Se a democracia brasileira quiser ser maior do que um ritual eleitoral, terá de enfrentar sua própria desigualdade interna. Sem toda a diversidade de mulheres no comando, não há democracia plena
O Brasil convive com uma contradição antiga: é um país governado majoritariamente por homens brancos de classe média e alta, mas sustentado por um povo cuja diversidade nunca chegou de fato aos espaços de decisão. Durante muito tempo, essa equação foi tratada como se fosse apenas um dado cultural – “é assim mesmo”. Na prática, sempre foi um problema de desenho institucional e distribuição de poder.
A formação do Estado brasileiro concentrou decisões nas mãos de poucos e manteve muitas pessoas fora da sala onde as escolhas são feitas, garantindo que hoje o poder no Brasil tenha gênero, raça, classe e território. Para as mulheres (especialmente negras, indígenas e LBTI) essa exclusão da política se deu em múltiplas camadas: do voto, do financiamento para a disputa eleitoral, e, por fim, da permanência no poder. O resultado é que o país nunca teve a chance de ver, em escala, o que acontece quando outras lideranças comandam a máquina pública. Diante de um Estado historicamente desenhado para excluir, ações afirmativas no Executivo são instrumentos legítimos de democratização do poder.
No Poder Executivo, essa barreira é ainda mais resistente. Embora o debate sobre mulheres na política tenha avançado no Legislativo, o Executivo permanece como a caixa-preta da governabilidade. Hoje, mulheres seguem sub-representadas nos cargos comissionados e funções de confiança e, nos postos de maior poder decisório, como secretarias e ministérios, essa presença se torna ainda mais rara. O recorte racial revela desigualdade ainda mais profunda: mulheres negras são mais de um quarto da população, mas não chegavam a 15% dos cargos de direção no Executivo federal em 2023, segundo o Movimento Pessoas à Frente. Dados do Censo das Secretárias1, publicado em 2024, revelam que apenas 28% das secretárias dos estados e capitais brasileiras eram mulheres, e apesar de seu altíssimo grau de qualificação, estavam concentradas em pastas sociais, distantes da tomada de decisão sobre infraestrutura e alocação de recursos e sujeitas a diversas formas de violência política de gênero e raça.
Essa ausência de representatividade cobra um preço ao próprio Estado. Governos liderados por mulheres, no Brasil e no exterior, tendem a ampliar políticas sociais assertivas, reforçar mecanismos de cuidado e assumir compromissos mais consistentes com agendas distributivas, sendo mais capazes de governar realidades complexas e desiguais. Não é uma abstração teórica; é um resultado observado em diferentes países e registrado por organismos multilaterais. No Brasil, não faltam exemplos de mulheres que alteraram agendas, destravaram políticas e produziram resultados concretos em postos estratégicos. Mas esses casos seguem sendo exceção, não regra. O que está em jogo não é apenas representatividade, e sim a qualidade da democracia e a capacidade do Estado de responder a desigualdades que atravessam séculos.
A democratização do Executivo é uma pauta estratégica para o ano eleitoral. O país discutirá não apenas candidaturas, mas qual modelo de Estado deseja reconstruir após um período de desorganização institucional. Se o Estado é o principal responsável por políticas públicas de cuidado, proteção social, saúde, educação, segurança pública, trabalho, clima e território – áreas onde as mulheres estão historicamente na linha de frente – não faz sentido que continue sendo comandado por um perfil homogêneo e distante dessa realidade.