As taxas de êxito eleitoral entre mulheres vs. as agendas das eleitas: há motivos para comemorar?, por Alana Fagundes Valério

Cabina de votação com a nova urna modelo UE2020

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

20 de outubro, 2026 Gênero e Número Por Alana Fagundes Valério

As eleições brasileiras de 2026 para o Legislativo estadual e federal foram um retrato dos efeitos que o avanço dos discursos antifeministas e manifestamente coloniais já apresentavam em nosso cotidiano Em 2026, 7.023 mulheres se propuseram a participar da corrida eleitoral para cargos legislativos em todo o país. Dentre elas, 3.602 eram negras, o que supera a marca de 50% do total de candidaturas femininas.

Esse dado computa todo o território nacional e demonstra, em parte, que o engajamento político de perspectiva feminista e antirracista ultrapassou os discursos acadêmicos e encontrou terreno fértil para que floresçam novas lideranças.

O êxito da candidata Ana Elisa (PT/MG), a mais nova parlamentar mulher, negra e periférica eleita para o cargo de deputada federal, aos 21 anos, é uma constatação do poder de articulação que corpos femininos e racializados podem traçar. Ana Elisa representa um corpo atravessado por marcadores sociais de grande correspondência com a população brasileira: mulher negra, jovem, filha de mãe solo, estudante de universidade pública, trabalhadora e periférica. Seu sucesso eleitoral nos enche de esperança de que a política brasileira possa ter rostos e projetos que se alinhem a uma perspectiva emancipadora.

Entretanto, o caso de Ana Elisa ainda é exceção. Em 2026, as candidatas negras aos cargos de deputada tiveram uma taxa de sucesso de meros 3%, segundo cruzamento feito pela Gênero e Número com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Um elemento chama à atenção: das 108 mulheres negras eleitas em 2026, 45 são de partidos de centro-direita e extrema direita.

Ou seja, 42% das candidaturas negras que tiveram sucesso eleitoral se alinham com agendas que, em alguma medida, são contra suas próprias existências, inclusive enquanto pessoas com atuação política. Isso porque seus partidos se posicionam explicitamente contra pautas que versam sobre direitos sociais, como o fim da escala 6×1, além de se oporem ao PL da Misoginia e às cotas de candidatura e reserva do fundo eleitoral para candidaturas femininas e negras.

As candidatas que se autodeclaram brancas totalizaram 214 das eleitas em todas as Câmaras e Assembleias do país. A taxa de êxito entre elas alcançou mais que o dobro (7%) do êxito obtido por mulheres negras.

Entre as brancas, 66% das eleitas estão filiadas a partidos de centro-direita à extrema direita. Candidatas como Julia Zanatta (PL/SC), Ana Campagnolo (PL/SC) e Eduarda Campopiano (PL/SC) foram as mais votadas nos respectivos cargos que pleitearam em 2026. São mulheres que manifestam-se abertamente como antifeministas e conservadoras, mesmo que seus direitos políticos tenham sido conquistados justamente pela luta feminista no século XX.

O PL elegeu 65 deputadas, das quais 58 delas são brancas, com taxa de apenas 3% de êxito entre as candidatas negras. O PT, maior bancada feminina eleita, com 70 deputadas, elegeu mais candidatas negras (35) do que brancas (33).

No espectro progressista, PT e PSOL, juntos, respondem por quase metade das deputadas negras eleitas no país.

Como relatado por muitas pesquisas acadêmicas sobre gênero e política, os partidos políticos são, em grande medida, os responsáveis pelos gargalos entre candidatura e êxito eleitoral. Muitas candidatas relatam abandono por parte dos partidos durante a corrida e isso as desestimula consideravelmente a voltarem ao pleito posteriormente. Os dados obtidos reforçam a ideia de que candidaturas femininas e racializadas tendem a obter mais êxito em partidos de centro-esquerda e esquerda do que em outros espectros ideológicos.

O Senado: tempos difíceis para as candidaturas negras e feministas

De todos os cenários analisados nas eleições de 2026, o do Senado é, de longe, o mais difícil para mulheres feministas e racializadas. Nos últimos anos, tenho dedicado meus estudos a acompanhar a representação política feminina na Câmara Alta. Entre 1991 e 2022, 38 mulheres foram eleitas, mas apenas 16% eram negras. Esses dados podem ser conferidos aqui. Minhas pesquisas apontam que o perfil das parlamentares eleitas ao Senado, desde 1991, é hegemonicamente branco, vinculadas a movimentos sociais e de classe alta.

Em 2026, esse cenário não mudou.

Das 12 candidatas eleitas ao cargo de senadora, dez são mulheres brancas e apenas duas são negras, o que ainda representa apenas 16% das eleitas no pleito. Ambas se autodeclararam pardas.

