigos e familiares devem intervir se desconfiam ou sabem que a mulher está sofrendo violência doméstica. A grande maioria avalia de forma bastante positiva a Lei Maria da Penha, que acaba de completar 16 anos de vigência, como uma contribuição para que a mulher busque ajuda e também para a condenação dos crimes de violência doméstica e a promoção de uma cultura de maior respeito às mulheres.

Mas a pesquisa revela também uma visão crítica e uma certa descrença sobre a efetividade da Lei Maria da Penha, que podem ser atribuídas à sensação de impunidade e também à percepção de que os representantes da polícia e da justiça dão pouca importância para o problema da violência doméstica: 89% concordam que os homens que agridem as parceiras sabem que isso é crime, mas não acreditam que serão punidos, e o mesmo percentual avalia que os homens que praticam essa violência não costumam receber as punições devidas. Para 76% dos entrevistados, a polícia e a justiça no Brasil tratam a violência doméstica contra mulheres como um assunto pouco importante.

Neste contexto, os programas de reeducação para homens que cometem violência doméstica são considerados muito importantes pela maioria da população.

Alguns grupos de homens concordam mais com argumentos que deslegitimam a Lei Maria da Penha, mas maioria aprova

Ainda que a maior parcela dos homens reconheça positivamente a Lei Maria da Penha, eles tendem a concordar mais do que as mulheres com os argumentos utilizados contra a lei, em especial os seguintes segmentos:

  • 49% dos homens com 60 anos ou mais e 41% dos homens com ensino fundamental acreditam que a Lei Maria da Penha “interfere em uma questão particular que só diz respeito ao casal”;
  • 38% dos homens com 60 anos ou mais, 37% dos homens moradores da periferia e 34% dos homens com ensino fundamental consideram que a Lei Maria da Penha “é rigorosa demais e prejudica homens que não são criminosos”;
  • 16% dos homens moradores de municípios com até 50 mil habitantes acham que a Lei Maria da Penha “deveria ser anulada, porque bater na parceira pode ser errado, mas não deveria ser crime”.

Veja a seguir mais informações sobre estes e outros destaques da pesquisa Percepções sobre controle, assédio e violência doméstica: vivências e práticas, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e Ipec, com apoio da Uber, com o objetivo de compreender e analisar as experiências e percepções da população brasileira sobre o recurso à violência, as práticas invasivas e de controle e as situações de importunação, perseguição, assédio sexual e violência doméstica.

92% dos homens e 85% das mulheres declaram que brigar não vale a pena

A grande maioria da população brasileira considera que brigar não vale a pena e condena essa forma de resolver conflitos interpessoais.

Contudo, 69% dos homens e 63% das mulheres dizem que não são violentos, mas revidam se forem agredidos. Do total de entrevistados, 37% dizem não levar desaforo para casa, na mesma proporção para homens e mulheres. A concordância com essa afirmação é maior (53%) entre jovens de 16 a 24 anos de ambos os sexos, atingindo 56% entre os homens dessa faixa etária.

17% dos entrevistados tiveram alguma briga séria de 2020 para cá

Mais mulheres (20%) do que homens (14%) dizem ter se envolvido em pelo menos uma briga séria com outra pessoa, com agressões verbais ou físicas, de 2020 até o momento da entrevista. Adultos de 25 a 34 anos, os não heterossexuais, os moradores de capitais e os das grandes cidades se envolveram mais em brigas sérias.

42% brigaram com atuais ou ex-parceiros e 37%, com familiares

Mulheres relatam mais brigas com atuais/ex-parceiros (52%) e homens brigaram mais com familiares (32%).

Observa-se na pesquisa que as mulheres tendem mais a relatar situações de brigas com parceiros do que os homens. Recortando-se por sexo e raça, nota-se que 41% das mulheres brancas e 60% das mulheres negras declararam haver brigado com atuais ou ex-parceiros, enquanto 11% dos homens brancos e 44% dos homens negros afirmaram haver brigado com atuais ou ex-parceiras.

