Mulheres e candidaturas LGBTQIAPN+ enfrentam violência, enquanto redes de acolhimento e tecnologia buscam proteger a participação democrática
-
Violência política digital: mulheres e candidatas LGBTQIAPN+ são alvo desproporcional de ataques, ameaças e campanhas de desinformação nas redes durante eleições;
-
Acolhimento e suporte: o Plantão Colmeia oferece apoio psicológico e orientação para denúncia, ajudando vítimas a permanecerem na vida política;
-
Tecnologia contra o ódio: o projeto Sentinela usa inteligência artificial para identificar e mapear ataques LGBTfóbicos, produzindo dados para enfrentar a violência online.
Quando as mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ entram na disputa eleitoral no Brasil, muitas vezes enfrentam um segundo campo de batalha: a internet. Ataques coordenados, ameaças e campanhas de desinformação nas redes sociais se tornaram uma das principais barreiras para a participação desses grupos nas eleições brasileiras.
Nas eleições municipais de 2024, segundo monitoramento do Instituto AzMina, mulheres representaram menos da metade das candidaturas, mas foram alvo de 51,1% dos comentários ofensivos em debates eleitorais online.
A violência política de gênero é crime eleitoral no Brasil desde a Lei 14.192/2021, que define como infração toda ação, conduta ou omissão destinada a impedir ou restringir os direitos políticos das mulheres. A norma alterou o Código Eleitoral para proibir a propaganda partidária que deprecie a condição de mulher ou estimule sua discriminação em razão do sexo feminino, em relação à sua cor, raça ou etnia. Contudo, diante do avanço do ódio digital, são as organizações da sociedade civil que têm assumido o papel central no acolhimento e na proteção dessas candidaturas.
Quase metade (48%) dos atendimentos a mulheres que chegaram ao Plantão Colmeia, do Instituto E Se Fosse Você?, envolve violência no ambiente virtual, geralmente dirigida a parlamentares ou lideranças ativistas. Essa violência é amplificada por comentários e vídeos de agressores e seus apoiadores nas redes sociais, que visam desestabilizar a atuação das mulheres em esferas públicas.
O Plantão Colmeia é um serviço de alcance nacional que oferece acolhimento psicológico e orientação para denúncia a vítimas de violência política. Segundo Fran Rodrigues, coordenadora da iniciativa, embora a maioria das mulheres que procuram o serviço seja do campo progressista, elas não são as únicas.
O Plantão acolhe mulheres que sofrem violência política de gênero e raça, sem distinção de espectro político, incluindo mulheres de centro, direita e esquerda. Fran lembra do episódio em que uma candidata atendida relatou surpresa diante dos ataques de um homem do mesmo campo político que ela: a extrema direita.
“O patriarcado tem um objetivo em comum, assim como o racismo. As pessoas negras que estão na extrema direita não deixam de sofrer racismo, porque o racismo vem da estrutura da sociedade”, explica Fran.
Ataques a mulheres LGBTQIAPN+
Nas eleições de 2022, mulheres LGBTQIAPN+ representavam apenas 2,1% das candidaturas, mas concentraram 30% dos casos registrados de violência política de gênero pelo Ministério Público Federal, segundo pesquisa da organização VoteLGBT.
Quase metade dessas violências (48%) são classificadas como crimes penais, incluindo ameaças graves e violência física. Segundo Raíssa Romano, pesquisadora do VoteLGBT, os casos mais críticos acontecem majoritariamente nos ambientes digitais, onde o número dos ataques tipificados no Código Penal chega a 90%.
É nesse terreno que o projeto Sentinela do VoteLGBT atua, levando a disputa política também para o campo da tecnologia. O projeto parte da compreensão que as ferramentas de Inteligência Artificial não são neutras, mas moldadas por decisões políticas, valores sociais e relações de poder.
“No contexto brasileiro, essas tecnologias têm operado de forma ambígua: ao mesmo tempo em que amplificam a violência contra populações dissidentes, abrem também uma oportunidade real de reconfigurar seus usos”, explica Raíssa.
A tecnologia como ferramenta de proteção
O Sentinela é uma ferramenta confidencial que usa inteligência artificial para identificar padrões de violência política contra lideranças LGBTQIAPN+, acolher denúncias e fortalecer a luta por eleições mais seguras e justas.
O projeto atua em duas frentes principais:
-
A primeira é uma escuta qualificada das candidatas, via WhatsApp (com chatbot integrado ao GPT-4) e formulário online;
-
A segunda é a produção ativa de dados em larga escala.
O diferencial da ferramenta está na sua capacidade de capturar não apenas ofensas explícitas, mas também formas mais sutis de violência — ataques velados, contextuais e específicos do cenário sociopolítico brasileiro. Muitas dessas agressões escapam aos sistemas genéricos de moderação justamente por dependerem de nuances de linguagem e contexto.
Com elevada confiabilidade, a ferramenta já identificou mais de 3.500 ataques transfóbicos em uma amostragem analisada.
Combate estrutural à violência
A intensidade dos ataques frequentemente ultrapassa o espaço público, afetando profundamente a vida pessoal das mulheres que os enfrentam. Não é raro que algumas pensem em abandonar a carreira política. O suporte psicológico e jurídico oferecido pelo Plantão Colmeia busca evitar essa desistência, criando estratégias para que essas mulheres permaneçam na política e possam enfrentar a violência.
As psicólogas da equipe são formadas para compreender o contexto específico da mulher na política e evitar respostas simplistas, como sugerir que a vítima abandone a vida pública, reconhecendo a luta por trás da ocupação desses espaços. “Caso o desejo de saída seja genuíno, o Instituto respeita, mas busca fortalecer as mulheres para que o agressor seja responsabilizado, e não a vítima”, explica a coordenadora Fran.
Nesse contexto, o acolhimento emocional passa a ser visto também como uma ferramenta de manutenção da democracia, e não apenas como assistência humanitária. Fran defende que o poder público poderia absorver metodologias desenvolvidas por organizações da sociedade civil, como o Instituto E Se Fosse Você?, e implementar políticas de Estado — e não apenas de governo — de combate ao discurso de ódio e ao machismo. Isso incluiria, segundo ela, investir mais fortemente em educação para enfrentar a misoginia na base da sociedade, em vez de atuar apenas após os episódios de violência.