Romantização da mulher morta é fetiche do patriarcado, afirma Marcia Tiburi em livro

17 de junho, 2026 Portal Catarinas Por Kelly Ribeiro

No livro Ninfa Morta, a escritora e filósofa investiga a representação da mulher morta na cultura ocidental e suas implicações simbólicas e políticas.

A filósofa, escritora e uma das intelectuais feministas mais reconhecidas do país, Marcia Tiburi volta-se, em seu novo livro Ninfa Morta: uma história de ódio às mulheres (Editora Planeta), para uma imagem que atravessa séculos da cultura ocidental: a da mulher morta transformada em objeto de contemplação, desejo e idealização. A partir de uma figura mágica, associada à juventude, à beleza e à erotização do corpo feminino, e inspirada por personagens emblemáticas como Branca de Neve e Ofélia, a autora investiga como a romantização da morte feminina se tornou um dos pilares simbólicos da misoginia.

Resultado de mais de duas décadas de pesquisa em filosofia, arte e crítica feminista, a obra propõe uma reflexão sobre aquilo que Marcia identifica como um “culto da mulher morta” presente na literatura, nas artes visuais e no imaginário social. Para a autora, essa fascinação estética está longe de ser inofensiva. Trata-se de um mecanismo sofisticado que contribui para naturalizar a violência contra as mulheres e obscurecer suas raízes políticas.

Ela conecta essa fascinação ao avanço de grupos masculinistas, ao crescimento de discursos antifeministas nas redes sociais e à persistência de estruturas patriarcais que associam o ideal feminino à passividade, ao silêncio e à submissão. Com isso, o livro dialoga com debates sobre feminicídio, violência de gênero e os limites da cidadania das mulheres em sociedades marcadas pela desigualdade.

Ao revisitar figuras clássicas e fenômenos atuais da cultura digital, Marcia argumenta que a imagem da “ninfa morta” continua sendo atualizada e reproduzida, seja em narrativas literárias, produções audiovisuais ou tendências estéticas disseminadas online. Em contraponto, defende a construção de uma filosofia política feminista capaz de enfrentar a naturalização da violência e transformar a condição de vulnerabilidade das mulheres em resistência coletiva.

No dia 11 de junho, a autora esteve em Florianópolis (SC) para o lançamento do livro na Associação Cultural Baiacu de Alguém, no bairro histórico de São Antônio de Lisboa. A programação incluiu uma roda de conversa com as vereadoras Carla Ayres (PT) e Ingrid Sateré Mawé (PSOL) e a filósofa Janyne Sattler, com mediação de Alline Goulart, presidente do Instituto Cória.

Em entrevista ao Catarinas, ela fala sobre as origens da obra, as conexões entre misoginia e fascismo, o fenômeno das tradwives e os desafios de pensar o feminismo como uma proposta de sobrevivência diante do avanço da violência de gênero. Confira.

Você define Ninfa Morta como fruto de duas décadas de reflexão sobre a misoginia. Como surgiu a ideia do livro e o que a levou a escolher a figura da ninfa como fio condutor dessa história?

Como todas as meninas da minha geração, eu lia contos de fadas. De todos eles, o que mais me intrigava era a imagem da Branca de Neve morta dentro de um caixão de vidro sendo observada pelos anões e salva por um príncipe que teve a coragem de beijar uma morta.

Sempre me perguntei por que aquela jovem precisava ser velada dentro de um caixão de vidro. Percebi ali que os anões se dedicavam a contemplá-la e que a sua morte não devia ser considerada terrível, mas bela. Eu também achava injusto aquela menina ter que fugir da madrasta e do caçador e acabar tendo que limpar a casa de uns anões que viviam em bando para sobreviver. Ela estava sempre sendo perseguida, lançada em armadilhas e privada de liberdade.

Nos anos 2000, eu havia organizado um congresso chamado “As Mulheres e a Filosofia” quando não se falava em feminismo no Brasil, muito menos na filosofia que era o meu campo. Meu trabalho envolveu analisar a misoginia dos textos da tradição ocidental, mas na sequência fui a um congresso sobre Filosofia do Direito na Espanha para apresentar uma leitura biopolítica da Branca de Neve, depois fiz um pós-doutorado em Artes, com a historiadora Cláudia Mattos da Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], pelo qual analisei figuras tais como Ofélia, Diadorim e a Gradiva de Jensen. São personagens muito conhecidas, escolhidas tanto por motivos teóricos quanto por sua recepção no cenário contemporâneo.