O que significa que não haverá senadora preta empossada em 1º de fevereiro de 2027. Um retrocesso que caracteriza o Senado brasileiro. De todas as eleitas, oito são de partidos de centro-direita à extrema direita, e quatro de partidos de centro-esquerda à esquerda.

A taxa de êxito das mulheres negras foi de 8%, um terço em relação às brancas (23%). A título de curiosidade, a taxa de sucesso das eleitas negras representa menos da metade da taxa de sucesso dos homens negros (16%) no mesmo cargo, o que evidencia uma desvantagem que entrelaça gênero e raça.

Candidatas que historicamente inauguraram a presença negra no Senado Federal, como Benedita da Silva (PT/RJ) e Marina Silva (REDE/SP), ficaram de fora nas vagas que disputaram em dois dos maiores colégios eleitorais do país. Perderam para homens filiados a partidos de direita e extrema direita. Isso é mais um sinal da dificuldade que corpos femininos e racializados, de viés progressista, encontram para se inserirem na elite política legislativa nacional.

Um fato que também nos chama a atenção é que, pela primeira vez na história do Senado, uma unidade federativa, o Distrito Federal, será representado integralmente por mulheres. Damares Alves (Republicanos/DF), Bia Kicis (PL/DF) e a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL/DF) comporão a bancada feminina do Senado Federal.

A contradição que isso pode representar para a agenda feminista é que, mesmo que seus discursos sejam manifestamente conservadores e antigênero, elas poderão ser as pontes possíveis de diálogo entre a extrema direita e os mandatos progressistas.

Essa possibilidade está na atuação da bancada feminina no Senado. Quando as parlamentares atuam pela bancada feminina, os projetos de lei tendem a ser melhor recebidos pelos pares do que quando atuam em nome próprio. Desde que foi criada, em 2021, a bancada tem sido o espaço de articulação entre as senadoras de todos os espectros políticos. Isso tornou mais efetiva a aprovação de projetos de lei que tratam de agendas femininas, uma vez que não há apenas uma legenda partidária encabeçando o projeto.

Desde das eleições de 2012, é possível notar um avanço gradual de mandatos de espectro de direita entre as Senadoras eleitas.

Em 2026, as candidatas eleitas para o Senado são majoritariamente de partidos de direita à extrema direita, representando 67% do total. Isso representa um desafio imenso para possíveis articulações que evitem a retração de direitos já conquistados historicamente.

O Senado já tem demonstrado a sua força para ditar os rumos institucionais, como o caso da rejeição da última indicação ao Supremo Tribunal Federal. O funcionamento do sistema de freios e contrapesos, que equilibra o jogo democrático e está previsto no artigo 2º da Constituição Federal, depende, necessariamente, da atuação sensata dos senadores e senadoras. Estejamos prontas para um período em que as forças estarão jogando contra a expansão dos direitos das mulheres, como os ventos do Norte Global já têm nos apontado.

As candidaturas para eleições de 2026

Esses resultados são fruto de uma corrida eleitoral em que, segundo o TSE, as mulheres representaram pouco mais de um terço das candidaturas à Câmara dos Deputados (37%), à Câmara Legislativa do Distrito Federal (35%) e às Assembleias Legislativas estaduais (35%).

Nos três casos, é possível constatar que as candidaturas estiveram levemente acima do mínimo de 30% previsto pela Lei 9.504/97. Quando se intersecciona gênero e raça, o perfil muda consideravelmente entre as disputas. Nas candidaturas a deputada federal e distrital há uma presença majoritária de mulheres negras (49%). Já a deputada estadual, 53% se autodeclaram mulheres negras. Mas quando se olha para o sucesso dessas candidaturas, infelizmente, o número é muito diferente.

Nas candidaturas para o Senado, a participação feminina cai drasticamente para 22% das candidaturas. Vale lembrar que, nessa corrida, a Lei de Cotas não se aplica por se tratar de candidatura majoritária, sem incidência de quociente eleitoral. Ainda assim, a proporção fica bem abaixo do que se espera para uma população que equivale a 52% dos brasileiros. Entre as candidatas 63% se autodeclararam brancas. Apenas 37% das candidaturas femininas são de mulheres negras.

Outro padrão que se mantém intacto entre as candidaturas ao Senado há quase dois séculos é a ausência de candidaturas indígenas e amarelas.

Até o momento, nenhuma mulher indígena exerceu o cargo de Senadora em 200 anos de existência da Casa. Assim como nenhuma mulher foi eleita presidente do Senado Federal no mesmo período. São dois séculos sem presença feminina nesse cargo de liderança e, pelo resultado conferido nas últimas eleições, esse cenário está longe de mudar.

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