‘Treinando caso ela diga não’: vídeos no TikTok simulam agressões a mulheres em meio a escalada de violência e recorde de feminicídios

10 de março, 2026 g1 Por Bianca Muniz e Camila da Silva

Vídeos publicados por jovens mostram encenações de reação violenta à negativa em pedidos de namoro ou casamento, com simulações de socos e golpes com faca; no Rio, uma jovem que recusou um homem foi esfaqueada mais de 15 vezes e sobreviveu após quase um mês internada.

Uma trend que circula no TikTok com a frase “treinando caso ela diga não” ganhou força nas redes sociais e tem gerado repercussão nas últimas semanas.

Nos vídeos, os criadores simulam situações de abordagem romântica, geralmente um pedido de namoro ou casamento. Em seguida, aparece a frase “treinando caso ela diga não” ou variações semelhantes.

Depois da legenda, os autores encenam reações agressivas diante da possibilidade de rejeição. Em muitos casos, as simulações incluem socos em objetos, movimentos de luta ou golpes com faca.

O g1 analisou vinte vídeos divulgados na plataforma, publicados entre 2023 e 2025. Os posts são de perfis de 883 até 177 mil seguidores, e acumulam mais de 175 mil interações na plataforma.

Segundo o blog da Julia Duailibi, a Polícia Federal (PF) derrubou perfis e abriu inquérito para investigar os vídeos virais que simulam violência a mulheres.

Após a publicação da reportagem, o TikTok enviou nota ao g1 informando que o conteúdo viola as Diretrizes da Comunidade e que os vídeos foram removidos da plataforma assim que identificados (leia a íntegra ao fim da reportagem).

Isso ocorre em um contexto de recorde de feminicídios e escalada de violência contra as mulheres. O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025. Ao todo, 1.470 mulheres foram mortas por esse tipo de crime no país ao longo do ano, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O número supera os 1.464 casos contabilizados em 2024, que até então representavam o maior patamar da série histórica. Na média, os registros indicam que quatro mulheres foram assassinadas por dia no país no ano passado.

O formato simples facilitou a reprodução do conteúdo. Muitos vídeos usam a mesma frase na tela e pequenas variações na encenação, algo comum em trends replicáveis da plataforma.

Embora a tendência tenha voltado a circular com força entre criadores brasileiros no final de 2025, registros de vídeos com esse formato aparecem nas redes desde pelo menos 2023.

Os registros mais antigos com esse formato aparecem em publicações feitas fora do Brasil. Em um dos exemplos localizados pela reportagem, publicado em março de 2025, um vídeo com a legenda em inglês “Me practicing just in case she says no” (“Treinando caso ela diga não”) acumulava mais de 115 mil curtidas na plataforma.

O formato é semelhante ao que depois passou a circular entre criadores brasileiros, com simulações de reação violenta após a possibilidade de rejeição.

Para a pesquisadora Raquel Saraiva, presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), conteúdos desse tipo tendem a se espalhar rapidamente porque geram engajamento nas plataformas.

“As plataformas não gostam de remover conteúdo, principalmente esses conteúdos que são virais. Para o modelo de negócio delas é bom, traz lucro. Então elas lucram com esse tipo de conteúdo”, afirmou.

Segundo ela, a circulação desses vídeos pode ser mais intensa do que conteúdos educativos que buscam explicar por que esse tipo de comportamento é violento.

“Certamente um vídeo dessa trend vai viralizar muito mais do que um vídeo educativo dizendo por que isso é violência contra a mulher”, disse.
A especialista afirma ainda que as próprias regras das plataformas proíbem conteúdos que incentivem violência, mas que, na prática, isso nem sempre ocorre.

“Se elas não permitem e, ao mesmo tempo, estão mantendo no ar, existe uma falha de fiscalização para promover a remoção”, afirmou.

Esfaqueada por dizer ‘não’; quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil

Recentemente, uma jovem de 20 anos foi esfaqueada mais de 15 vezes dentro de casa, no Rio de Janeiro, por um homem que insistia em namorá-la e não aceitou a rejeição. Ela sobreviveu após quase um mês internada.

Em Pernambuco, uma jovem de 22 anos foi esfaqueada e teve o corpo incendiado por um ex-colega de trabalho após recusar um relacionamento com ele. A vítima foi atacada com golpes de faca e o agressor ainda jogou solvente sobre ela antes de atear fogo.

“Ele trabalhava com ela há um tempo, […] e ele se apaixonou por ela. Só que ele queria algo e ela não queria, até que ela encerrou um ciclo, como havia me dito, até mesmo o relacionamento de amizade, porque ela achava que ele era uma coisa e se surpreendeu com coisas que ela não chegava a dizer sobre ele”, contou a irmã da vítima.

Em Minas Gerais, uma mulher de 38 anos morreu após ser atacada com golpes de canivete por um jovem que tentou forçar um beijo durante a negociação de um celular. Segundo a polícia, o ataque aconteceu depois que ela recusou a investida.

“Ele disse que no momento da recusa da mulher, deu um ‘branco’ em sua cabeça e atingiu a vítima com vários golpes de canivete”, relatou o delegado.

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