Mulheres negras são alvo de violência digital indiscriminada, independente de cargo ou idade

Woman waiting and playing on her phone

Foto: Freepik

27 de abril, 2026 Alma Preta Por Redação

Pesquisa do Instituto Minas Programam revela grau de disseminação da violência de gênero facilitada pelas tecnologias e mostra de que forma mulheres reagem.

Beatriz (nome fictício), 50 anos, enfrentou uma série de ataques no período em que atuou como professora substituta em uma universidade pública brasileira. Estudantes usavam plataformas de mídia social para difamá-la e encorajar outros a fazer o mesmo. Os ataques não só tinham como alvo os métodos de ensino dela, como incluíam conteúdo ofensivo de raça e gênero.

Diziam que eu era muito rígida e que, em vez de dar tarefas difíceis para eles fazerem, eu precisava de um homem que tomasse conta de mim. E as pessoas curtiam esses comentários”, conta.

A educadora também enfrentou ameaças diretas, que culminaram em uma resposta da administração da universidade, mas com um reconhecimento institucional tido por ela como superficial do racismo, da misoginia e da homofobia reportados.

Já a experiência de Michelle, 34, com a violência de gênero facilitada pelas tecnologias (mais conhecida pela sigla VGFT) começou em 2019, quando liderou a abertura de uma biblioteca comunitária cujo nome — Marielle Franco — havia sido escolhido com os jovens com os quais trabalhava.

Os ataques incluíam insultos de gênero e raça, com comentários que se referiam à Michelle como “mulherzinha”, questionavam sua habilidade e autoridade para inaugurar uma biblioteca. “O que ela acha que está fazendo?”, indagavam. Também procuravam desautorizá-la como alguém que pudesse estar à frente de um projeto que visava democratizar o acesso ao conhecimento na comunidade.

Maria, 30 anos, é uma mulher negra e nordestina que planejava disputar as eleições municipais em 2018, quando começou a receber ligações anônimas nas quais interlocutores descreviam exatamente onde ela estava. As ameaças constantes e as ligações com detalhes sobre sua movimentação, além da sensação de ser constantemente vigiada, tornaram-se insuportáveis.

Depois desse primeiro contato [com a VGFT], percebi que as redes sociais tinham um papel muito importante [na ampliação do meu alcance]. Mas também me senti desmotivada para ser influenciadora. Abandonei totalmente o papel de influenciadora política depois disso”, conta Maria, que desistiu da candidatura.

Esses são alguns dos casos que compõem pesquisa realizada pelo Instituto Minas Programam entre abril de 2024 e março de 2025, intitulada “Cavando nossos espaços – Experiências de mulheres negras brasileiras na resistência à violência de gênero facilitada pelas tecnologias”. Com foco em abordar a violência de gênero facilitada pelas tecnologias, a pesquisa revela como o racismo, o machismo e a misogynoir (expressão em inglês cunhada para se referir à misoginia contra mulheres negras que acontece no contexto digital e midiático) estão enraizados nas tecnologias digitais convencionais.

O grau de disseminação desta forma de violência é abrangente. O ambiente pode ser o da política, o das universidades ou o das empresas – não faz diferença. A pesquisa mostra que mulheres negras estão sujeitas à violência no ambiente virtual, especialmente via redes sociais, independentemente de suas posições, idades e níveis hierárquicos, como uma extensão das violências de gênero também enfrentadas nos espaços físicos.

Não é necessário ser uma figura pública para receber ataques, basta ser uma mulher negra que se posicione. Pelas entrevistas, percebemos diversos casos de VGFT contra mulheres negras com sua exclusão de espaços como bibliotecas, universidades, política e de profissões STEM [das áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática], e uma negação do seu reconhecimento como intelectuais, criadoras de conhecimento e educadoras”, afirma Bárbara Paes, diretora do Minas Programam e uma das autoras do estudo.

Ataques ao trabalho intelectual de mulheres negras

A pesquisa, qualitativa incluiu entrevistas aprofundadas com 12 mulheres negras brasileiras — escritoras, políticas, profissionais da área da tecnologia, estudantes, líderes comunitárias, artistas e jornalistas — que sofreram alguma forma de VGFT e que são envolvidas com organizações de justiça social, movimentos sociais e ativismo político e/ou digital.

