E se todas as mulheres denunciarem a violência doméstica?, por Beatriz Accioly Lins

27 de agosto, 2026 Folha de S. Paulo Por Beatriz Accioly Lins

  • Pesquisa aponta que quase 29 milhões de brasileiras relataram situações de abuso no último ano

  • Dados expõem despreparo das instituições que integram rede de proteção às vítimas

Recentemente, ouvi um especialista em gestão de desastres falar do trabalho nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Para explicar a organização das respostas diante do caos, ofereceu uma régua: a relação entre a demanda de uma tragédia e a capacidade estatal de resposta.

Numa crise, o Estado ainda dá conta do recado, pois há mais recursos do que necessidades; numa emergência, capacidade e demanda se aproximam; num desastre, a demanda ultrapassa a capacidade de resposta; e numa catástrofe, a tragédia engole as estruturas de socorro.

A imagem permaneceu comigo, não porque uma enchente e um feminicídio sejam equivalentes, mas porque ainda tratamos cada vítima como uma tempestade inesperada diante de um fenômeno persistente e previsível. Realizada com mais de 21mil brasileiras de 16 anos ou mais em todo o país, a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado, escancara esse abismo.

Quando perguntadas diretamente se sofreram violência doméstica no último ano, 4% disseram que sim. Quando se consideram também as respostas a 13 situações concretas, como humilhações, controle do dinheiro, agressão e sexo forçado, e se reúnem os dois grupos sem dupla contagem, chegamos a 33%, uma em cada três brasileiras.

Estamos falando de quase 29 milhões de brasileiras em situação de violência doméstica ao longo de um ano. Para quase 25 milhões delas, a violência se revela na descrição do que viveram, mas não no nome que dão à própria experiência.

O levantamento alcança não apenas o que se tornou registro em uma delegacia ou qualquer outro serviço público, mas experiências fora do campo de visão das instituições, dimensionando necessidades de proteção, cuidado, informação e acesso a direitos.

Aí pergunto: e se todas resolvessem pedir ajuda? Seriam mais de 79 mil primeiros atendimentos por dia. E sabemos que um caso de violência raramente se resolve em uma única visita.

O cálculo não é uma previsão de demanda, mas um teste para o planejamento da capacidade de resposta. Há décadas, a sociedade brasileira lança mão do imperativo do “Denuncie!”, mas quase ninguém discute o que aconteceria se a campanha desse 100% certo.

Ampliar a capacidade das mulheres de reconhecer a violência e buscar ajuda é indispensável, mas seu êxito produz uma obrigação correspondente para o Estado, que não pode convocá-las a atravessar suas portas e tratá-las como um imprevisto burocrático.

A vida real tampouco cabe só na delegacia. Uma trajetória de proteção pode exigir avaliação de risco, cuidados de saúde, assistência social, acesso à Justiça, proteção policial, apoio para moradia e renda, além de acompanhamento continuado.

A polícia é indispensável diante da necessidade de proteção imediata, mas não responde sozinha a experiências que reorganizam a vida das mulheres. Acolher essa diversidade exige diferentes portas de entrada articuladas em um percurso contínuo de proteção.

Sem interoperabilidade em escala nacional entre segurança, saúde, assistência social e Justiça, cada instituição enxerga apenas o fragmento que lhe cabe, enquanto a mulher continua obrigada a carregar a totalidade do caso.

Contar delegacias, inaugurar salas lilás e anunciar investimentos não nos diz o que acontece depois que uma mulher atravessa uma dessas portas: se os serviços estarão articulados, se haverá protocolos comuns e quem responderá pela continuidade do atendimento.

O valor dos dados estaduais não está em ordenar o país entre melhores e piores, mas em oferecer a cada gestor uma medida mais realista da violência em seu território. Planejar apenas para a demanda já visível produz uma espécie de tranquilidade estatística: as experiências que não chegam aos serviços tampouco entram no cálculo da política pública.

Os dados não dizem que milhões chegarão amanhã, mas mostram que não nos organizamos para a violência existente. Ainda administramos uma crise ou a demanda já excedeu, silenciosamente, a capacidade das instituições, colocando-nos diante de um desastre?

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