Negros na liderança: debates sobre desigualdade racial crescem, mas falta de referências ainda é barreira para profissionais

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Especialistas e profissionais negros dizem que a redução da desigualdade racial no mercado de trabalho caminha a passos lentos; pesquisas apontam que as empresas vêm demonstrando maior interesse pelo tema.

(G1, 10/05/2019 – acesse no site de origem)

Além do fato de serem negros e estarem em cargos de liderança em empresas importantes, Marcelo Leal, Solange Sobral, Roberta Anchieta e Maurício Rodrigues têm outro ponto em comum em sua trajetória profissional: quando começaram suas carreiras, praticamente não havia referências de líderes negros nos locais em que trabalhavam.

A falta de referência de negros em cargos de liderança em grandes empresas não é uma sensação isolada desses quatro profissionais. Uma pesquisa do Instituto Ethos com as 500 empresas de maior faturamento do Brasil aponta que os negros são de 57% a 58% dos aprendizes e trainees, mas na gerência eles são 6,3%. No quadro executivo, a proporção é ainda menor: apenas 4,7% são negros.

A pesquisa mostra a sub-representação no ambiente corporativo da população negra, formada por pretos e pardos, de acordo com nomenclatura do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, diz que a evolução de medidas que ampliem a representatividade dos negros no mercado de trabalho caminha a passos lentos no Brasil.

“Se a melhoria continuar nesse ritmo, nós só teremos a equidade demográfica – com 54% de pessoas negras na sociedade, homens e mulheres, com a mesma referência dentro das empresas em todos os seus níveis hierárquicos – daqui a 100 anos.”

Para as mulheres negras, a sub-representação é ainda maior que a dos homens, aponta a pesquisa. No quadro executivo das empresas pesquisadas pelo Ethos, havia apenas duas negras – o que confere a elas a fatia de 0,4% de participação no total.

Empresas mais atentas à diversidade

G1 e a GloboNews entrevistaram quatro profissionais negros que estão em cargos de destaque e liderança. Eles foram unânimes ao dizer que percebem um aumento das discussões sobre a igualdade racial nas empresas. Eles apontam ainda que isso é positivo, embora ainda seja uma questão incerta o quanto essa melhora tem ajudado a mudar efetivamente o cenário.

“Saber que o problema existe é bom, é bacana, mas o quanto conversar sobre o problema está impactando a vida das pessoas que estão na mesma situação em que eu estava, essa é realmente uma resposta difícil de dar”, diz Marcelo Leal, líder de inovação de aplicativos em nuvem na Microsoft Brasil.

A pesquisa do instituto Ethos mostra que a maioria dos gestores das grandes empresas de fato reconhece o problema: 64% deles dizem que há menos negros do que deveria no quadro executivo das organizações em que trabalham.

“A gente está fazendo essa pesquisa desde 2002. O que a gente pode perceber ao longo desses 17 anos é que a pauta da igualdade, da equidade, da inserção, da inclusão social nas empresas cresceu. As práticas também cresceram. As políticas que as empresas têm hoje adotado para a inclusão com diversidade também têm sido mais eficientes. Mas não é suficiente”, diz Magri.

Outro estudo, da McKinsey, mostra por que a preocupação das empresas vai além da questão social. Segundo a pesquisa, as companhias com mais diversidade étnica em sua composição são 35% mais propensas a ter resultados financeiros acima da média nacional de seu setor.

O relatório “Why diversity matters” (“Por que a diversidade importa”) foi feito com mais de 300 empresas do Canadá, Reino Unido, Estados Unidos e América Latina. Ele mostra também a relação entre a melhora dos resultados e o aumento da diversidade em cargos superiores. Nos Estados Unidos, para cada 10% de aumento na diversidade racial e étnica dos executivos seniores, o lucro antes dos juros e impostos (Ebitda) aumenta 0,8%.

Alberto Cordeiro, consultor na McKinsey, diz que tem notado “um aumento significativo da preocupação das empresas com a temática da diversidade como um todo”.

“Eu entendo que as empresas estão muito mais focadas nisso, até por entender o aspecto de negócio que é relacionado a diversidade. Pessoas diferentes pensando diferente entregam melhores resultados para os nossos clientes”, diz Cordeiro.

Ele é negro e lidera um movimento chamado McKinsey Black Network (MBN, grupo voltado ao aumento da diversidade racial no mercado de trabalho).

Por que ainda não temos igualdade?

A maior parte dos gestores acredita que a desigualdade se deve à falta de qualificação profissional dos negros. Essa foi a resposta de 48% dos entrevistados pelo Instituto Ethos. Mas uma fatia considerável dos gestores reconhece como motivo a dificuldade e a falta de conhecimento da própria empresa em lidar com o tema. Essa resposta foi citada por 41% dos gestores, segundo a mesma pesquisa.

Magri aponta que o problema das empresas é reflexo da sociedade de uma maneira geral. “A gente tem gargalo histórico, ou seja, o Brasil não praticou uma reparação efetiva desde o seu período da escravidão. E, portanto, nós continuamos tendo na sociedade manifestações de racismo estrutural. Por outro lado, a gente tem ainda uma deficiência muito grande de políticas públicas”, diz.

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