Solitárias: Mulheres negras avançam nas urnas, mas seguem com a menor chance de chegar ao poder

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

24 de julho, 2026 Gênero e Número Por Laila Nery

Mesmo com avanços tímidos, dados revelam a exclusão estrutural e o alto custo de ocupar o poder — da violência política ao adoecimento psíquico.

As mulheres negras são as pessoas com menor chance de transformar uma candidatura em mandato no Congresso Nacional. Embora representem cerca de 28% da população brasileira, apenas 29 conquistaram cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado nas eleições de 2022. A taxa de sucesso eleitoral desse grupo foi de apenas 1,5% – menos da metade da registrada entre mulheres brancas (3,5%) e quase seis vezes menor que a dos homens brancos (8,8%).

O contraste é o principal diagnóstico do capítulo sobre participação política do estudo Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos Direitos das Mulheres Negras no Brasil, realizado pela Gênero e Número, pela Oxfam Brasil e pelo Observatório da Branquitude, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras.

Lançado em 14 de julho, o estudo mostra que houve avanços concretos na representação institucional, impulsionados por anos de mobilização do movimento negro e por mudanças nas regras de financiamento eleitoral. Contudo, eles não foram suficientes para romper as estruturas que mantêm as mulheres negras à margem dos espaços de decisão.

O crescimento existe. O poder, porém, continua distribuído de forma profundamente desigual.

Prova disso é que a presença de mulheres negras no Congresso Nacional em 2022 mais do que dobrou em relação a 2018, passando de 14 para 29 parlamentares e de 17% para 31% entre as mulheres eleitas. Ainda assim, o dado está longe de indicar que o país tenha superado as barreiras históricas enfrentadas por esse grupo, como demonstra sua baixíssima taxa de sucesso eleitoral.

Em 2018, o STF e o TSE determinaram que ao menos 30% dos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) sejam destinados às candidaturas de mulheres. Em 2020, o TSE estendeu o entendimento para garantir a aplicação proporcional desses recursos e do tempo de propaganda eleitoral às candidaturas de pessoas negras.

Já a Emenda Constitucional nº 111/2021 determina que os votos recebidos por candidatas mulheres e candidatos negros para a Câmara dos Deputados sejam contabilizados em dobro no cálculo da distribuição dos fundos partidário e eleitoral para a eleição seguinte.

A efetividade dessas medidas depende do cumprimento das regras pelos partidos. Entre os desafios apontados está a persistência de fraudes, como as chamadas candidaturas laranjas.

“Quando se mexe no dinheiro dos partidos, mais mulheres conseguem disputar eleições. Mas a legislação ainda é muito burlada. Muitas vezes, os recursos não chegam às candidatas ou precisam ser devolvidos internamente”, avalia a especialista em opinião pública Cila Schulman, à frente do Instituto de Pesquisa Ideia.

Em 2024, o TSE aprovou a Súmula nº 73, que estabelece critérios para identificar esse tipo de irregularidade, como votação zerada ou ínfima, ausência de movimentação financeira real e inexistência de atos efetivos de campanha. O reconhecimento da fraude pode levar à cassação de toda a chapa do partido.

Mesmo com os desafios, Schulman se mantém otimista. Ela acredita que as novas regras eleitorais podem ampliar a presença feminina nas eleições de 2026 – especialmente porque partidos com maior acesso ao fundo eleitoral passaram a recrutar mais mulheres no geral, e também mais mulheres negras.

Tainah Pereira, coordenadora política do Mulheres Negras Decidem, concorda que o próximo ciclo eleitoral pode representar um novo avanço para a representação de mulheres negras, especialmente no Senado.

“Nossa expectativa é que, a partir do ano que vem, tenhamos pelo menos três mulheres negras no Senado. Diante de uma Casa com 81 senadores, três ainda parece pouco. Mas significaria triplicar a bancada, uma vitória muito importante.”

O avanço que ainda é exceção

Poucas trajetórias sintetizam o paradoxo vivido pelas mulheres negras tão bem quanto a da deputada federal Carol Dartora (PT-PR). Em 2020, ela se tornou a primeira mulher negra eleita vereadora de Curitiba.

