Levantamento inédito d’AzMina ouviu jornalistas brasileiras que cobrem violência contra a mulher e descobriu um ciclo de ameaças, agressões e silenciamento
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Levantamento d’AzMina ouviu 13 jornalistas que cobrem violência de gênero e revelou ameaças, assédio moral, ataques digitais, agressões físicas e silenciamento institucional;
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Os relatos mostram que a violência vem de agressores, familiares de agressores, colegas, chefias e empresas, que desqualificam pautas como “ativismo” e deixam jornalistas sem proteção;
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A reportagem aponta efeitos como medo, ansiedade, autocensura, burnout e abandono da profissão, e defende que segurança física, digital, jurídica e mental é responsabilidade das redações.
Era sábado à noite e Taty Valéria, jornalista e fundadora do portal Paraíba Feminina, ainda trabalhava. Horas antes, ela tinha recebido um pedido de ajuda: uma mulher estava sendo ameaçada pelo ex-companheiro que, mesmo preso por tentativa de feminicídio, tinha conseguido um celular.
Diante do absurdo, Taty articulou sua rede e conseguiu que a Patrulha Maria da Penha levasse a vítima para um abrigo sigiloso. Com a fonte segura, denunciou o caso à Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco — que fez “uma varredura na cela e achou o celular dele” — e escreveu uma reportagem sobre o que aconteceu.
“No dia seguinte, recebi a primeira ameaça de morte no meu celular. Fiquei com muito medo, porque ela estava protegida, mas eu não”, lembra. As ameaças vinham de uma pessoa que se identificou como familiar do acusado. Taty conta que fez um boletim de ocorrência e ficou 15 dias sem sair de casa, até que ele fosse notificado judicialmente.
Para uma mulher sair de um ciclo de violência, ela precisa de rede de apoio: psicóloga, assistente social, delegada, amiga, advogada e, muitas vezes, de uma jornalista — alguém que escute sua história e a torne pública. Por isso, às vezes, agressores tentam intimidar e silenciar quem as apoia.
Em um levantamento inédito, a Revista AzMina entrevistou 13 jornalistas brasileiras, para compreender como elas são atingidas pela violência contra mulheres quando denunciam o problema. Os relatos envolvem ameaças de estupro, agressões físicas e digitais, assédio judicial, silenciamento institucional e outras violências cometidas por feminicidas, familiares de agressores e até colegas de profissão.

Dificuldade de se ver no lugar de vítima
A mensagem “eu tenho o seu endereço” chegou no e-mail profissional de Júlia*, em uma noite de 2014, enquanto estava na redação de uma revista onde trabalhava. Ela não teve dúvidas de que era uma ameaça. Na época, a jornalista conduzia uma investigação sobre homens que “disseminavam ódio contra as mulheres na deep web”.
Tudo piorou quando o WhatsApp dela foi incluído em um grupo de conteúdos misóginos. Ela tentava bloqueá-lo, mas era novamente inserida no grupo por contatos que desconhecia. Orientada pela revista, foi até uma delegacia e registrou um boletim de ocorrência. Também fez uma denúncia na própria plataforma do WhatsApp.
Depois disso, nunca mais ouviu falar dos agressores, tampouco da investigação conduzida pela polícia. Ela só resgatou essa memória ao ser questionada pela reportagem sobre já ter sofrido alguma violência. Para ela, a exposição frequente afeta a percepção como vítima: “Jornalistas têm dificuldade de se ver nesse lugar.”
“O jornalismo é um meio perigoso de trabalho”
Todas as participantes do levantamento d’AzMina já sofreram algum tipo de violência, assédio ou retaliação no exercício do jornalismo, sendo que a maioria (54%) viveu entre dois e cinco episódios. Cada jornalista participante escolheu um episódio para relatar em detalhes e, a partir desse recorte, mais da metade afirmou que a violência sofrida teve relação direta com a cobertura de violência contra mulheres.

O assédio moral foi o tipo de violência mais frequente, seguido por ameaças diretas, pessoais ou por mensagem, e ameaças digitais. Houve ainda relatos de doxing, que é a exposição de dados pessoais como endereço, telefone e rotina na internet. Elas contaram ainda sobre processos judiciais na forma de SLAPPs — sigla em inglês para processos movidos para desgastar financeiramente a pessoa acionada.
Uma das camadas trazidas pela pesquisa é que as violências não estão restritas a agentes externos: as respondentes relataram demissão e veto de pauta pela chefia. Uma delas apontou: “O jornalismo é também um meio perigoso de trabalho no sentido de violência interna.” Os episódios de violência contra as jornalistas aconteceram durante a cobertura (38%) e também depois da publicação de suas reportagens, mostrando que o risco atravessa todo o processo jornalístico.
Quando a violência é entre pares
“Ele me pegou pelas costas com as duas mãos nos ombros e me jogou”. Grace define o que viveu como “uma violência extrema”, mas também como retaliação. Na última vez que estiveram juntos, cobriam a prisão de um homem acusado de feminicídio. O colega falava insistentemente com o acusado — que era estrangeiro e sabia pouco de português — e não respeitava o momento dela na entrevista. Então ela disse: “Ele [o preso] não vai te entender. Deixa ele responder”.
Nos mais de 20 anos de experiência profissional, a pauta de gênero se impôs inúmeras vezes na trajetória de Grace Abdou, que já tinha recebido intimidações por exercer o seu trabalho. Mas foi recentemente, quando um colega de outra emissora a empurrou com violência durante uma transmissão, que ela compreendeu como o gênero sobrepõe a ética profissional, o tempo de caminhada e uma amizade de anos.
Ela considera que ele a agrediu por não aceitar ser questionado por uma mulher e que jamais teria agido assim com um repórter homem. Grace registrou um boletim de ocorrência, mas não deu sequência à denúncia. Dias após o ocorrido, o repórter foi escalado para apresentar o telejornal.