Enquanto o Brasil registra alta na mortalidade por abuso infantil, relatos de sobreviventes e especialistas revelam como a violência se converte em doenças crônicas e silenciamento institucional.
Mila* escrevia cartas para endereços inventados quando criança. Copiava números de casas, criava nomes de ruas e colava o selo. Fingia surpresa ao recebê-las. Na sequência, as lia e respondia para si mesma. Embora vivesse com outras seis pessoas num mesmo cômodo, sentia-se sozinha.
Vítima de violência doméstica praticada pelo próprio pai — e da negligência dos adultos que nada faziam —, Mila recorria às cartas e ao faz de conta para suportar o insuportável. “Eu te bato muito, mas eu te amo. Esse foi o modelo que aprendi”, ouvia dele, que tentava justificar as agressões. A infância, para ela, é uma lembrança nítida de dor e sobrevivência.
Mas não só para ela. Em 2024, dos 294.393 casos de violência doméstica sofrida por mulheres, 85.858 (29%) tiveram como alvo meninas de até 15 anos e 11.142 (4%) meninas de 16 a 17 anos. Isso significa que crianças e adolescentes foram mais de um quarto das vítimas de violência doméstica e sexual no Brasil naquele ano. Os dados são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

Quando falamos de vítimas adultas, um discurso recorrente — e cruel — sugere que elas “poderiam sair daquela situação se quisessem”. Mas o que dizer quando os alvos são crianças e adolescentes, sob a res as ponsabilidade direta de pais, avós, médicos e professores?
Este é o terceiro capítulo de uma investigação sobre como a violência doméstica se inscreve no corpo das mulheres. A série “Quando o corpo guarda a violência”, da Gênero e Número, já mapeou os efeitos no climatério e as falhas no atendimento às vítimas no sistema de saúde. Agora, recuamos no tempo para compreender como meninas e adolescentes carregam marcas que não ficam apenas na pele.
Para as especialistas ouvidas, o trauma que começa na infância não termina nela: ele se inscreve no sistema nervoso, no sistema imunológico e na capacidade de imaginar o futuro.
Duas décadas após a Lei Maria da Penha, o desafio é fazer com que as instituições aprendam a ler o que o corpo manifesta quando a palavra, nessa idade, ainda não consegue verbalizar.
A violência sexual
Aos 15 anos, Mila teve o primeiro namorado, que na época tinha 19. Para a família dela, ele era a personificação da estabilidade: trabalhador, prestativo com a sogra, alguém que presenteava a todos. Ele chegou a comprar uma beliche para os irmãos dela, que dormiam no chão. Era tamanha a simpatia que ninguém perguntava o que acontecia entre quatro paredes, mesmo quando Mila chegava em casa machucada.
Pela legislação brasileira, os pais são civilmente responsáveis por menores de 18 anos. O Código Civil determina que respondam por danos causados aos filhos, enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define o dever de sustento, guarda e educação. É deles a responsabilidade de zelo com a saúde sexual, física e psicológica.
Contrariando as normas, na casa de Mila não existia proteção. Durante o relacionamento, ela foi isolada dos amigos, sofreu xingamentos, humilhações e agressões físicas. Sua primeira relação sexual foi um estupro.
Para Theo Lerner, médico ginecologista e membro do Núcleo de Estudos da Violência contra a Criança e o Adolescente da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), existe uma idealização do lar como um ambiente seguro que é contrária aos dados.
O Sinan reforça que a casa das vítimas de até 17 anos anos (65%), seguida de via pública (7%) e escola (6%), são os principais lugares onde a violência acontece.
Lerner explica:
A violência intrafamiliar não é um fenômeno que envolve apenas uma vítima e um agressor. Todos os membros da família participam de forma direta ou indireta, em uma dinâmica complexa e com repercussões para todos os envolvidos.”
É por isso que a Lei Maria da Penha também se aplica a crianças e adolescentes do gênero feminino.
Os cúmplices da violência
Ana*, uma mulher negra, cresceu numa cidade pequena do interior da Bahia. A mãe foi presa por tráfico de drogas quando ainda era criança, e o pai se limitava a pagar uma pensão modesta e aparecer somente nas férias escolares. Tudo o que Ana tinha era a avó, que não vivia sozinha.