Entre os 32% de homens que disseram haver brigado com algum familiar, destacam-se: 69% dos homens de 16 a 24 anos, 100% dos que têm 60 anos ou mais, 75% dos não heterossexuais e 53% dos homens brancos.

Homens superam as mulheres em brigas com conhecido/colega de escola/trabalho (27%) e com estranhos/desconhecidos (19%, com destaque para 87% entre os homens moradores da periferia).

52% dos homens e mulheres que brigaram alegaram que foram agredidos/as verbalmente e 34% disseram que foram desrespeitados/as, humilhados/as ou ofendidos/as.

Sofrer x praticar: enquanto 45% das mulheres tiveram o corpo tocado sem consentimento em local público, apenas 5% dos homens admitem essa prática

As mulheres e os homens não heterossexuais declaram mais sofrerem práticas invasivas, importunação, assédio e abuso sexual: 31% das mulheres e 34% dos homens não heterossexuais sofreram tentativa ou abuso sexual; e 32% das mulheres e 20% dos homens não heterossexuais passaram por situação de importunação/assédio sexual no transporte público. Nenhum homem declarou haver praticado importunação/assédio sexual no transporte público.

44% tiveram a rotina controlada por algum parceiro/a e 33% sofreram exigência de bloqueio ou exclusão de amigos nas redes sociais

Mulheres relatam mais terem sido proibidas de encontrar ou visitar determinadas pessoas; já entre os homens, os que se declaram negros, os não heterossexuais e os de 25 a 34 anos são os que mais dizem sofrer do/a parceiro/a essas práticas de controle e exigência de bloqueio de amigos nas redes sociais.

E, assim como observado nas situações de práticas invasivas e de importunação, quando se trata de controle e proibições, sofrer e praticar não são equivalentes. Mulheres tendem a reconhecer mais do que os homens que exercem situações de controle e práticas invasivas sobre o parceiro; homens afirmam mais que proíbem o uso de roupas e acessórios.

Após o fim da relação, controle, perseguição e calúnia são as agressões mais relatadas

Mais mulheres (34%) do que homens (25%) afirmam terem sido obrigadas, ao término de um relacionamento, a bloquear contato, mudar de telefone (18% das mulheres x 8% dos homens) e registrar um boletim de ocorrência (15% das mulheres x 6% dos homens).

41% dos brasileiros já sofreram agressão dos parceiros, atuais ou ex, mas apenas 26% admitem que já agrediram

Uma em cada 4 mulheres agredidas declara que a violência doméstica acontece com frequência, enquanto apenas 1 em cada dez homens afirma sofrer violência da parceira frequentemente.

Ciúme motiva a maioria das agressões, para homens e mulheres na mesma proporção

Mais mulheres (30%) do que homens (10%) apontam parceiro que estava bêbado ou drogado no momento da agressão. Xingamentos, ofensas e ameaças são o tipo de violência mais sofrida; mulheres ultrapassam os homens como vítimas do/a parceiro/a em metade das situações investigadas.

Jovens, mulheres e os homens não heterossexuais declaram mais sofrer violência sexual dos parceiros

Chamam atenção os maiores percentuais de mulheres e homens de 16 a 24 anos e de homens não heterossexuais que relatam terem sido obrigados a fazer sexo quando não queriam e a ter relações sexuais sem preservativo.

Mulheres declaram mais que os homens que agridem o/a parceiro/a

Assim como nos relatos de práticas invasivas e de controle, novamente as mulheres (33%) tendem a admitir mais que os homens (19%) que cometem violência doméstica contra o/a parceiro/a. Xingamentos, ofensas e ameaças também são o tipo de violência mais praticada e, novamente, há diferença entre as declarações de vivência e prática de mulheres e homens.

Revide, nervosismo e falta de paciência são as principais justificativas para haver brigado/agredido

Em comparação com os homens, o dobro de mulheres aponta a traição do parceiro como motivo de ter agredido.

