Em um ano, 56% das mulheres trans e travestis sofreram violência

Parada LGBTQIA+ da Lapa

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

25 de junho, 2026 Vermelho Por Natália Padalko

Recorte inédito do DataSenado evidencia discriminação, exclusão social e dificuldades no acesso a serviços e ao mercado de trabalho

Pela primeira vez, a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, trouxe um recorte específico sobre mulheres trans e travestis. O levantamento apontou que 56% das entrevistadas sofreram algum tipo de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa. Mais do que a frequência das agressões, porém, um dado chamou a atenção dos pesquisadores: apenas 4% afirmaram inicialmente ter sido vítimas de violência de gênero.

A discrepância surgiu quando as participantes passaram a responder perguntas sobre situações concretas vividas no cotidiano. A partir desse detalhamento, mais da metade relatou episódios de violência, entre eles agressões verbais motivadas pela identidade de gênero, violência física, violência sexual, constrangimentos em espaços públicos e discriminação institucional. Para os responsáveis pela pesquisa, o resultado sugere um processo de naturalização das agressões, incorporadas à rotina a ponto de deixarem de ser reconhecidas imediatamente como violência.

O recorte inédito foi realizado entre mulheres transexuais e travestis entrevistadas na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, conduzida pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência. Segundo os dados, 40% das participantes relataram agressões verbais associadas diretamente à identidade de gênero, enquanto 27% disseram que foram mal atendidas em serviços de saúde. Outras 17% afirmaram ter sofrido violência física e 12% relataram episódios de violência sexual ao longo do último ano.

Barreiras ao exercício da cidadania

A naturalização apontada pelo estudo aparece em situações que extrapolam os episódios mais visíveis de violência. Entre os relatos reunidos pela pesquisa estão dificuldades para acessar serviços públicos, constrangimentos em unidades de saúde, desrespeito ao nome social e restrições impostas pela sensação permanente de insegurança em espaços coletivos.

A exclusão cotidiana produz efeitos que vão além do momento da agressão. Quando a hostilidade se torna recorrente, a circulação pela cidade passa a ser condicionada pelo medo, enquanto o acesso a direitos básicos é atravessado por barreiras que não atingem a população em geral da mesma forma. O resultado é a redução da autonomia e da participação social dessas mulheres.

Os dados também mostram que a violência está presente dentro do ambiente doméstico. Quase metade das entrevistadas afirmou já ter sofrido violência em casa. Os impactos se refletem nas relações familiares, na vida profissional, nos estudos e na saúde mental. Em muitos casos, a violência psicológica aparece de forma persistente, produzindo efeitos duradouros mesmo quando não há agressão física.

A pesquisa evidencia ainda como a discriminação se conecta à exclusão econômica. Mulheres trans e travestis continuam enfrentando obstáculos para ingressar e permanecer no mercado formal de trabalho. Entre as entrevistadas, mais da metade vive com renda inferior a dois salários mínimos. Os relatos apontam situações em que a qualificação profissional deixa de ser o principal critério de seleção, cedendo lugar ao preconceito relacionado à identidade de gênero.

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