Desde que chegou à casa, aos 10 anos, o companheiro dela cercava Ana. Um homem muito mais velho controlava com violência com quem a menina falava, xingava quem se aproximasse, comentava sobre o corpo da criança sem cerimônia e cavava oportunidades de encostar lascivamente na menina, o que, pela legislação brasileira, é considerado estupro.
Uma vez, conta à reportagem, Ana ouviu a avó repreender o companheiro: “Cuidado com o pessoal, vão te denunciar, você está muito ciumento com ela”, lembra. Para ela, foi a comprovação de que a responsável sabia o que acontecia, só escolheu não agir.
Edinete Rosa, psicóloga e professora do Departamento de Psicologia Social e Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) explica que traumas não são gerados somente pelo que falamos ou fazemos, mas também pela ausência de ação.
Edinete reforça que, quando meninas que foram vítimas de violência doméstica na infância chegam à terapia, com frequência reclamam “da falta do suporte emocional de um adulto, de uma pessoa em quem pudessem confiar e recorrer nos momentos em que precisavam”.
A avó não era a única pessoa negligente. A mãe de Ana enfrentava uma dependência química grave, e o pai escolheu ser ausente.
“As pessoas acusadas de negligência são as mulheres e as mulheres negras”, aponta Bia Brambilla, psicóloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social e Violência da PUC-SP. “O abandono paterno e as responsabilidades da sociedade e do Estado em relação ao cuidado de crianças e adolescentes” são facetas da negligência que recebem menos atenção, defende.
Atores que contribuem para a negligência
Em lares onde crianças e meninas são vítimas de violência, a omissão e a negligência dos adultos frequentemente se estendem ao cuidado com o corpo. Consultas de rotina não acontecem, sintomas não chegam ao médico e conversas sobre saúde sexual e reprodutiva raramente existem. O que essas meninas aprendem sobre seus corpos costuma chegar pela via da dor.
O problema, porém, não começa nem termina dentro de casa. “O serviço de saúde deveria se interessar mais pelas histórias de vida das crianças e das mulheres, ir além daquilo que está aparente, para ver as possíveis causas”, diz Edinete Rosa.
Muitas vezes, acrescenta, nem a própria pessoa sabe que há uma conexão e vai negar que aquilo está relacionado, porque nunca teve oportunidade de conversar sobre isso com alguém. “Ainda temos uma sociedade que silencia a criança. As suas histórias não são consideradas críveis”, acrescenta Rosa.
Mila, por exemplo, não foi levada ao médico após o estupro que sofreu e não frequentava unidades de saúde. Ainda assim, seu problema também se tornou físico: até hoje lida com crises de fibromialgia, ansiedade e depressão.
Já Ana acessou a rede pública. Vizinhos denunciaram seu abusador e ela foi levada pelo Conselho Tutelar a uma psicóloga, mas pelo medo de ser separada do irmão, negou sofrer abusos. O sistema travou ali, e ela voltou para o lar violento, de onde só saiu quando adulta.
Ainda que a maioria dos casos de violência doméstica contra meninas de até 17 anos em 2024 tenha sido de violência sexual (49%) — seguida de física (26%) e negligência/abandono (25%) — somente 34% tiveram algum procedimento médico realizado.

Foram eles coleta de sangue (12%) profilaxia contra ISTs (6%), profilaxia contra HIV (6%), profilaxia contra Hepatite B (4%), contracepção de emergência (3%), coleta de secreção vaginal (2%), coleta de sêmen (1%) e aborto previsto em lei (1%).
O sistema de saúde foca no sintoma físico e ignora a narrativa de dor”, critica Bia Brambilla.
Falta a “tecnologia do olho no olho, da produção do vínculo, da construção da confiança. O cuidado deve ser a partir de quem é a pessoa, e não a partir dos recursos que eu tenho”.
Condicionar o reconhecimento de que elas são vítimas, como aconteceu com Ana, é transferir a responsabilidade que é do Estado para crianças e adolescentes. “A partir do momento em que os profissionais não se interrogam sobre os sentidos de uma narrativa contínua de dor, raramente vamos problematizar as origens sociais do sintoma”, defende Brambilla.
As mulheres, explica, às vezes narram justamente esses sintomas para conseguir algum tipo de cuidado e, mesmo assim, não são ouvidas.
Para a pesquisadora, “a escola está muito interessada em fazer com que a criança aprenda. O sistema de saúde, infelizmente, no tratamento, e não em outras formas de produção da saúde”, pontua. São instituições que “têm realizado um trabalho restritivo na maior parte das vezes”.