Especialistas alertam que memes e piadas machistas nas redes sociais ajudam a naturalizar o desrespeito e reforçam desigualdades de gênero
A violência contra a mulher segue em evidência no País. Segundo uma pesquisa realizada pela TV Brasil, cerca de 82% das mulheres afirmam sentir medo de serem violentadas em ambientes do cotidiano, inclusive no digital. Nesse contexto, a presença frequente de conteúdos misóginos nas redes sociais contribui para a banalização desse tipo de crime, que deixa de provocar indignação e passa a ser percebido como parte do dia a dia, reforçando estereótipos e desigualdades.
Essa avaliação é reforçada pela doutoranda em Psicologia Natália Gallo, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. “A repetição constante de conteúdo ofensivo pode gerar um processo de dessensibilização social, porque ajuda a naturalizar essas desigualdades, a banalizar formas de violência, de modo que o conteúdo passa a ser visto até como parte da cultura, como parte do cotidiano mesmo, do dia a dia”, explica. “Além disso, esse processo pode reduzir a empatia e a percepção crítica das pessoas diante de situações de desigualdade ou de agressão.”
Outra grande problemática dessa constância de conteúdos nas redes sociais envolve os jovens, que estão em processo de formação social e cultural, assim essa exposição pode acabar moldando percepções negativas sobre o tema. Para ela, a exposição contínua a esse tipo de conteúdo pode moldar percepções sobre gênero, orientação sexual e relações sociais. “Em vez de provocar indignação, o conteúdo passa a gerar risadas ou indiferença, influenciando a forma como essas gerações compreendem o que é aceitável ou não no convívio social.”
Ainda sobre o impacto entre jovens, a médica psiquiatra Lorena de Souza Rodrigues, do Serviço de Atenção às Vítimas de Violência Doméstica e Agressão Sexual (Seavidas) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (HCFMRP-USP), afirma que, apesar de muitos já terem contato com informações sobre consentimento e violência, o sentimento de culpa ainda é frequente entre vítimas. “Eles chegam mais familiarizados com termos como ‘não culpar a vítima’ ou ‘não é não’, o que é positivo. Mas aquela responsabilização profunda ainda se mantém”, explica.
Violência digital
Além da violência física e psicológica, o ambiente digital também faz parte desse cenário. Embora possa ajudar na divulgação de denúncias e no debate sobre o tema, as redes sociais também podem agravar situações de violência e facilitar a ação de agressores. Segundo a psiquiatra, as mídias sociais ajudam no apoio às vítimas, mas também podem facilitar o contato com o agressor. “A gente vê muitas mulheres e adolescentes que estavam se recuperando e, ao abrir uma rede social, encontram mensagens culpando a vítima. Isso pode funcionar como um gatilho e dificultar o processo de recuperação.”
Com a recorrência de casos de misoginia, Natália alerta que o humor pode ser usado para mascarar discursos violentos. Segundo ela, piadas e conteúdos apresentados como brincadeira podem reduzir a indignação diante de comentários discriminatórios e contribuir para a naturalização dessas falas.
“Algumas estratégias humorísticas funcionam como um modo mais sutil, mais disfarçado de violência. Quando conteúdos misóginos, machistas, racistas ou LGBTfóbicos aparecem como brincadeira, eles deixam de provocar indignação e passam a ser percebidos como algo normal. É como se o humor funcionasse como uma espécie de proteção discursiva, autorizando socialmente discursos que talvez fossem rejeitados se fossem apresentados de forma séria.”
Natália ressalta, porém, que o humor não precisa necessariamente reforçar desigualdades. Dependendo de como é utilizado, ele também pode servir como instrumento de crítica social e conscientização.
“O humor pode reforçar opressões, mas também pode ser uma ferramenta de conscientização. Tudo depende de como ele é utilizado. Quando expõe contradições sociais ou questiona relações de poder, pode provocar reflexão. Mas, quando reforça estereótipos que inferiorizam determinados grupos, acaba reproduzindo desigualdades e funcionando como aliado de discursos de ódio”, afirma.
A percepção de impunidade diante desses crimes é outra problemática que contribui para a repetição dessas atitudes. Segundo Lorena de Souza, muitas vítimas deixam de denunciar por acreditarem que precisam apresentar provas claras da violência. “Existe uma crença de que, para denunciar esse tipo de crime, é preciso ter provas muito evidentes. Como muitos abusos não deixam marcas físicas, algumas pessoas acabam não denunciando e os agressores acreditam que não haverá provas suficientes contra eles.”
Casos recentes amplamente repercutidos na mídia mostram que esse tipo de comportamento ainda aparece sem constrangimento, inclusive diante de câmeras e em entrevistas esportivas. Ambientes historicamente marcados pela predominância masculina podem reproduzir práticas que normalizam a objetificação e a inferiorização das mulheres. Para Natália, esse cenário tem raízes históricas.
“Historicamente, as relações de poder entre homens e mulheres foram construídas dentro de estruturas sociais que legitimam a dominação masculina. No esporte, isso pode aparecer em práticas culturais que normalizam comentários sexistas ou a ideia de que certos espaços pertencem prioritariamente aos homens. Assim, quando essas práticas se repetem em ambientes coletivos, como os estádios, vestiários, redes sociais, elas podem ganhar um caráter de normalidade”, explica.