Após a eleição, políticos e empresários incentivaram a demissão de eleitores do presidente. Domésticas e autônomas são mais vulneráveis.
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Trabalhadoras relatam ameaças de demissão e perda de clientes após manifestar apoio a Lula
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Políticos e empresários incentivaram a perseguição de trabalhadores por suas escolhas políticas
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Especialistas explicam os direitos trabalhistas violados e como denunciar ameaças e discriminação política
Quando o patrão chegou em casa, na segunda-feira (26), após a vitória de Lula, viu sua sogra requentando uma carne para o almoço das duas faxineiras: “eu não quero mais ninguém comendo aqui não, eu quero que vocês do PT vão tudo tomar no cu, vão tudo pra puta que pariu. Que vocês passem fome, e que venham me pedir ajuda e eu não vou ajudar”. Elas, que vão uma vez por semana na casa, só conseguiram comer quando a única a ficar na casa era Lúcia*, que é empregada doméstica no local e também foi alvo dos ataques.
A perseguição contra Lúcia já era antiga. Eles sabiam que ela tinha votado em Lula porque a funcionária participou ativamente do “exército de Lula”, grupo criado pelo deputado Janones para fortalecer a campanha do presidente nas plataformas digitais. “Eu postava bastante coisa, e eu sabia que eles eram Bolsonaro, porque eles viam meus status [do Whatsapp] e ficavam tentando me convencer a votar no Flávio, falando um monte coisa na minha cabeça”, relata.
Indignado com a derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições, o patrão ameaçou demitir Lúcia, que o conhece há 10 anos. “Eu já trabalhava com eles, voltei há quatro meses, trabalho de carteira assinada”, conta. Ela, que sempre trabalhou como doméstica, diz que teme que o ressentimento com o resultado das urnas leve à sua demissão. “Ele [o patrão] falou que já está sofrendo há 4 anos com Lula, então os petistas têm que tomar no cu”.
Antes do retorno recente, Lúcia já tinha trabalhado para esta mesma família por 7 anos. Na casa, onde vivem 8 pessoas, a doméstica faz de tudo, trabalhando de segunda a sexta, das 7h30 até às 18h.
O assédio eleitoral sofrido por Lúcia não é exceção. Em um pleito marcado pelo debate entre o fim da escala 6×1 e um projeto de que trabalhadores negociassem as condições de trabalho diretamente com seus patrões, a reação dos empregadores que votaram Flávio Bolsonaro evidenciou os termos desiguais que essa eventual negociação se daria. Nos dias que sucederam a reeleição de Lula à presidência, se multiplicaram nas redes as manifestações de empresários indignados afirmando que demitiriam funcionários por apoio ao candidato eleito.
O desligamento de trabalhadores por seu voto, e o boicote de prestadores de serviço por seu posicionamento político também foi incentivado por parlamentares. A deputada estadual eleita, Jéssica Ramos Moreno (PL-PR), conhecida como Jessicão foi uma das representantes políticas que convocaram a demissão de quem votou no candidato do Partido dos Trabalhadores. Ela afirma que o voto dessas pessoas prejudicaria não somente o negócio, mas também a família e toda a vida do empresário. Quanto poder!
Outra deputada estadual que entrou na onda de incentivar demissões pós-eleições foi Índia Armelau (PL-RJ). Em sua chamada estava o pedido para que os empresários fiscalizassem as redes sociais dos funcionários para conferir se “fizeram o L”.
Ainda nesta terça-feira (27), o Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) entrou com uma ação civil pública contra ela. A ação diz que a mensagem “estimula o assédio eleitoral e a discriminação por convicção política”. Justamente por ser uma autoridade pública com grande alcance, Índia poderia levar empresários a acreditar que a prática é legítima.
Guilherme Kilter, vereador (PR-NOVO), aproveitou para expor os depoimentos de pessoas que foram demitidas e comemorar, afirmando que “demitir petista é gostoso demais”. Alertando que o que ele chama “movimento demitir petista” está mais forte que nunca, pois os empresários precisam se preparar.
