O silêncio sobre a violência sexual me custou anos de vida (relato pessoal | Divã — Revista AzMina)

24 de agosto, 2026 AzMina

Após o abuso sexual na infância e o estupro aos 19 anos, leitora enfrentou o controle de quem pretendia protegê-la, mas tirava sua autonomia

Aviso de gatilho: Este relato contém informações que podem acionar gatilhos por traumas relacionados à violência sexual e psicológica.

Eu tinha entre 10 e 12 anos. Essa é uma memória que o tempo não apaga, embora eu queira esquecer. Todos os dias, minha rotina incluía uma tarefa obrigatória: levar uma marmita e um litro de leite para um dos meus padrinhos de batismo. Ele era médico e morava sozinho. Minha mãe pagava as consultas médicas da nossa família com serviços eventuais e alimentos.

Naquele tempo, eram muito comuns surtos de doenças infecciosas como sarampo, catapora, coqueluche e rubéola. Eu tive todas elas. Eu também era vista como uma criança muito magra e sofria com enurese e infecções urinárias recorrentes. Por esses motivos, minha mãe me levava com frequência para consultas.

Minha criação luterana me ensinou a ver a figura do padrinho como algo sagrado, quase uma extensão paterna. No entanto, o comportamento dele era distorcido. Muitas vezes, ao chegar, eu o encontrava fingindo consertar o carro, deitado debaixo do veículo com os órgãos genitais para fora do calção. Era uma cena chocante. No início, forcei-me a acreditar que era um acidente. Mas, na verdade, era exibicionismo deliberado.

Sob pretexto de me examinar, ele cometia abuso sexual

O terror escalou rapidamente. Usando balas de menta como isca, ele me atraía para o interior da casa. Lá, me prendia entre suas pernas sob o pretexto de “examinar se eu tinha vermes”. Suas mãos tocavam minhas partes íntimas. Eu sentia um horror paralisante e uma urgência desesperada de fugir, mas ele era muito mais forte que eu. Em outras ocasiões, ele me beijava à força. Até hoje sinto o nojo do cheiro de cigarro e do bigode roçando em mim. Eu me desvencilhava e corria o mais rápido que podia.

Quando o sofrimento se tornou insuportável, decidi contar para minha mãe. O pavor tomou conta dela, mas a reação seguinte foi o silêncio. Ela implorou para que eu não contasse aos meus irmãos. Sabia que eles tentariam me defender, mas que a justiça não alcançaria um homem poderoso. “A corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco”, disse ela. Eu não tinha sequer um pai para me proteger, e lembro de responder, chorando, que eu não tinha culpa do meu pai ter morrido.

Foi então que descobri que o ciclo de abuso tinha acontecido antes com a minha irmã mais velha. Na época, a esposa do médico não acreditou, as filhas dele se voltaram contra a minha irmã e ameaçaram processar minha mãe por difamação. Diante da nossa total vulnerabilidade, minha mãe me ensinou frases de defesa: “O que o senhor está pensando que eu sou?” e “O senhor gostaria que fizessem isso com as suas filhas?”.

Como encontrei uma forma de escapar

Passei a repetir essas palavras como um escudo, mas elas viraram combustível para a crueldade dele. Ele debochava da minha tentativa de resistência. Me humilhava, chamando de “pobretona”, “feia” e “pernas finas”. Com total naturalidade, afirmava que suas próprias filhas já faziam aquilo e ele não se importava.

Como eu não tinha a opção de parar as entregas, criei minha própria estratégia de sobrevivência. Passei a ficar à espreita no portão, escondida entre as árvores. Esperava pacientemente até que a campainha do consultório tocasse e ele fosse atender um paciente. Assim que a cozinha ficava vazia, eu entrava correndo, largava a marmita e o leite, e fugia. Foi assim que consegui me livrar daquele pedófilo.

Muitos anos se passaram. No dia do seu sepultamento, fui ao velório. Olhei fixamente para aquele homem deitado no caixão. Não senti tristeza e não derramei uma única lágrima. Senti, confesso, o prazer silencioso de quem finalmente se viu livre do seu pior carrasco.

Uma noite tranquila virou o trauma do estupro

O tempo passou e a minha vida seguiu repleta de momentos bons. No entanto, aos 19 anos, fui estuprada por um desconhecido. Daquela noite, restaram apenas flashes dolorosos, como o sangue na minha roupa e a frieza do exame pericial que indicou penetração anal (eu não lembro). O trauma psicológico, contudo, ecoou em mim por muitos anos.

Em uma noite qualquer, eu caminhava pela cidade com meu ficante da época. Tínhamos bebido algumas cervejas quando ele decidiu pedir maconha a um homem encostado na parede de um bar. O homem afirmou que um amigo dentro do bar conseguiria. Eles voltaram com o baseado e nos chamaram para acompanhá-los rua abaixo. Ingenuamente, passamos à frente e seguimos na direção indicada, que, segundo eles, estaria livre de policiais.

O cenário mudou em segundos. Alguém me rendeu por trás, pressionando uma faca gelada contra mim. Fui arrastada para baixo da escadaria entre dois prédios e violada ao lado de um morador de rua que dormia. Do lado de fora, o comparsa vigiava meu ficante. Fragilizado física e psicologicamente pela dependência de álcool e drogas, ele não conseguiu reagir.

Mais tarde, soube que eles já se conheciam dos campos de futebol locais.  Quando o pior passou e eles foram embora, decidimos registrar a ocorrência. O medo e a vergonha nos calaram sobre a busca pela maconha, então dissemos apenas ter sido abordados na rua. Guardo até hoje os olhares de desdém dos policiais e seus questionamentos culpabilizantes: “Então, hein, magrinha? O que andavas fazendo a essas horas na rua?”. Como quase sempre fazem com a vítima, eu fui julgada.

A prisão deles ocorreu dias mais tarde, por um motivo diferente. Fomos submetidos a uma acareação. Ficar frente a frente com os meus agressores foi uma das coisas mais difíceis que já passei. O cúmplice, “filhinho de papai”, saiu ileso. Já o executor do estupro, um homem negro, foi jogado em uma cela, tendo seu rosto desfigurado pela tortura policial.

Acesse o relato publicado na coluna Divã da Revista AzMina.

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