Da ocorrência à piada: policiais transformam violência doméstica em conteúdo nas redes

Foto: Freepik

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16 de outubro, 2026 Ponte Jornalismo Por Mariana Rosetti

Em vídeos analisados pela Ponte, agentes usam fardas, viaturas e relatos de atendimentos para ridicularizar mulheres que procuram ajuda ou retomam relações com agressores

Resumo

  • Agentes de segurança utilizam fardas e viaturas para gravar vídeos nas redes sociais que ridicularizam e ironizam mulheres vítimas de violência doméstica.
  • Especialistas alertam que essas sátiras banalizam o ciclo da violência, comprometem a confiança nas corporações de segurança e podem desencorajar as vítimas a buscar ajuda institucional para romper esse ciclo.
  • Publicações contrariam diretrizes de atendimento humanizado e violam normas corporativas sobre o uso de uniformes na internet, configurando desvio de função em busca de audiência.

Se você, mulher, for vítima de violência doméstica e discar o 190, a Polícia Militar será, em geral, uma das primeiras forças de segurança acionadas para atender a ocorrência. A depender da cidade em que você mora, a Guarda Civil Municipal também pode participar desse atendimento.

Essas corporações participam do contato inicial entre o Estado e mulheres em situação de violência doméstica. É justamente a forma como algumas dessas mulheres aparecem retratadas por integrantes dessas forças, porém, que chama atenção nas redes sociais.

Para esta reportagem, a Ponte reuniu e catalogou 19 vídeos publicados por 13 pessoas que se apresentam nas redes como integrantes de forças de segurança: uma guarda municipal e 12 policiais militares de diferentes estados.

Nos conteúdos, mulheres envolvidas em ocorrências de violência doméstica aparecem repetidamente transformadas em personagens de piada. São retratadas como agressoras ou ridicularizadas por acionarem a polícia e depois decidirem não ir à delegacia. Em outros vídeos, a retomada do relacionamento com o homem denunciado vira motivo de deboche. Há ainda publicações que transformam a violência doméstica em recurso para humor político e outras que insinuam interesse sexual de policiais pelas mulheres atendidas.

Embora assumam formatos diferentes, os vídeos repetem uma mesma fórmula: mobilizam elementos da rotina profissional — como fardas, viaturas e referências à Lei Maria da Penha — para fazer humor e reforçar estigmas sobre mulheres que procuram o Estado em busca de proteção.

Quando pedir ajuda vira piada

Em 20 de maio, um homem que se identifica como policial militar e criador de conteúdo em sua biografia no Instagram publicou um vídeo simulando atender a uma ocorrência de violência doméstica. Ele e outro colega garantem a uma atriz, que interpreta uma vítima de violência, que vão pegar o agressor. Ela responde: “Não bate nele, não. Só dá um susto nele”.

Na cena seguinte, os dois aparecem escondidos sob um lençol branco, atrás de uma porta. Quando o personagem que representa o agressor entra no cômodo, os policiais da encenação seguem à risca o pedido e o assustam. O conteúdo, com mais de 9 mil curtidas, teve seu áudio extraído e usado em outras publicações no TikTok.

Em uma delas, um policial vestindo uniforme da PM paulista está dentro de um carro, sob os dizeres: “Quando vc [sic] desloca com a vítima de Maria da Penha as [sic] 5h45 para o DP e a vítima diz: ‘Eu só queria dar um susto nele’”.

Outras publicações dispensam o áudio, mas seguem a mesma ideia com encenações elaboradas. É o caso de uma policial que joga um lençol branco sobre o próprio corpo, simulando um fantasma, e de uma GCM, que, postagens depois, se identifica como integrante da Patrulha Maria da Penha.

Outra sequência de vídeos zomba de mulheres que acionam a polícia, seguem com a denúncia, mas depois são vistas com o suposto agressor.

Embora diferentes entre si, os conteúdos convergem ao transformar em motivo de deboche situações conhecidas por profissionais que estudam a violência doméstica: procurar ajuda e depois hesitar, não querer registrar uma ocorrência, retomar o relacionamento ou não conseguir romper imediatamente com o agressor.