Trend da demissão e boicote maluco
Os representantes políticos conseguiram engajar muitos dos seus admiradores com o chamado para a demissão de quem votou em Lula. O Ministério Público do Trabalho recebeu 1.459 denúncias de assédio eleitoral só entre segunda e quinta-feira (27). As novas ocorrências representam cerca de 40% das 3.396 denúncias registradas durante as eleições de 2026.
A empresária Helenita Brum, por exemplo, dirigente do Grupo Valebrum, responsável por franquias de O Boticário em Mato Grosso do Sul, desejou que eleitores do PT passassem fome em um vídeo que circula nas redes sociais, ela fala também sobre não dar emprego à eles. O número de denúncias de assédio eleitoral no estado chegou a 43 na última terça-feira.
A deputada federal, Bella Gonçalves (PT-MG), denunciou ao MPT a trend nas redes sociais que incentiva empregadores a demitir trabalhadores que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para Tainã Gois, advogada e doutora em direito pela Universidade de São Paulo,o preconceito contra o trabalhador é um dos responsáveis por essas iniciativas, como demitir funcionários.
Existe a ideia de que o empregador faz um favor para o trabalhador. O pobre só pode ter como fonte de renda aquela em que está submetida ao assédio”, explica.
Diante da circulação de publicações que incentivam empregadores a vigiar, expor, deixar de contratar ou demitir trabalhadores por causa do voto, o MPT entrou com uma ação civil pública contra a Meta, nesta quinta-feira (29). O órgão pede que a empresa remova, em até 24 horas, conteúdos que promovam o assédio eleitoral e cobra R$ 50 milhões por danos morais coletivos.
Trabalhadoras domésticas estão mais vulneráveis
O empregador pode dispensar o trabalhador sem justa causa, respeitando os limites legais. No entanto, quando um empregador ameaça demitir alguém por ter votado em determinado candidato, direitos trabalhistas estão sendo violados. Segundo a advogada Tainã Gois, esta violação seria dos direitos da personalidade do trabalhador que configura assédio moral trabalhista. Se a trabalhadora suspeitar de perseguição política, deve reunir provas da motivação, como mensagens, ameaças, testemunhas e publicações do empregador. Neste caso, a trabalhadora pode fazer uma denúncia de forma anônima no Ministério Público do Trabalho. Esse é o principal órgão para proteção de qualquer trabalhador.
Através da denúncia, se ficar comprovado a dispensa discriminatória, a trabalhadora pode pedir indenização e reintegração ao local de trabalho. Tainã, no entanto, alerta que dificilmente a emprega doméstica pediria o retorno ao lar que sofreu o assédio, devido a configuração deste trabalho.
Contudo a denúncia se complica em casos como o de Lúcia, que trabalha em casa de família. Quando são as únicas funcionárias da casa, o anonimato da denúncia pouco serve de proteção. E é exatamente essa a classe de trabalhadoras que pode estar mais vulnerável.
O assédio é maior contra trabalhadoras domésticas porque elas não têm testemunhas, segundo Tainã. “Elas estão dentro da casa dos patrões, que podem alegar que estão falando com a família”, explica. A advogada trabalhista, doutora Rafaela Ribeiro, compartilha da posição. “As trabalhadoras domésticas são as mais frágeis [em relação ao assédio moral], e serão as mais atingidas nesse boicote às trabalhadoras”, finaliza.
A advogada recomenda também que empregadas domésticas e trabalhadoras autônomas procurem os sindicatos das suas categorias, especialmente por enfrentarem relações de trabalho frágeis e inseguras. “Para orientar essas trabalhadoras do que elas podem fazer para se preservar no ambiente de trabalho. E claro, no caso de serem demitidas, buscar uma indenização junto à justiça do trabalho”, explica.