Um adolescente em 5 no Brasil sofre abuso sexual na internet

04 de setembro, 2026 Deutsche Welle Por Redação

Pesquisa do Unicef mostra que a maioria dos crimes ocorre nas redes sociais e jogos online, cujas estruturas permitem explorar confiança das vítimas. Dados do país são semelhantes ao da média global.

Um em cinco adolescentes entre 12 e 17 anos no Brasil já foi vítima de abuso ou exploração sexual facilitado pela tecnologia, segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicado nesta quinta-feira (03/09). A cada três casos, dois acontecem nas redes sociais, sobretudo nas plataformas Instagram, WhatsApp e Facebook, todas controladas pela Meta, seguidas por Snapchat, TikTok, X e YouTube.

A pesquisa da agência da Organização das Nações Unidas (ONU) entrevistou, entre 2020 e 2025, 21 mil adolescentes desta faixa etária em 21 países do Sudeste da Europa e de diferentes regiões da Ásia, da África e da América Latina.

A média global de menores que reportaram ter sido vítimas de pelo menos uma forma de exploração ou abuso sexual relacionado ao uso da tecnologia nos doze meses anteriores é a mesma da brasileira (18%). É o equivalente a dizer que estimados 20 milhões de adolescentes são vitimizados anualmente no planeta.

As formas de abuso e exploração sexual mais reportadas, no caso brasileiro, foram a exposição indesejada a conteúdo sexual na internet (13,7% dos entrevistados); pedidos para falar sobre atos sexuais ou enviar imagens do próprio corpo (10,5%) e ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou encontros sexuais (5,3%).

Os jogos online foram apontados como o segundo ambiente virtual onde mais acontecem este tipo de violências, tanto no caso brasileiro (12%) quanto na média global (14%). Os canais próprios para mensagens diretas são frequentemente citados como o instrumento usado para cometer abusos.

São ainda contabilizados pelo levantamento do Unicef os abusos cometidos pessoalmente, como na escola ou espaços públicos, depois de vítima e perpetrador terem interagido na internet. Este foi o caso de 18% dos adolescentes brasileiros entrevistados.

Confiança explorada

Os responsáveis pelos abusos frequentemente exercem pressão sobre as vítimas. Segundo o Unicef, as características, funções e design das plataformas criam as condições para explorar a confiança dos menores de idade. “Muitas vezes, tudo começa sem qualquer aviso”, escrevem os autores da pesquisa. “Uma conversa se transforma em coerção, e a coerção se transforma em uma armadilha.”

A falta de conhecimento sobre quais autoridades procurar e o sentimento de vergonha são os dois fatores que mais dificultam, tanto no Brasil quanto na média global, que os afetados procurem ajuda. Ao todo, 41% dos entrevistados ao redor do mundo não contaram a ninguém sobre a experiência de violência sexual. Menos de 1% dos casos foram reportados às autoridades.

A maioria (55%) dos casos reportados no Brasil ao Unicef foi perpetrada por pessoas já conhecidas das vítimas, contra 20% de desconhecidos (também estes percentuais se alinham à média global). Houve mais registros de abusos cometidos por menores de idade (35%) do que por adultos (27%).

Em 25% dos casos, os entrevistados não souberam informar quem estava por trás de perfis usados para cometer as violências online. “Você começa a conversar no Facebook com seus amigos e, de repente, chega uma solicitação de mensagem com uma foto de uma parte íntima de sabe-se lá quem, convidando você a fazer coisas obscenas. E isso não aconteceu só uma vez, mas várias vezes”, relatou uma adolescente da Colômbia ao Unicef sobre experiências que viveu entre os 15 e 16 anos.

Impacto psicológico

Crianças vítimas dessas formas de abuso apresentam quatro vezes mais probabilidade de ter pensamentos e comportamentos suicidas, quatro vezes mais probabilidade de praticar automutilação e relataram níveis de ansiedade cerca de 11 pontos percentuais mais elevados do que seus colegas, segundo o Unicef.

A diretora executiva da agência, Catherine Russell, fala numa “realidade dolorosa”. “Essas experiências causam profundo sofrimento emocional e psicológico,” afirma. Os impactos podem se prolongar no tempo, afetando a escolaridade, os relacionamentos e a vida cotidiana.

Em agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord, plataforma criada para facilitar a comunicação entre gamers, suspendesse as funcionalidades de transmissão ao vivo e compartilhamento de vídeos no Brasil, o segundo maior mercado da plataforma no mundo.

A medida seguiu o caso de uma adolescente que tirou a própria vida durante uma live na plataforma. A polícia ligou o episódio a uma suposta organização criminosa acusada de atrair crianças e adolescentes para comunidades virtuais, onde seriam submetidos a diversos tipos de abusos.

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