Sempre estive interessada no culto histórico da mulher morta, no fascínio explícito que há por ela na literatura e nas artes visuais, desde as tragédias gregas até o cinema contemporâneo, justamente por que não se via o mesmo culto à morte em relação aos homens. Na pesquisa, fui encontrando coisas perturbadoras, como a fórmula de garantia de sucesso estético apresentada por Edgar Allan Poe: “A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.” Busquei entender a repetição desse motivo e suas consequências práticas.

A meu ver, o culto da mulher morta justifica a morte simbólica, mas também física das mulheres.

A idealização é dialética: uma ideia, uma imagem, orienta a produção da realidade, mas, sobretudo, acoberta o terror. Em termos simples, com a fetichização da mulher morta, a matança de mulheres e a crueldade deixam de ser percebidas como um problema. Fica mais fácil naturalizar – e normalizar – depois que algo é idealizado.

A romantização da mulher morta é uma imagem recorrente na literatura, nas artes e na cultura popular. O que essa fascinação revela sobre a relação entre misoginia, desejo e controle dos corpos femininos?

É bem difícil explicar para as pessoas que a imagem da mulher morta é parte de um culto, que o sistema patriarcal é uma espécie de religião sacrificial, tanto no seu patamar simbólico quanto no seu plano concreto. É uma tese que assusta. Também é difícil explicar que há um elo entre a produção simbólica — isto é, a cultura e a linguagem — e as práticas de extermínio de mulheres que sempre existiram e se intensificam de tempos em tempos como reação das castas privilegiadas à sublevação dos corpos subalternizados. Essa complexidade da explicação é necessária e, ao mesmo tempo, apavorante. É um desafio tanto epistemológico quanto moral.

Em um resumo, a gente teria que dizer apenas que todas estamos condenadas à morte e que para escapar dela temos que lutar muito para que os direitos das mulheres sejam reconhecidos como humanos, considerando que historicamente as mulheres foram tratadas como animais. Daí que ser feminista (ou seja, promover consciência sobre a condição feminina) implique ser antiespecista e muito mais.

No entanto, construir todos esses nexos tornou-se mais difícil na era do brain rot, o “cérebro apodrecido”. Por isso, muitas pessoas deixam de perceber os marcadores de opressão sobre os próprios corpos. Há mulheres que defendem seus opressores e algozes, assim como há pessoas pobres que defendem bilionários, em um cenário atravessado pela dificuldade crescente de reflexão crítica.

Vivemos sob véus ideológicos e a própria ignorância não é apenas uma condição, mas uma ideologia, ou até mesmo uma tecnologia política fomentada pelos grupos que têm interesse no poder.

Por fim, o que procurei mostrar no livro é que essa adoração das mortas, esse fetiche, encobre o que os homens realmente desejam das mulheres: sua servidão e sua anulação em nome dessa servidão. Isso requer a ignorância das mulheres.

A romantização da mulher morta reflete uma dinâmica profunda de dominação patriarcal, na qual o corpo feminino atinge seu ideal estético e moral apenas quando desprovido de agência, voz e resistência. Na literatura e nas artes, a figura dessa mulher sem vida é frequentemente erotizada e idealizada, revelando que o desejo masculino, em um viés misógino, vincula-se ao controle absoluto: um corpo inerte não impõe limites, não recusa, não diz não. Ele se torna a tela perfeita para projeções e fantasias masculinas.

A autonomia das mulheres vivas é vista pelos homens como uma ameaça à sua virilidade e poder, analisei Antígona para falar sobre isso. Essa fascinação histórica legitima a opressão ao associar a passividade extrema à beleza e à pureza, mascarando a violência letal de gênero sob o manto do sublime e revelando que, na estrutura patriarcal, o controle definitivo sobre os corpos femininos culmina em seu silenciamento absoluto.

Acesse a entrevista no site de origem.

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