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Dados apontam estagnação em diferença salarial, nomeação para cargos executivos e participação em trabalho integral
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Pandemia, escassez de creches e desmonte de políticas de diversidade sob Trump estão entre possíveis causas
As mulheres conquistaram avanços extraordinários nas últimas décadas em todo o mundo desenvolvido.
Hoje elas superam os homens em número nos campi universitários de praticamente todos os países ricos. No trabalho, muitas têm se dedicado com entusiasmo a “ir à luta”, como Sheryl Sandberg, então número dois do Facebook, as incentivou a fazer em um livro de 2013. A representação delas entre as profissões mais bem remuneradas, incluindo médicos e advogados, quase triplicou nos Estados Unidos desde 1980.
Na virada do século, um paciente britânico tinha duas vezes mais chances de ser atendido por um homem. No ano passado, o número de médicas superou o de médicos pela primeira vez, segundo o General Medical Council da Grã-Bretanha, um órgão público.
Recentemente, porém, a geração de mulheres mais qualificadas da história da humanidade parece estar retrocedendo no mercado de trabalho.
Em 2024, um estudo da S&P Global, compiladora de índices, constatou que a participação feminina em cargos executivos em empresas americanas listadas em Bolsa caiu pela primeira vez em 2023, após quase 20 anos de crescimento ininterrupto.
Em 2025, as mulheres conquistaram 38% das novas vagas em conselhos de administração de empresas do índice S&P500, que reúne grandes empresas americanas, abaixo dos 42% do ano anterior e prolongando o recuo em relação ao pico de 2020.
Na última rodada de promoções a sócios, em 2024, o Goldman Sachs nomeou uma proporção menor de sócias mulheres do que na ciclo anterior, a primeira vez em mais de uma década.
Um ano depois, a proporção de novas diretoras executivas no banco de Wall Street também caiu. No mês passado, Marianne Lake, uma das favoritas para suceder Jamie Dimon no comando do JPMorgan Chase, foi rebaixada, e outra candidata, Jennifer Piepszak, desistiu no ano passado, deixando uma lista de candidatos ao cargo principal incomumente branca e masculina.
Não é apenas no topo que a ascensão das mulheres no mercado de trabalho está estagnando ou até retrocedendo.
Em 33 países membros da OCDE, um clube de países majoritariamente ricos, a proporção de mulheres em trabalho em tempo integral caiu de 78,1% em 2023 para 76,8% um ano depois —uma pequena queda, mas também a primeira desde que a PwC, uma consultoria, começou a monitorar os dados há 15 anos.
Em março, 78,5% das mulheres americanas entre 25 e 54 anos estavam na força de trabalho, um recorde histórico. Desde então, a participação caiu quase um ponto percentual, uma queda muito mais acentuada do que a observada entre os homens.
Mulheres americanas com diploma universitário e filhos pequenos parecem estar liderando esse recuo. A taxa de participação feminina na força de trabalho mudou de direção em 2023, após décadas de melhoria, e vem caindo a cada ano desde então. O ano passado registrou a queda mais acentuada na participação de mães com filhos pequenos em quatro décadas.
Após diminuir consistentemente nos últimos anos, a diferença salarial entre gêneros também está aumentando novamente.
Nos Estados Unidos, ela cresceu tanto em 2023 quanto em 2024, o primeiro declínio consecutivo de dois anos em 60 anos. Em 2024, também aumentou em vários outros países ricos, incluindo Canadá, França e Suíça. Para as mulheres britânicas na faixa dos 40 anos, que estavam começando suas carreiras quando Sandberg as incentivava a ir à luta, a diferença voltou a subir.
De forma possivelmente relacionada, as aspirações profissionais das mulheres já não correspondem às dos homens. Uma pesquisa anual publicada em dezembro de 2025 pela consultoria McKinsey e pela Lean In, uma organização sem fins lucrativos fundada por Sandberg, pede aos entrevistados que indiquem seu interesse em subir na hierarquia corporativa.
Entre 2019 e 2023, a proporção tanto de homens quanto de mulheres interessados em uma promoção subiu de sete em cada dez para oito em cada dez. Em 2025, havia subido para quase nove em cada dez entre os homens, mas permaneceu estável entre as mulheres. Para trabalhadoras em início de carreira, era de apenas 69%. A PwC também identifica uma diferença persistente na intenção de homens e mulheres de pedir um cargo mais alto.
Uma razão para algumas dessas reversões pode estar relacionada às consequências aritméticas da pandemia de Covid-19. Economistas do trabalho alertam que um número desproporcional de trabalhadoras de baixa renda perdeu empregos durante os lockdowns, reduzindo artificialmente a diferença salarial entre gêneros.
Parte do aumento recente pode refletir essas mulheres retornando ao mercado de trabalho —como sugerem os dados americanos. Ainda assim, a expansão da diferença cinco anos após o fim dos lockdowns sugere que há algo mais em jogo.
A dificuldade em encontrar creches é outra possível culpada. Embora os espaços tenham se tornado mais acessíveis em alguns países ricos recentemente graças a subsídios, a oferta frequentemente é limitada. Isso significa longas listas de espera e escassez de funcionários. A Alemanha, considerada um país com creches acessíveis, ainda carece de mais de 300 mil vagas para crianças menores de três anos.
Ao mesmo tempo, especialmente em grandes áreas dos Estados Unidos de Donald Trump, diversidade, equidade e inclusão se tornaram palavras malditas. O governo federal está orgulhosamente desmantelando políticas no tema. O mesmo fazem, de forma mais sutil, muitas empresas que não querem contrariar o macho alfa no comando.
Alguns anos atrás, Dimon, então um defensor de causas progressistas, provavelmente não teria sonhado com uma lista de candidatos à sua sucessão composta apenas por homens.