Mulheres negras produzem 44% do trabalho de cuidado no país

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Foto: Unsplash

26 de março, 2026 Nós, Mulheres da Periferia Por Beatriz de Oliveira

Pesquisa analisa sobrecarga das mulheres nas tarefas domésticas e de cuidado e destaca desigualdades de gênero, raça e classe

As mulheres são as grandes responsáveis pelo trabalho de cuidado no país: somam quase 80% de todos os serviços não remunerados de tarefas domésticas e amparo aos familiares. As mulheres negras são ainda mais sobrecarregadas: produzem 44% dessas atividades, apesar de serem 24% da população.

Esses dados, do estudo “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, refletem como a divisão desigual do trabalho de cuidados condiciona mulheres a ciclos de empobrecimento e exclusão, restringindo suas possibilidades educacionais, profissionais, de autonomia econômica e de participação política.

Segundo definição do governo federal, o trabalho de cuidado envolve tarefas como a preparação de alimentos, limpeza, gestão e organização da casa, bem como as atividades de assistência, apoio e auxílio diários para pessoas com diferentes graus de dependência.

De acordo com o Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados do Brasil, o cuidado pode ser definido como um trabalho cotidiano de produção de bens e serviços necessários à sustentação e reprodução da vida humana, da força de trabalho, das sociedades e da economia e à garantia do bem-estar de todas as pessoas.

Assinada pelos pesquisadores Jordana Cristina de Jesus, Simone Wajnman e Cássio Turra, a publicação analisa as Contas Nacionais de Transferência de Tempo (CNTT), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2015. Os dados revelam o tempo dedicado aos cuidados a membros dos lares brasileiros. De acordo com o estudo, o termo transferência de tempo refere-se à quantidade de horas, sejam elas diárias ou semanais, que uma pessoa cede do seu próprio tempo para realizar atividades das quais outras pessoas irão se beneficiar.

Dados mais recentes confirmam o cenário descrito pelas pesquisadoras. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua 2022 mostrou que, naquele ano, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas.

No âmbito das políticas públicas, o governo federal decretou em 2024 a Política Nacional de Cuidados, destinada a garantir o direito ao cuidado, por meio da promoção da corresponsabilização social entre homens e mulheres pela provisão de cuidados.

Nesse sentido, as pesquisadoras apontam que essa política deve priorizar grupos sociais com maiores necessidades. O que se traduz, por exemplo, na disponibilização de mais vagas de creche e pré-escola, escola em tempo integral, serviços de cuidado no contraturno e apoio à atenção domiciliar para pessoas idosas nos territórios com alta incidência de jovens cuidadoras.

Desigualdades do cuidado

Foi visto, por exemplo, que meninas de 10 a 14 anos produzem mais cuidados do que qualquer grupo etário de homens. A desigualdade de gênero e a falta de responsabilidade dos homens nesse âmbito são evidentes: eles consomem mais cuidados do que produzem ao longo de suas vidas.

Além das desigualdades de gênero e raça, as disparidades de classe também são nítidas: mulheres de baixa renda dedicam mais horas ao cuidado não remunerado. Isso se explica pelo fato de elas enfrentarem maiores restrições no acesso a serviços básicos, como energia elétrica, água encanada e gás de cozinha, além de terem menos disponibilidade de itens que facilitam o trabalho doméstico, como eletrodomésticos e refeições prontas.

Pontua-se ainda que a escolaridade, apesar de diminuir disparidades, não elimina o impacto das desigualdades estruturais. “Conclui-se que a sobrecarga feminina perpetua ciclos de exclusão social, reforçando a necessidade de políticas públicas que promovam a corresponsabilidade social nos cuidados e enfrentem desigualdades interseccionais de forma equitativa e progressiva”, lê-se.

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