O caminho até romper o ciclo

Entre quatro e sete. Essa é a quantidade de vezes que uma mulher vítima de violência doméstica costuma pedir ajuda antes de conseguir sair do ciclo de violência, explica Ludmila Ribeiro, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões (Rede FEMJUSP).

“Primeiro tem o que os autores chamam de estresse, ou seja, os primeiros desentendimentos, marcados por uma violência psicológica que não é percebida como violência pela mulher”, explica. Depois, o estresse vai aumentando até culminar na agressão física, momento em que a vítima busca sua rede de apoio.

A partir do contato com pessoas de confiança, a mulher decide se busca ajuda institucional. Nem sempre, porém, a primeira ação é registrar um boletim de ocorrência ou pedir uma medida protetiva de urgência (MPU). Às vezes, a escolha é tornar público o que está vivendo, explica Ludmila.

Ao contar para os outros o que antes era restrito ao ambiente doméstico, o intuito da vítima é fazer a violência cessar, seja constrangendo o autor, na tentativa de fazê-lo tomar consciência de seus atos, seja por meio das instituições, impondo a ele o medo de ser preso.

Por isso, Ludmila ressalta que chamar a polícia, mesmo quando o atendimento não resulta em prisão ou no prosseguimento da denúncia, é uma ação legítima. Pode representar, segundo ela, uma mulher reconhecendo que o que vive é uma violência e procurando mecanismos de proteção.

É justamente nesse ponto que a pesquisadora identifica o risco dos vídeos. “Quando a vítima se vê naquela situação e percebe que tem pessoas rindo, pode pensar: ‘Cara, não vou chamar esses caras [policiais]. Olha só, eles estão rindo de mim, eles estão debochando do meu problema. Eles acham que esse problema não é sério, eles acham que o meu pedido não é legítimo’”, afirma.

O receio de ser ridicularizada pode dificultar a busca por ajuda e o acesso à rede de proteção em situações de violência doméstica.

A denúncia e a retomada do relacionamento viram motivo de deboche

Em outra publicação, um policial da PM paulista encena escutar um diálogo entre um homem e uma mulher. “Eu não sei, acho que eu te amo. Eu já sabia que eu gostava de você, mas exatamente agora percebi que eu te amo”, diz a voz feminina, ao som da música romântica Photograph, de Ed Sheeran.

A frase “O polícia [sic] que acabou de fazer o boletim de ocorrência da Lei Maria da Penha” estampa a publicação. A combinação entre a legenda e o áudio associa o registro da ocorrência a uma declaração de amor ao agressor.

Em outra encenação, agentes escolhem o áudio de uma mulher que quebra utensílios domésticos, enquanto briga com um homem. “Eu esperando a vítima de Maria da Penha se acalmar para poder resgatar ela”, escreve. O vídeo tem mais de 820 mil visualizações.

Uma usuária da rede comenta: “Esse tipo de vídeo é tão tendencioso, da [sic] a entender que não existe mulher que é vítima de violência”. O policial responde: “Seu comentário que é tendencioso. O vídeo é apenas uma sátira, mas no mundo real existem mulheres vítimas, assim como homens vítimas. E eu posso falar isso com mais propriedade que você, trabalho com isso”.

Na resposta, o policial classifica como sátira e cita sua atuação profissional para defender o conteúdo. A usuária volta a questioná-lo. “E mesmo trabalhando com isso de todas as sátiras que você tinha pra fazer você escolheu fazer piada com a lei maria da penha, olha que irônico, né?“, escreve.

A piada também constrói uma narrativa

Segundo Viktor Chagas, professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Freud descreveu, no início do século XX, três sujeitos envolvidos em uma piada: quem a conta, quem é seu alvo e a audiência que a recebe. Para o pesquisador, é a audiência que legitima o humor. “Se esse sujeito ri junto, significa que essa piada é engraçada”, explica.

Chagas não nega que os conteúdos analisados pela reportagem sejam humorísticos. Mas isso não significa que sejam inofensivos ou que deixem de construir representações prejudiciais às mulheres.

O pesquisador explica que materiais audiovisuais costumam operar por meio de uma linguagem multimodal, na qual diferentes elementos se combinam para produzir uma mensagem. Desse modo, as frases escritas nos vídeos, as encenações e áudios escolhidos formam “um único conteúdo, um único discurso”, aponta.