Ao fazerem tal trabalho, por meio de práticas como escritos públicos e postagens sobre suas carreiras e/ou projetos comunitários, e compartilharem abertamente seus pontos de vista sobre questões sociais e políticas, essas mulheres são percebidas como contestadoras das hierarquias sociais presentes na sociedade brasileira.

As várias formas de VGFT enfrentadas pelas participantes da pesquisa estavam permeadas por narrativas que tentavam retratar mulheres negras como incapazes e desqualificadas para o trabalho intelectual e para certas profissões, para a política ou para a organização em torno de questões sociais.

Observamos que qualquer mulher negra está sujeita a esse tipo de ataque, já que a VGFT busca com frequência reproduzir e amplificar narrativas de que essas mulheres são inadequadas ao debate público e não são aptas a determinados cargos em profissões predominantemente ocupadas por pessoas brancas e, em sua maioria, homens”, pontua Ester Borges, também autora da pesquisa.

Pesquisa do sociólogo Luiz Valério de Paula Trindade mostrou que mulheres negras entre 20 e 35 anos e com diferentes graus de mobilidade social no Brasil representavam 81% das vítimas de discurso racista no Facebook em 2022.

Articulação em grupo é forma de resistência

As violências constatadas na pesquisa do Minas Programam têm impacto sobre a liberdade de expressão de mulheres negras brasileiras, levando ao silenciamento, à autocensura e a limitações de comportamento on-line, assim como têm repercussões psicológicas e emocionais persistentes e podem ser obstáculos para suas vidas profissionais e seu engajamento com o ativismo.

O estudo, porém, mostra formas de articulação de mulheres que sofreram VGFT. Apesar de as tecnologias digitais convencionais perpetrarem violências contra elas, mulheres negras estão criando seus próprios espaços online, engajando com práticas de cuidados digitais e cultivando comunidade e conexão umas com as outras.

As participantes da pesquisa se recusaram a ficar silenciadas. São histórias de reconstrução coletiva, com mulheres negras definindo novas formas de continuar atuando”, diz Bárbara Paes, do Minas Programam.

Um exemplo concreto foi o de Mariane, 27 anos, maquiadora e líder comunitária que, após sofrer uma enxurrada de ataques misóginos, racistas e gordofóbicos, apagou suas redes sociais e se distanciou completamente dos espaços digitais.

Foi por meio da amizade com uma vizinha, que era líder comunitária, que teve início o processo de recuperação da maquiadora. Ao se juntar a um coletivo feminista negro, Mariane entendeu a seriedade da violência que havia sofrido, assim como as dimensões do conteúdo misógino e racista que tinha recebido. Ela também foi apoiada por outras mulheres negras, que compreendiam sua situação.

Para a estudante universitária Letícia, 24, que foi vítima de agressão física e de uma campanha de difamação nas redes sociais, a esperança de construir possibilidades com outras mulheres negras, assim como a comunidade e a amizade que encontrou nelas, que a faz “seguir em frente”.

Por mais que esse espaço seja hostil, estou disposta a construir algo mais acolhedor para nós. Para que outras não passem pelo que eu passei. Porque nós estamos construindo um novo mundo. […] É um lugar onde eu fui vítima de violência. É um lugar onde muitas pessoas sofrem violência, mas é um lugar onde eu vou ficar, porque é uma arena de disputa política e onde a gente precisa estar. A diferença é quem vai estar lá com a gente. Tenho percebido cada vez mais que são as mulheres pretas que aguentam o tranco para apoiar outras mulheres pretas.”

Minas Programam

O Minas Programam é uma iniciativa criada em 2015 para desafiar os estereótipos de gênero e de raça que influenciam sua relação com as áreas de ciências, tecnologia e computação. A organização promove oportunidades de aprendizado sobre programação para meninas e mulheres, priorizando àquelas que são negras ou indígenas.

Com todas as atividades gratuitas e ministradas por mulheres, são oferecidos cursos de introdução à programação, oficinas, treinamentos e debates.

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