Como a violência contra a mulher também afeta crianças?

24 de março, 2026 Portal Lunetas Por Ylanna Pires

Especialistas apontam caminhos jurídicos e psicológicos para proteger o bem-estar e o direito ao desenvolvimento saudável das crianças.

Resumo: O recorde de 1.518 feminicídios em 2025 e os 21,4 milhões de mulheres agredidas revelam uma violência que também atravessa a infância. O Lunetas ouviu especialistas para explicar como esse cenário compromete o desenvolvimento e a segurança de crianças e adolescentes.

O Brasil encerrou 2025 com o recorde de 1.518 feminicídios, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A gravidade do cenário é reforçada pela pesquisa Visível e Invisível, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: 21,4 milhões de brasileiras sofreram violência no último ano, sendo 8,9 milhões vítimas de agressões físicas. Para entender como essa realidade atravessa a infância e compromete o desenvolvimento saudável das crianças, o Lunetas conversou com especialistas em Direito e saúde mental infantil.

Os sinais

Alice Santana, psicóloga escolar e especialista em trauma infantil, atende muitas crianças no seu trabalho em uma escola da rede pública do município de Natal, no Rio Grande do Norte. Em 2025, ela auxiliou na identificação de diversos casos de violência contra a mulher por meio das conversas que mantém sobre o cotidiano com os pequenos. “Muitas vezes, a criança não traz um relato estruturado, mas ela desenha o medo ou verbaliza uma insegurança profunda sobre o que acontece em casa”, compartilha Alice.

Segundo a especialista, a criança que vive em um lar onde o medo impera apresenta sinais claros. “Existe desde a hipervigilância, em que o pequeno está sempre esperando o próximo conflito, até regressões no desenvolvimento, como voltar a urinar na cama, agressividade repentina ou um isolamento profundo que a impede de brincar”, explica a psicóloga.

O impacto ocorre porque o desenvolvimento neurológico infantil em ambientes hostis opera sob estresse crônico. Esse estado de alerta constante prejudica funções básicas como o sono, a alimentação e a capacidade de concentração escolar. Conforme estudos da USP e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a exposição à violência doméstica é uma forma real de vitimização indireta, também chamada de trauma vicário.

O que é o “estresse crônico” por violência e como ele afeta crianças?

Quando uma criança vive em um ambiente de violência, o seu cérebro recebe descargas constantes de cortisol (o hormônio do estresse). Diferente de um susto passageiro, esse estado não passa. Isso pode causar:

  • Dificuldades cognitivas: problemas de memória e atenção na escola;
  • Impactos físicos: dores de cabeça e de estômago sem causa orgânica aparente;
  • Alterações emocionais: ansiedade excessiva, medo de separação e risco de internalizar padrões violentos no futuro.

O rastro dos dados

No Brasil, os números da violência de gênero seguem alarmantes e revelam uma realidade que transborda para a infância. De acordo com o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024), as agressões por violência doméstica aumentaram 9,8% em 2023, totalizando mais de 258 mil registros oficiais.

A advogada Camila Rufato Duarte, fundadora do @direito.dela, reforça que o sistema de justiça brasileiro reconhece que a violência doméstica atinge toda a estrutura familiar. “As crianças não são blindadas: elas percebem tudo e, muitas vezes, sentem na pele, fisiológica e emocionalmente, como se fossem elas próprias as agredidas”.

A violência é tão real que, juridicamente, a criança que testemunha agressões é considerada vítima direta de violência psicológica. Camila complementa que “hoje há estudos sérios que reforçam que isso não é exagero nem invenção: é uma forma real de vitimização”. Portanto, a proteção integral prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) deve ser acionada, pois a violência silenciosa é profundamente danosa para quem está em fase de crescimento.

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