Brumadinho: Mulheres negras são maioria entre os atingidos e ainda vivem em insegurança alimentar sete anos após rompimento de barragem

27 de fevereiro, 2026 Gênero e Número Por Thamara Pereira e Adriana Amâncio

Proibidas de pescar e plantar às margens do rio contaminado, mulheres negras que tinham soberania alimentar passaram a depender de supermercados distantes e renda insuficiente.

“A gente tem [comida] hoje, amanhã não sabe se vai ter. A gente vive o dia de hoje.”

A frase resume como a pescadora Quesia Martins, de 49 anos, passou a viver após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), em 25 de janeiro de 2019. Na comunidade rural de São Marcos, onde mora com a família, ela viu a renda mensal de R$ 4 mil da venda de peixes e derivados cair pela metade. A mudança chegou ao prato. As refeições, que contavam com opções de peixes como curimatã, tilápia, piau e piranha, ficaram reduzidas a ovo, mortadela e salsicha.

Às margens do rio Paraopeba, a pouco mais de 200 metros da sua casa, ela plantava mandioca, milho, feijão, mamão, alface, couve, cebolinha, manga, limão e laranja. Quando os mais de 12 milhões de metros cúbicos de lama com metais pesados contaminaram esse curso hídrico, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (SEMAD) orientou a população a não utilizar a água bruta do Rio Paraopeba para qualquer finalidade. Quesia relata que colocaram “uma cerca, ninguém mais tem acesso ao rio”. Mesmo no entorno da casa, a terra deixou de responder.

“O solo está contaminado, virou aquele solo arenoso, sabe? A gente não consegue mais cultivar nada ali”, reforça.

Sete anos após o rompimento da barragem, o desastre consolidou um cenário de vulnerabilidade permanente para os atingidos. Além da destruição ambiental e das 272 mortes, o rompimento aprofundou desigualdades históricas nos territórios impactados ao longo da bacia do rio Paraopeba, onde vivem comunidades rurais e ribeirinhas formadas majoritariamente por trabalhadores da agricultura familiar, criadores de animais e pescadores.

A crise também não se distribuiu de forma igual. O agravamento das desigualdades pré-existentes transfere às mulheres o maior peso na reconstrução. Segundo registros familiares da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS), elas lideram 73% dos núcleos familiares, sendo, portanto, as principais responsáveis pela manutenção das condições de vida de suas famílias. Entre essas mulheres, 64% se declararam negras.

Paula Constante, assessora e advogada do Instituto Guaicuy, explica: “O rompimento atinge de forma particular as mulheres negras, porque ele não incide sobre um ponto neutro. Ele incide sobre corpos e territórios que já estavam marcados por desigualdades históricas. Então, o que acontece é um efeito multiplicador das vulnerabilidades”.

Ela também pontua que a desproporção não é apenas numérica, mas qualitativa. “Elas são atingidas de forma mais intensa e com consequências mais duradouras”, afirma.

Antes do desastre, muitas dessas mulheres contavam com a pesca e os alimentos da pequena agricultura para as refeições. Ao perderem acesso ao rio, passaram a depender da renda e do transporte para adquirir alimentos no supermercado.

Quesia é uma das muitas mulheres negras atingidas, que lembra vividamente das consequências do desastre sempre que a barriga dá sinais de fome. Na casa, vivem ela, o marido, três filhos de 28, 21 e 18 anos, a nora e dois netos, um de 8 anos e outro de 5 meses. Quando a comida é pouca, os pequenos têm prioridade. “A gente levanta e toma só um café. Às vezes, a gente não janta para deixar a comida para os menores”, afirma.

As mulheres também estão na linha de frente do processo reparatório. Dados registrados pela AEDAS apontam que, em espaços participativos realizados no biênio 2024–2025, a participação feminina superou 70%. Esse cenário é visível na rotina de Lázara Juliana Carvalho, líder comunitária na Comissão Baixo Paraopeba. Moradora da comunidade rural de La Poveda, Lázara é uma mulher negra e mãe de um menino de oito anos. “Nós temos 14 mulheres e só dois homens na comissão”, exemplifica.

Em contextos de escassez, são as mulheres que reorganizam as refeições e fazem escolhas difíceis sobre o que será servido. “É uma ansiedade muito grande sobre o que vamos ter para comer. É o pensamento maior, o que vamos ter para comer”, afirma Lázara.

Assim como acontece na casa de Quesia, a prioridade é das crianças. “Quando a gente é mãe, o nosso pensamento se volta para o nosso filho. A gente come o que tiver, uma criança não come o que tiver”, conclui.

O cenário de vulnerabilidade é agravado por barreiras burocráticas que excluem famílias do acesso ao Programa de Transferência de Renda (PTR), criado a partir do Acordo Judicial de Reparação Integral firmado entre o Estado de Minas Gerais, as instituições de justiça e a Vale. Lázara não conseguiu o auxílio, porque não possui nenhuma conta em seu nome. “La Poveda é formado por comunidades onde tem chácaras. Essas chácaras foram divididas em lotes, mas a conta [de energia] dá-se em nome de uma pessoa só”.

Quesia enfrentou o mesmo problema. “A gente é [de] uma comunidade ribeirinha, a gente não tem conta de luz, não tem conta de água. A gente tem o contrato de compra e venda do lote. Eles não aceitaram isso como documentação”, afirma.

A professora e pesquisadora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Aline Cristina Souza Lopes, responsável pelos estudos “Consumo alimentar em participantes do Projeto Saúde Brumadinho” e “Projeto Saúde Brumadinho: insegurança alimentar e nutricional versus condições socioeconômicas e dimensões do sistema alimentar após desastre”, explica que a região sofreu “uma mudança drástica no sistema alimentar”.

Ela detalha que, em municípios agrícolas, como era o caso dos atingidos, a impossibilidade do cultivo por conta do desastre força as pessoas a comprarem a comida que irão consumir. Então, passa a existir um fator limitante: a renda, que determina que tipo de alimento você pode ou não comprar.

“Tem uma mudança na percepção do sabor do alimento, que antes era sem agrotóxico, e agora é com agrotóxico, tem o sabor realçado. Tudo isso impacta no sistema alimentar”, explica.

Quando famílias passam a depender mais do supermercado em contextos de restrição financeira, isso frequentemente resulta em uma dieta mais barata e de pior qualidade, com aumento do consumo de ultraprocessados, em detrimento de alimentos in natura.

Os estudos da pesquisadora registraram baixo consumo de frutas e hortaliças entre pessoas residentes na região diretamente atingida pelo rompimento da barragem. Nesse grupo, apenas 15% das pessoas consomem a quantidade recomendada. Também foi identificado consumo frequente de refrigerante e suco artificial por 20% dos entrevistados, o dobro das demais regiões.

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