Caso investigado em Copacabana põe em pauta uma das formas mais severas de violência sexual. Estudo já apontou que 17,7% das mulheres e 12,5% dos homens brasileiros com 20 anos ou mais foram vítimas de violência sexual na infância ou adolescência.
A denúncia de um caso de estupro coletivo ocorrido na noite de 31 de janeiro contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro chocou o país. Quatro jovens são réus por estupro com concurso de pessoas, e a Justiça expediu mandados de prisão contra todos.
Segundo a investigação, a vítima foi convidada por um ex-namorado para um encontro amoroso, mas acabou sendo violentada sexualmente por amigos deste jovem. O exame de corpo de delito apontou lesões compatíveis com violência física e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal.
O episódio, que causa indignação na sociedade, evidencia uma das formas mais severas de violência sexual e reacende o debate sobre as políticas de prevenção contra este tipo de agressão.
As principais vítimas de estupro coletivo contra menores são meninas adolescentes, vulneráveis socioeconomicamente ou com histórico de traumas, explica o professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC Danilo Baltieri, que já atendeu a mais de mil agressores sexuais em 30 anos.
Além disso, a relação entre agressores e vítimas desses casos é geralmente próxima.
A subnotificação torna difícil quantificar com precisão a prevalência do estupro coletivo contra menores, mas pesquisas apontam que esse tipo de crime representa uma parcela considerável dos casos de violência sexual grave: estima-se que mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas em todo o mundo tenham sido vítimas de estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos, o que representa uma em cada oito.
Baltieri destaca que a subnotificação é alarmante: acredita-se que apenas 7,5% dos casos de estupro sejam reportados. Um estudo de 2025 publicado na revista The Lancet revela que 17,7% das mulheres e 12,5% dos homens brasileiros com 20 anos ou mais foram vítimas de violência sexual na infância ou adolescência.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, 71% dos casos de estupro de 2023 foram contra vulneráveis (menores de 14 anos ou incapazes de consentir). Segundo o documento, o país registrou, 80.605 casos de estupro naquele ano, sendo 57.329 estupros de vulnerável.
As maiores taxas de incidência são registradas na região Norte: Acre (69,37 por 100 mil habitantes), Rondônia (68,55) e Roraima (60,69). São Paulo ocupa a primeira posição em números absolutos, com 11.330 casos, seguido pelo Paraná, com 5.272.
Entre 2017 e 2020, houve 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável contra vítimas com até 19 anos, o que equivale a uma média anual de 45 mil ocorrências. Crianças de até 10 anos representaram um terço desse total, com 62 mil casos.
Meninas de 12 a 17 anos são as maiores vítimas
Pesquisas indicam que meninas de 12 a 17 anos (com idade média de 14 anos) são as mais impactadas em casos de estupro.
No mundo, 89% das vítimas de estupro são mulheres, sendo 81% delas com idades entre 12 e 17 anos. Em alguns tipos deste crime, mais da metade das vítimas é menor de 12 anos. Meninos também são vítimas, principalmente nas faixas etárias mais jovens (3 a 9 anos), correspondendo a 14% dos casos no Brasil.
🇧🇷 No Brasil, 88% das vítimas de violência sexual são meninas, com um pico aos 13 anos. Por outro lado, meninos são mais frequentemente vítimas entre os 3 e 9 anos de idade.
Baltieri destaca que, quando se trata de crianças e adolescentes, o impacto causado é ainda mais devastador, uma vez que atinge de maneira profunda o desenvolvimento psicológico, emocional e até mesmo físico dos jovens afetados.
“Esse tipo de situação acaba por perpetuar ciclos de trauma que têm o potencial de se estender por toda a vida das vítimas, criando um ciclo vicioso que é difícil de romper”, afirma o psiquiatra.
O médico acrescenta que, apesar de o estupro coletivo ser menos frequente do que os assaltos cometidos por um único autor, ele está ligado a um aumento significativo nos riscos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e problemas de saúde mental.
Cerca de 30% das vítimas de estupro coletivo sofrem lacerações himenais e 38% apresentam ISTs. Os dados são de uma pesquisa realizada em 2014 que examinou 32 casos de estupro por vários agressores em um único incidente envolvendo adolescentes de 12 a 17 anos, em comparação com 534 casos de assaltos cometidos por um único agressor.
Na África do Sul, país onde a violência sexual é endêmica, 8,9% dos homens adultos já confessaram envolvimento em estupro coletivo.
Relação entre agressores e vítimas geralmente é próxima
Em casos de estupro coletivo contra menores, a relação entre agressores e vítimas é geralmente próxima, o que intensifica o trauma e torna as denúncias mais difíceis.
Pesquisas apontam que 93% das vítimas com menos de 18 anos têm algum tipo de relação com o agressor:
- 59% são conhecidos ocasionais
- 34% são familiares
- e apenas 7% são estranhos.
Em casos de múltiplos perpetradores, 27,7% envolvem estranhos, 28,3% conhecidos ou datas casuais, 10,3% parentes, e 27,7% múltiplos tipos.
No Brasil, 86% dos autores são conhecidos, com 67% dos casos ocorrendo na residência da vítima, de acordo com a Unicef Brasil.