Segundo Chagas, a repetição dessas fórmulas entre diferentes perfis, com a reutilização de áudios, cenas e sketches, amplia esse efeito narrativo. Ela ajuda a construir a percepção de que as situações retratadas fazem parte do cotidiano dos policiais e de que os comportamentos satirizados são recorrentes entre mulheres denunciam violência doméstica.

Essa trivialização, acrescenta Chagas, é também um mecanismo do humor: “É justamente porque isso opera no âmbito do reforço e da banalização, que gera um efeito também coletivo. É quase como se nós experimentássemos a sensação de: ‘Olha, sempre é assim, todas as vezes isso acontece’”, explica.

Ao aplicar a análise de Freud, Chagas acrescenta uma quarta entidade: a própria corporação policial. “Nós estamos falando de uma instituição altamente hierarquizada. O que significa pressupor que não há nada que os seus subordinados façam que não passe pela chefia imediata ou que eles não devam prestar contas. No entanto, nós não vemos essa prestação de contas acontecendo”.

As plataformas digitais poderiam ocupar uma posição semelhante nessa equação, acrescenta, já que interferem na circulação e moderação das publicações. Mas são silentes.

Nos vídeos analisados, as referências às corporações vão além das biografias dos perfis. Aparecem nas fardas, nas viaturas e nas menções à experiência profissional utilizadas para construir as piadas. Em algumas publicações, esses elementos também se combinam com manifestações políticas dos agentes.

Quando a farda se mistura com a opinião pessoal do agente

Em 2 de agosto de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou a convenção que oficializou sua candidatura à reeleição para tecer críticas à violência doméstica no Brasil. Em 2025, o país registrou 1.571 feminicídios, o maior número da série histórica, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Em uma de suas falas, Lula disse que não tinha medo de perder votos de agressores de mulheres e afirmou: “O cara vai ter que escolher, ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se ele bater na mulher, não precisa votar em mim”, conforme divulgou a CNN.

Um policial fardado gravou a si mesmo dentro de um veículo, com a fala do presidente ao fundo. O vídeo tinha os dizeres: “Eu vendo o 190 congestionando de Maria da Penha”, acompanhados de emojis de riso, telefone e viatura. Outro PM fardado utiliza o mesmo trecho, sugerindo que homens passariam a cometer violência doméstica como reação à declaração política.

Chagas aponta que há um elemento “desconcertante” nos vídeos, que pode representar um desvio no exercício da função pública: “Se o sujeito está fardado, se pressupõe que ele está em serviço. Se ele está em serviço, não seria o momento de ele produzir um sketch humorístico”, comenta.

Um levantamento do Instituto Sou da Paz sobre o uso de redes sociais por policiais analisou normas de 56 corporações, incluindo a Polícia Federal (PF), a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e as polícias militares e civis dos 26 estados e do Distrito Federal. Dessas, 38, o equivalente a 68%, possuíam algum tipo de regulamentação para o comportamento dos agentes em perfis pessoais.

Segundo o levantamento, as normas restringem o uso de brasões, símbolos, uniformes e outros elementos capazes de identificar a instituição, além da exposição de instalações, viaturas e equipamentos policiais. Também estabelecem regras para a divulgação de informações sigilosas ou sensíveis, a publicação de imagens envolvendo vítimas e testemunhas e a disseminação de fake news.

Para Cristina Neme, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz, as publicações analisadas pela Ponte entram em conflito com essas normas. Em 17 das 19 postagens reunidas pela reportagem, os agentes aparecem fardados. Em pelo menos 13, há veículos semelhantes a viaturas; em alguns deles, é possível ver inclusive o giroflex ligado.

A falta de fiscalização e regulação acaba por permitir que esses conteúdos interfiram na forma como a sociedade compreende o papel da polícia. Inclusive, entrando em conflito com perfis oficiais que divulgam informações úteis ou ações de policiamento destinadas a aproximar polícia e comunidade.

O relatório chama atenção ainda para a possibilidade de transformar visibilidade e conteúdos virais em ganhos pessoais. Nesse cenário, a busca por audiência pode passar a disputar espaço com obrigações funcionais e regras institucionais.

No caso dos vídeos sobre violência doméstica, os conteúdos retratam mulheres que procuram essas instituições em busca de proteção.

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