Violência e invisibilidade: 47% declaram que as situações de briga e violência acontecem quando estão sozinhos

A invisibilidade da violência doméstica é confirmada entre as/os que afirmam terem sido agredidos de alguma forma. Contudo, há um outro lado da moeda que favorece essa invisibilidade: a vergonha das vítimas que preferiam que outros não soubessem da briga, em especial os parentes próximos.

Em briga de marido e mulher todos devem meter a colher

93% consideram que se deve intervir quando se depara com um homem agredindo uma mulher. Maioria (62%) considera que se deve recorrer à polícia, em especial as mulheres; homens citam mais que a interferência deve ocorrer diretamente com o agressor, pedindo ao homem que pare de bater.

Para 9 em cada 10, amigos e familiares devem intervir se desconfiam ou sabem que a mulher está sofrendo violência doméstica

Mulheres (85%) concordam mais que os homens (68%) que os agressores duvidam que as mulheres terão coragem de denunciar.

Ainda que a maior parcela dos homens reconheça positivamente a Lei Maria da Penha, em geral concordam mais do que as mulheres com os argumentos utilizados contra a lei

Percepções de impunidade e descaso da polícia e justiça revelam descrença sobre a efetividade da Lei Maria da Penha

A pesquisa revela ainda uma visão crítica e também uma certa descrença sobre a efetividade da Lei Maria da Penha, que podem ser atribuídas a uma sensação de impunidade e também à percepção de que os representantes da polícia e da justiça dão pouca importância para o problema da violência doméstica.

  • 92% consideram que quando o homem descobre que foi denunciado, a mulher corre o risco de sofrer ainda mais violência
  • 89% acham que os homens que praticam violência doméstica contra a mulher não costumam receber as punições devidas
  • 89% concordam que homens que agridem as mulheres sabem que isso é crime, mas não acreditam que serão punidos
  • 76% concordam que a polícia e a Justiça no Brasil tratam a violência contra as mulheres como um assunto pouco importante, uma percepção que é maior entre as mulheres (81%) do que entre os homens (70%).

Neste contexto, os programas de reeducação para homens que cometem violência doméstica são vistos como muito importantes pela maioria da população.

Acesse na íntegra o relatório da pesquisa Percepções sobre controle, assédio e violência doméstica: vivências e práticas (Instituto Patrícia Galvão/Ipec, setembro/2022).

Sobre a pesquisa

A pesquisa Percepções sobre controle, assédio e violência doméstica: vivências e práticas, foi realizada pelo Ipec e Instituto Patrícia Galvão, com apoio da Uber. Foram entrevistadas por telefone 1.200 pessoas (800 homens e 400 mulheres), com 16 anos ou mais, entre 21 de julho e 1º de agosto de 2022. A margem de erro é de 3 pontos percentuais.

Objetivo: Compreender as experiências e percepções da população brasileira sobre recurso à violência, práticas invasivas e de controle, importunação, perseguição, assédio sexual e violência doméstica.

Especificações técnicas

Metodologia: Entrevistas telefônicas.

Abrangência: Pesquisa realizada em todo o território nacional.

Universo: População brasileira com 16 anos ou mais moradores da área em estudo.

Período de campo: De 21 de julho a 1º de agosto de 2022.

Amostra: Foram realizadas 1.200 entrevistas, sendo 800 com homens e 400 com mulheres. Trata-se de uma amostra desproporcional para garantia de leitura do gênero masculino e que, portanto, foi ponderada.

Margem de erro: 3 (três) pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra.

Nível de confiança: Estimado em 95%.

Ponderação: Por se tratar de uma amostra desproporcional ao universo estudado houve necessidade de ponderar os resultados. Observação: As perguntas cujas somas das porcentagens não totalizam 100% são decorrentes de arredondamentos ou de múltiplas escolhas.

Diferenças entre homens e mulheres: Consideram a margem de erro do total da amostra e o intervalo de confiança. As diferenças são destacadas quando existem ao menos 7 pontos percentuais entre os resultados desses públicos.

*Ilustrações: Sofia Costa

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