O feminicídio bate recorde no Brasil.
Dizer isso é admitir que o “nunca mais” está chegando tarde demais no nosso país.
Em sete de cada dez casos, as vítimas sequer possuíam medidas protetivas. O dado expõe uma verdade dura: a fronteira entre a vida e a morte é, muitas vezes, invisível. Esse aumento revela que, enquanto o mundo avança, o lar brasileiro ainda é cenário de um controle arcaico que, ao perder força, escolhe matar.
O feminicídio é o ponto final de uma cadeia longa de falhas — culturais, institucionais, simbólicas. É quando o Estado chega tarde; quando a sociedade normalizou sinais prévios; quando a palavra não foi suficiente porque nunca foi ensinada como alternativa à força.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que as mulheres estão morrendo?”, mas outra, mais incômoda:
por que ainda há homens para quem perder o controle é mais intolerável do que perder a própria humanidade?
Há violências que não nascem do excesso de força, mas do colapso dela. Os vídeos e notícias de agressões e assassinatos que atravessam nossas telas não são apenas crimes contra mulheres. São sintomas de uma estrutura antiga que já não consegue se sustentar pacificamente.
Durante séculos, a organização social foi clara. O poder tinha forma, gênero e lugar. Era masculino, público, normativo. Não precisava se justificar. À mulher cabia o espaço do privado, do cuidado e do silêncio.
Essa arquitetura se manteve pelo hábito, pela religião, pelo direito, pela moral. Funcionava porque parecia natural — e, por isso mesmo, não era questionada.
Mas estruturas de poder só permanecem estáveis enquanto são aceitas como inevitáveis.
O que vemos hoje não é uma “crise da família”, nem a “perda de valores”, como se repete por aí. É algo mais profundo: a perda de legitimidade de um modelo de autoridade que não acompanhou a transformação do mundo.
As mulheres mudaram de forma contínua. Entraram no mercado de trabalho, no direito, na política, na linguagem pública. Nomearam violências antes invisíveis. Passaram a dizer “não” onde havia silêncio. Reivindicaram autonomia onde antes havia apenas tolerância. E, sobretudo, deixaram de aceitar o sofrimento como destino.
Essa mudança não é apenas econômica ou cultural. É simbólica. Ela desloca o eixo do poder.
O problema é que nem todos evoluíram no mesmo ritmo.
Há homens que se transformam junto com esse processo. Mas há outros que permanecem ancorados em um modelo de masculinidade baseado no controle — da mulher, da casa, do afeto, da narrativa. Para esses, a autonomia feminina não é convivência: é ameaça.
Aqui está um ponto central para compreender o feminicídio. Não se mata apenas por ódio; muitas vezes se mata por colapso simbólico. Quando a mulher deixa de obedecer, de permanecer, de aceitar, de “pertencer”, ela rompe não só uma relação, mas uma lógica inteira de mundo. E quem não construiu outro repertório de identidade tenta restaurar, pela força, aquilo que já perdeu em legitimidade.
O feminicídio é, muitas vezes, um gesto desesperado de restauração de poder.
O ciúme é a superfície. O que está abaixo é a desautorização. A percepção — ainda que inconsciente — de que a hierarquia não funciona mais. De que o “lugar” que garantia status e identidade se dissolveu.
Aqui reside uma das grandes falhas estruturais do nosso tempo: transformamos o papel da mulher sem promover, na mesma medida, uma reconstrução social da masculinidade. Abrimos, corretamente, caminhos para a autonomia feminina, mas deixamos um vazio do outro lado. Um vácuo que, em contextos de desigualdade e ausência de políticas públicas, se converte em violência.