Dois anos depois, entrou para a história novamente ao tornar-se a primeira mulher negra a representar, na Câmara dos Deputados, o Paraná – estado situado na região do Brasil que concentra um grande número de células neonazistas. Sua eleição simboliza um avanço inédito. Mas também evidencia o quanto ele ainda é exceção.

“Quando as pessoas pensam em um deputado federal, normalmente não imaginam alguém com o meu perfil”, disse à Gênero e Número. A percepção acompanha sua rotina em Brasília. Em um Congresso onde mulheres negras ainda ocupam 5% das cadeiras, Dartora relata que seu gabinete se tornou destino de demandas que raramente encontram interlocutores dentro das instituições.

Existe um sufocamento das necessidades reais da população. Muitas vezes, acabo me tornando um canal para temas e grupos sociais que permanecem invisíveis para o Estado.”

A experiência da parlamentar ajuda a explicar o desafio revelado pelos dados. O Brasil ampliou a presença de mulheres negras na política institucional ao longo da última década, mas continua oferecendo a elas as menores chances de eleição e um dos ambientes mais hostis para o exercício do mandato.

Dez anos após a 1ª Marcha das Mulheres Negras levar 50 mil mulheres às ruas de Brasília, em 2015, que reivindicou a participação política dessas mulheres e a justiça racial, a democracia brasileira avançou timidamente na representação, e não conseguiu democratizar o acesso ao poder.

Nas eleições de 2022, apenas duas mulheres foram eleitas governadoras. Dessas, somente uma era negra: Fátima Bezerra (PT), reeleita no Rio Grande do Norte. Enquanto isso, homens permaneceram à frente de 25 dos 27 governos estaduais, evidenciando que os avanços registrados no Legislativo encontram limites ainda mais rígidos no Executivo.

Cila Schulman lamenta que, nas eleições de 2026, não existam mulheres negras competitivas na corrida pelos governos estaduais: “Isso revela muito sobre o funcionamento dos partidos. Eles continuam sendo hierarquias masculinas”.

Segundo ela, esse cenário representa um retrocesso em relação a eleições anteriores, quando nomes como Marina Silva, Simone Tebet e Luiza Helena Trajano figuravam com maior protagonismo nacional.

“A gente não só patina. Em alguns aspectos, há um retrocesso.”

Para a socióloga Marília Nascimento, pesquisadora do Instituto Update e especialista em gênero e participação política, esse cenário não decorre de uma ausência de interesse das mulheres negras pela política, mas do modo como o sistema distribui oportunidades.

“O fato de as mulheres serem maioria na população e minoria nos espaços de poder é reflexo de um modelo de sociedade baseado no racismo patriarcal heteronormativo, que coloca os homens brancos no centro da detenção desse poder”, afirma.

De acordo com ela, a violência política de raça e gênero, somada às desigualdades no acesso a recursos partidários e às estruturas internas das legendas, produz um funil que dificulta a chegada de mulheres negras aos cargos de decisão.

Parte da dificuldade em compreender o comportamento eleitoral das mulheres decorre justamente da tendência de tratar esse grupo como um bloco homogêneo. Tainah Pereira, do Mulheres Negras Decidem, percebeu em seus estudos que, a cada eleição, um segmento específico passa a ocupar o centro das análises, enquanto as múltiplas identidades que atravessam o eleitorado permanecem invisibilizadas.

“Por um tempo, o grande tema das eleições foi o voto dos jovens. Depois veio o voto dos evangélicos e agora o voto das mulheres. Como se jovens mulheres evangélicas não existissem. Quando falamos de mulheres negras, precisamos olhar para essas interseccionalidades”, afirma Pereira.

As décadas de experiência de Shulman sobre dados de reputação política apontam para a culpabilização inevitável dos partidos: para ela, uma das mudanças mais importantes seria alterar a própria estrutura interna das legendas.

Ela cita como exemplo a proposta defendida por Simone Tebet de instituir paridade nas executivas nacionais: “É ali que muitas decisões são tomadas. Enquanto essas estruturas continuarem predominantemente masculinas, o avanço das mulheres continuará encontrando limites.”

Pereira reafirma que o principal gargalo continua sendo a estrutura partidária: “Falta iniciativa dos partidos para oferecer às mulheres negras condições reais de disputar eleições. Elas já são maioria entre as filiadas em muitas legendas, mas isso não significa que recebam recursos, visibilidade ou espaço para construir suas lideranças”.

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