Estupro coletivo contra menores: principais vítimas são meninas adolescentes

04 de março, 2026 g1 Por Silvana Reis

Caso investigado em Copacabana põe em pauta uma das formas mais severas de violência sexual. Estudo já apontou que 17,7% das mulheres e 12,5% dos homens brasileiros com 20 anos ou mais foram vítimas de violência sexual na infância ou adolescência.

A denúncia de um caso de estupro coletivo ocorrido na noite de 31 de janeiro contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro chocou o país. Quatro jovens são réus por estupro com concurso de pessoas, e a Justiça expediu mandados de prisão contra todos.

Segundo a investigação, a vítima foi convidada por um ex-namorado para um encontro amoroso, mas acabou sendo violentada sexualmente por amigos deste jovem. O exame de corpo de delito apontou lesões compatíveis com violência física e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal.

O episódio, que causa indignação na sociedade, evidencia uma das formas mais severas de violência sexual e reacende o debate sobre as políticas de prevenção contra este tipo de agressão.

As principais vítimas de estupro coletivo contra menores são meninas adolescentes, vulneráveis socioeconomicamente ou com histórico de traumas, explica o professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC Danilo Baltieri, que já atendeu a mais de mil agressores sexuais em 30 anos.

Além disso, a relação entre agressores e vítimas desses casos é geralmente próxima.

A subnotificação torna difícil quantificar com precisão a prevalência do estupro coletivo contra menores, mas pesquisas apontam que esse tipo de crime representa uma parcela considerável dos casos de violência sexual grave: estima-se que mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas em todo o mundo tenham sido vítimas de estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos, o que representa uma em cada oito.

Baltieri destaca que a subnotificação é alarmante: acredita-se que apenas 7,5% dos casos de estupro sejam reportados. Um estudo de 2025 publicado na revista The Lancet revela que 17,7% das mulheres e 12,5% dos homens brasileiros com 20 anos ou mais foram vítimas de violência sexual na infância ou adolescência.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, 71% dos casos de estupro de 2023 foram contra vulneráveis (menores de 14 anos ou incapazes de consentir). Segundo o documento, o país registrou, 80.605 casos de estupro naquele ano, sendo 57.329 estupros de vulnerável.

As maiores taxas de incidência são registradas na região Norte: Acre (69,37 por 100 mil habitantes), Rondônia (68,55) e Roraima (60,69). São Paulo ocupa a primeira posição em números absolutos, com 11.330 casos, seguido pelo Paraná, com 5.272.

Entre 2017 e 2020, houve 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável contra vítimas com até 19 anos, o que equivale a uma média anual de 45 mil ocorrências. Crianças de até 10 anos representaram um terço desse total, com 62 mil casos.

Meninas de 12 a 17 anos são as maiores vítimas

Pesquisas indicam que meninas de 12 a 17 anos (com idade média de 14 anos) são as mais impactadas em casos de estupro.

No mundo, 89% das vítimas de estupro são mulheres, sendo 81% delas com idades entre 12 e 17 anos. Em alguns tipos deste crime, mais da metade das vítimas é menor de 12 anos. Meninos também são vítimas, principalmente nas faixas etárias mais jovens (3 a 9 anos), correspondendo a 14% dos casos no Brasil.

🇧🇷 No Brasil, 88% das vítimas de violência sexual são meninas, com um pico aos 13 anos. Por outro lado, meninos são mais frequentemente vítimas entre os 3 e 9 anos de idade.

Baltieri destaca que, quando se trata de crianças e adolescentes, o impacto causado é ainda mais devastador, uma vez que atinge de maneira profunda o desenvolvimento psicológico, emocional e até mesmo físico dos jovens afetados.

“Esse tipo de situação acaba por perpetuar ciclos de trauma que têm o potencial de se estender por toda a vida das vítimas, criando um ciclo vicioso que é difícil de romper”, afirma o psiquiatra.
O médico acrescenta que, apesar de o estupro coletivo ser menos frequente do que os assaltos cometidos por um único autor, ele está ligado a um aumento significativo nos riscos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e problemas de saúde mental.

Cerca de 30% das vítimas de estupro coletivo sofrem lacerações himenais e 38% apresentam ISTs. Os dados são de uma pesquisa realizada em 2014 que examinou 32 casos de estupro por vários agressores em um único incidente envolvendo adolescentes de 12 a 17 anos, em comparação com 534 casos de assaltos cometidos por um único agressor.

Na África do Sul, país onde a violência sexual é endêmica, 8,9% dos homens adultos já confessaram envolvimento em estupro coletivo.

Relação entre agressores e vítimas geralmente é próxima

Em casos de estupro coletivo contra menores, a relação entre agressores e vítimas é geralmente próxima, o que intensifica o trauma e torna as denúncias mais difíceis.

Pesquisas apontam que 93% das vítimas com menos de 18 anos têm algum tipo de relação com o agressor:

  • 59% são conhecidos ocasionais
  • 34% são familiares
  • e apenas 7% são estranhos.

Em casos de múltiplos perpetradores, 27,7% envolvem estranhos, 28,3% conhecidos ou datas casuais, 10,3% parentes, e 27,7% múltiplos tipos.

No Brasil, 86% dos autores são conhecidos, com 67% dos casos ocorrendo na residência da vítima, de acordo com a Unicef Brasil.

Acesse a matéria no site de origem.

Nossas Pesquisas de Opinião

Nossas Pesquisas de opinião

Ver todas
Veja mais pesquisas