A disputa presidencial de 2026 consolidou um fenômeno visto no Brasil pelo menos desde 2018.
Pesquisas eleitorais apontam que mulheres e homens continuam votando diferente. Elas, mais à esquerda; eles, mais à direita.
Levantamento do Datafolha divulgado na semana passada exemplifica o fosso entre os gêneros.
Segundo a pesquisa, 55% das mulheres declaram voto no candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e 45%, em Flávio Bolsonaro (PL). Entre os homens, a tendência se inverte: 56% preferem Flávio e 44% dizem votar no atual presidente.
Homens e mulheres separados pelo voto
A diferença na escolha dos candidatos é chamada pela ciência política de gap de gênero no voto. Gap é uma palavra inglesa que significa lacuna, vão, brecha.
No Brasil, esse fenômeno começou a chamar atenção em 2018. Ali, o eleitorado masculino votou majoritariamente em Jair Bolsonaro (PL) — pesquisa Datafolha da véspera do segundo turno mostrou diferença de 26 pontos percentuais entre ele e Fernando Haddad (PT).
A pesquisa apontou que o ex-presidente também liderava entre as mulheres, mas com margem mais estreita: 52% a 48%.
Pesquisas de opinião feitas após a eleição desde 2002 pela Unicamp apontam que homens e mulheres costumavam votar parecido, com o eleitorado masculino levemente mais inclinado a candidatos progressistas que o feminino.
Os dados mostram que, nos últimos anos, as mulheres caminhavam lentamente para o centro, em tendência de aproximação da esquerda. Em 2018, os homens fizeram um movimento brusco em direção à direita.
“Em 2018, se configura um gap moderno de gênero porque os homens votaram mais na direita. A partir da literatura, a gente poderia esperar que as mulheres chegassem para esquerda, mas esse rompante foi dos homens chegando à direita”, explica Luciana Veiga, professora de Ciência Política da Unirio e professora colaboradora da FGV-RJ.
O gap de gênero voltou nas eleições de 2022, com as mulheres votando majoritariamente em Lula (PT) e os homens mais em Bolsonaro. A diferença entre os candidatos no eleitorado masculino, no entanto, foi menor — algumas pesquisas do Datafolha chegaram a apontar empate.
Em 2026, a distância parece ter se consolidado. “Agora, se você comparar as tendências de voto tem essa tendência de as mulheres votarem mais no Lula e os homens mais no Flávio”, disse Luciana.
As mulheres são 52% do eleitorado e costumam decidir o voto mais tarde. Em uma disputa apertada — pesquisa Quaest divulgada nesta quarta traz Lula e Flávio empatados tecnicamente — conquistar o eleitorado feminino pode ajudar a definir quem será o próximo presidente.
Esse diagnóstico parece orientar a estratégia dos candidatos. O feminicídio se tornou um dos principais temas da campanha, com Lula e Flávio falando em diminuir os índices de assassinatos de mulheres. Propostas como o fim da escala 6×1 na campanha petista e a castração química de estupradores no lado bolsonarista também tiveram no pacote de ideias para conquistar o voto feminino.
O que define voto de mulheres e homens
De acordo com Luciana Veiga, as mulheres são mais pragmáticas na decisão do voto, enquanto os homens são mais ideológicos.
Elas seriam o que se pode chamar de “eleitor pêndulo”: podem mudar de candidato de uma eleição para outra a depender dos resultados do mandato.
“As mulheres, ao justificarem seu voto, estão mais conectadas com a questão da saúde, da educação, o preço do supermercado, a administração da casa, o custo de vida. Ela tem menos esse viés ideológico”, explica a professora.
As mulheres também rechaçam a retórica agressiva, o que pode explicar a rejeição ao bolsonarismo. Isso levou Flávio a promover encontros com o público feminino durante a campanha, além de aparecer mais ao lado da mulher, Fernanda, e das filhas.
Os homens se mobilizam a votar por fatores como perspectiva mais neoliberal na economia, demanda por uma política de segurança pública linha-dura e o sentimento antipetista.
Luciana Veiga avalia que a mudança no comportamento eleitoral das mulheres é fruto de avanços na participação feminina na sociedade ao longo das últimas décadas.
A ciência política mostra que existia anteriormente o chamado gap tradicional de gênero. Mais responsável pelos afazeres domésticos e pela criação e socialização dos filhos, as mulheres costumavam ser mais conservadoras que os homens, segundo estudos sobre o tema.
Isso mudou quando as mulheres passaram a ter mais espaço no mercado de trabalho, melhores formações acadêmicas e mais independência.
Atualmente, vive-se o gap moderno de gênero, com as mulheres mais à esquerda e os homens à direita.