Hackeando a política: feminismos hackers que constroem tecnologia pública

27 de fevereiro, 2026 AzMina Por Natali Carvalho

Desafiando a mediação das plataformas privadas, organizações feministas criam soluções digitais para garantir acesso à informação e autonomia tecnológica

  • A participação política hoje depende de infraestruturas controladas por big techs, guiadas por modelos de negócio baseados em dados, atenção e engajamento — não em justiça social;
  • Quando tecnologias são construídas sem diversidade, reforçam apagamentos culturais, ampliam violências e afastam grupos historicamente marginalizados dos espaços de decisão;
  • Iniciativas como a do Olabi e AzMina investem em formação, educação midiática e inclusão de mulheres negras na tecnologia para redesenhar coletivamente o ambiente digital.

Quase 90% da população com 10 anos ou mais tem acesso à internet (PNAD 2024), e houve um salto de 6,1 milhões de novos usuários em apenas dois anos. Esse acesso ocorre majoritariamente por celulares, o que desloca a experiência digital para aplicativos e ambientes controlados por plataformas privadas, especialmente as redes sociais.

Apesar dos números aparentemente positivos, a realidade mostra que esse avanço não atinge todos os grupos da mesma forma. Só 77% da população rural tem acesso à internet e as classes D e E majoritariamente só acessam pelo celular, de acordo com a TIC Domicílios.

Esse cenário também reflete nas oportunidades de participação política. É inegável que as redes sociais assumiram forte influência, inclusive na construção da opinião pública. Em 2025, por exemplo, o deputado federal Nikolas Ferreira publicou um vídeo acusando o governo de utilizar o PIX para monitorar transações bancárias. Foram mais de 300 milhões de visualizações no Instagram e até hoje (2026) a Receita Federal tenta desmentir essa desinformação.

Essa é uma mediação arriscada, afinal, as big techs estão mais interessadas em extrair dados do que em estabelecer uma democracia digital. É nesse espaço controlado por empresas privadas e internacionais, dominado por algoritmos, com regras de moderação pouco transparentes, que o debate público passa a acontecer. A participação cidadã também depende, de forma quase obrigatória, dessas infraestruturas desenhadas para o engajamento e não para a justiça social, evidenciando que a tecnologia não é apenas ferramenta e sim uma questão política.

Democratização do desenvolvimento tecnológico

Ampliar o acesso já não é mais a única questão a ser resolvida, mas sim diversificar quem está desenhando essas tecnologias e a vida pública digital. Entender como essas ferramentas construídas pelas big techs funcionam é uma forma de disputar poder. É nesse ponto que surgem iniciativas que não querem apenas usar ou adaptar essas tecnologias, mas construí-las a partir de outras lógicas, para reimaginar.

Essa exclusão também atravessa a sociedade civil organizada, que frequentemente é posicionada apenas como usuária dessas ferramentas, e não como participante das decisões que moldam o ambiente digital. Juli Cintra, diretora da Abong, organização que busca fortalecer as Organizações da Sociedade Civil no Brasil, acredita que “isso afasta a participação e enfraquece o senso de pertencimento nesse debate.”

O resultado é que grupos historicamente ativos na formulação de políticas públicas passam a apenas reagir às plataformas em vez de disputar seus rumos, aprofundando a concentração de poder tecnológico nas mesmas estruturas que organizam o mercado.

A partir da necessidade de fortalecer esse senso de pertencimento surgiu o projeto Nanet, idealizado pela Abong. A iniciativa atua na capacitação de organizações e ativistas para não sucumbirem à visão de que são apenas usuários de serviços, mas também autores de tecnologia.

Essa mudança de perspectiva exige também ampliar o que entendemos por democracia digital, que, para Ana Carolina Araújo, gestora de projetos do Instituto AzMina, vai muito além das redes sociais. “Trata-se de serviços públicos, participação política e acesso à informação para qualificar o debate democrático.” Ana acrescenta que o debate tem se resumido às redes porque é neste espaço que a população — e o potencial eleitorado — mais usa a internet.

Reimaginar e redesenhar a tecnologia com diversidade

O Olabi, organização em que Sil Bahia é co-diretora, acredita que a tecnologia precisa de diversidade e que para inovar é preciso incluir. Para ela, essa disputa de narrativas se torna ainda mais necessária por existir um apagamento de cultura e de valores diversos, favorecido pelas próprias estruturas digitais.

As consequências, afirma Sil, passam pela ampliação de violências já existentes e pela dificuldade de participação efetiva de mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente marginalizados nos ambientes de decisão tecnológica. Se essas populações deixam de disputar o desenho das ferramentas que estruturam o debate público, há um impacto direto na própria democracia, que depende da presença plural de sujeitos.

Por isso, a proposta da Olabi é “redesenhar esse ambiente digital de forma coletiva”, questionando quais modelos são financiados, quais vozes são amplificadas e quais futuros estão sendo imaginados. Em vez de adaptar-se às plataformas existentes, a organização disputa suas bases ao formar mulheres negras como desenvolvedoras, ampliar a educação midiática e oferecer condições para que outros grupos criem infraestruturas digitais.

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