Estudiosas de gênero rebatem comentário sexista de Bolsonaro sobre primeira-dama da França: ‘Mulher não é um prêmio’

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Presidente zombou da esposa do francês Emmanuel Macron em uma postagem do Facebook que compara Brigitte à sua própria mulher, Michelle.

(O Globo, 26/08/2019 – acesse no site de origem)

Após Jair Bolsonaro endossar uma postagem sexista de um internauta no Facebook, comparando a beleza da primeira-dama francesa, Brigitte Macron — 24 anos mais velha do que o marido —, com a brasileira, Michelle Bolsonaro — 27 anos mais nova do que o presidente —, especialistas em questões de gênero analisam em que medida esse episódio reforça a noção estereotipada de que a mulher é um “troféu”, um “objeto de consumo” do homem.

— [A fala de Bolsonaro] Reforça a ideia de que um homem é melhor porque tem uma esposa que é mais jovem e vista como mais bonita — pontua a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus. — Isso mostra como ele considera as mulheres um objeto de consumo, e como ele acha que elas são melhores ou piores de acordo com a idade e a aparência. Para ele, é como se fosse uma vergonha para o homem ter um relacionamento com uma mulher mais velha.

Em meio a uma crise global e uma tensão diplomática sobre a Amazôniacom o presidente francês, Emmanuel Macron, Bolsonaro usou as redes sociais para endossar uma postagem sexista feita por um internauta no sábado. O seguidor postou uma montagem com as fotos do casal francês e do casal brasileiro, lado a lado, com a legenda: “Agora entende porque Macron persegue Bolsonaro?”. O próprio Bolsonaro, então, respondeu nos comentários: “Não humilha cara. Kkkkkkk”. Essa fala viralizou e foi duramente criticada pela imprensa mundial, especialmente a da França.

Nesta segunda-feira, Macron respondeu, afirmando esperar que o Brasil tenha logo “um presidente que se comporte à altura” do cargo.

—  Ele [Bolsonaro] fez comentários extraordinariamente desrespeitosos em relação a minha esposa. O que posso dizer? É triste. Mas é triste, sobretudo, para ele e os brasileiros. Penso que as mulheres brasileiras têm, sem dúvida, vergonha de seu presidente — disse Macron. — E como eu tenho muito respeito e admiração pelo povo brasileiro, espero que muito rapidamente eles tenham um presidente que se comporte à sua altura.

‘Age shaming’

Em inglês, existe até um termo, ainda pouco usado, para situações em que uma pessoa tenta humilhar a outra usando como argumento o fato de ela ser mais velha: age shaming . Não à toa, na maior parte das vezes em que esse termo tem sido aplicado, a vítima é uma mulher.

Historicamente, as mulheres são mais “validadas” pela aparência do que os homens. E é essa noção que é reforçada pelo comentário de Bolsonaro na rede social. Segundo a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus, o presidente tem uma visão problemática sobre as questões de gênero, e sua fala foi “vergonhosa e desrespeitosa” para todas as mulheres. No entanto, Jaqueline acredita que há um lado importante nesse episódio: o de expôr o absurdo desse ataque.

— É importante isso ser exposto para que as pessoas reflitam sobre preconceito e como esses estereótipos estão naturalizados. A sociedade precisa pensar sobre isso para parar de reproduzir esse tipo de coisa, já que o presidente não cumpre esse papel de desconstrução — diz a psicóloga.

A especialista ressalta que a simulação de uma competição entre Brigitte Macron e Michelle Bolsonaro, a partir da aparência delas, é algo tão danoso para a francesa quanto para a primeira-dama brasileira. Isso porque a ideia de que o principal aspecto positivo associado à ela é sua beleza e juventude diminui e limita a própria Michelle.

O fato de um relacionamento amoroso de um homem com uma mulher bem mais jovem ser mais aceito do que o contrário já foi, inclusive, muito questionado por Emmanuel Macron durante sua campanha eleitoral, quando adversários usavam isso para tentar atingi-lo. Na ocasião, o francês disse, mais de uma vez, que “se fosse eu 20 anos mais velho que minha mulher, ninguém estaria falando disso”.

‘Reforça tudo o que combatemos há mais de 200 anos’

Hildete Pereira de Melo, economista especializada em desigualdades de gênero, disse que não ficou surpresa com a declaração de Bolsonaro e reforçou que Macron, Brigitte e todas as mulheres do mundo merecem respeito.

— Eu tenho vergonha da fala do meu presidente. Ele reforça tudo o que lutamos há mais de 200 anos para acabar. Hoje, nós temos uma voz que se levanta contra isso, mas ainda é insuficiente para mudar as gerações mais velhas.

Para Heloisa Pait, professora de Sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), tanto este comentário quanto outras falas do presidente Bolsonaro mostram que ele não vê fronteira entre o público e o privado.

— Essa fala [com a comparação entre a beleza e a idade das duas primeiras-damas] está na esfera do privado. Para além do seu conteúdo sexista, ela jamais deveria ser levada a público como foi. Isso, até pouco tempo atrás, não seria algo que um presidente traria a público, porque fazer isso vai contra uma série de princípios republicanos, de protocolos, de etiqueta.

O que preocupa a socióloga é, portanto, não apenas o conteúdo da fala de Bolsonaro, mas a forma como ele usa essas “falas polêmicas”, que reforçam um senso comum socialmente danoso, para alimentar certa popularidade. Heloisa Paita lamenta que isso diminua o nível do diálogo.

Ela elogia a resposta dada por Macron nesta segunda-feira:

— Foi uma resposta madura, que, digamos, colocou os pingos nos “is”. Quando o comentário de um chefe de Estado é tão infantil quanto foi neste caso, a resposta tem que trazer a conversa de volta para o nível republicano — analisa ela.

Por Clarissa Pains e Alice Cravo

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