Da Marcha ao Bem Viver: quando os dados encontram a memória e a luta, por Vitória Régia da Silva

23 de julho, 2026 Gênero e Número Por Vitória Régia da Silva

O que os dados revelam sobre uma década da Marcha das Mulheres Negras.

O ano de 2026 reúne marcos importantes para a agenda dos direitos das mulheres no Brasil. O país chega aos 20 anos da Lei Maria da Penha. A Gênero e Número celebra seus dez anos de atuação. E, em um novo ciclo eleitoral, voltamos a discutir quem ocupa os espaços de poder e quais agendas serão priorizadas nos próximos anos. São três marcos distintos, mas atravessados por uma mesma pergunta: como produzir mudanças concretas na vida das mulheres e enfrentar as desigualdades de raça e gênero que estruturam o país?

A Gênero e Número nasceu da convicção de que dados não são neutros. Produzir, analisar e comunicar evidências sobre gênero, raça e sexualidade sempre fez parte do nosso DNA. Mas também aprendemos, ao longo dessa década, que números sozinhos não contam histórias. Eles precisam dialogar com as experiências, os territórios, as memórias e as vozes de quem vive essas desigualdades cotidianamente.

Foi justamente desse encontro entre evidências e narrativas que nasceu o estudo Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil, realizado pela Gênero e Número em parceria com a Oxfam Brasil, o Observatório da Branquitude e o movimento da Marcha das Mulheres Negras. O estudo parte das reivindicações apresentadas na Carta da Marcha de 2015, que orientaram tanto as escolhas metodológicas quanto a definição dos temas analisados, para investigar o que mudou e o que permanece igual dez anos depois.

Mais do que celebrar uma data, queríamos produzir um legado. O estudo reúne parte importante do acúmulo que construímos ao longo desses dez anos no uso de dados com perspectiva interseccional, articulando estatísticas oficiais, pesquisa acadêmica e a produção intelectual e política das mulheres negras para compreender como diferentes direitos evoluíram ao longo da última década.

Mas sabemos que um estudo, por mais robusto que seja, não transforma sozinho o debate público. Por isso, decidimos levar seus principais achados para além das páginas do relatório e transformá-los em uma série especial de reportagens. Ao longo dos próximos meses, vamos aprofundar discussões sobre representação política e acesso ao poder, violência e acesso à justiça, saúde e justiça reprodutiva, trabalho e direito à educação.

O eixo sobre direito à cidade e justiça climática não integra esta nova série, porque já foi tema do sumário executivo Mulheres negras e indígenas na linha de frente da justiça climática, publicado em 2025, acompanhado de reportagens especiais que anteciparam parte das reflexões agora reunidas no estudo.

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