Nos livros, o aborto deixa de ser tabu e se torna uma experiência narrada com naturalidade por escritoras ao redor do mundo
Há algo de transformador quando o aborto aparece na literatura como elemento pertencente ao cotidiano das mulheres e das pessoas que gestam. É possível elencar histórias em que a interrupção de uma gravidez contraria o estigma de pensá-lo como um acontecimento que define integralmente essas existências. Essa operação narrativa, presente na literatura escrita por mulheres há muito tempo, desloca o aborto do campo do tabu para o da experiência.
Em Trilogia de Copenhague, de Tove Ditlevsen, que chegou ao Brasil em 2023, a autora descreve suas experiências em busca da interrupção de gestações. Essas memórias, escritas entre 1967 e 1971, são marcadas por procedimentos realizados em um contexto de criminalização na Dinamarca, atravessados por medo, humilhação médica e solidão.
Ao descrever sua peregrinação por consultórios, a dinamarquesa compartilha: “Começa minha odisseia médica. Só posso consultar dois ou três por dia, pois todos atendem no mesmo horário. Sento-me em frente a esses jalecos brancos com minha gabardina surrada e o lenço vermelho no pescoço. Olham para mim com frieza e incompreensão.”
Não por acaso, Tove é constantemente apontada como uma das antecessoras intelectuais e temáticas de Annie Ernaux, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura. Em O acontecimento (2000), livro essencial sobre o tema, a escritora francesa revisita o aborto clandestino que realizou em 1963, antes da legalização do procedimento na França. De forma crua e direta, Annie documenta uma experiência que foi empurrada para o silêncio. No entanto, ao narrá-la, transforma essa vivência pessoal em algo mais abrangente: uma ferida inscrita na memória coletiva de uma sociedade patriarcal.
Lançamentos no Brasil
Se o tema atravessa décadas, o interesse editorial e do público parece renovado no Brasil. Obras internacionais publicadas recentemente no país, como Nada nasce ao luar (1947), da norueguesa Torborg Nedreaas, ou O tempo das cerejas (1976), da catalã Montserrat Roig, recolocam em circulação narrativas em que o aborto é parte do universo de possibilidades das personagens.
Em O tempo das cerejas, por exemplo, o aborto surge inserido em situações mais amplas da formação da protagonista, que retorna à Catalunha depois de doze anos de fuga do regime franquista.
Afetos ferozes(1987), da estadunidense Vivian Gornick, é mais um exemplo de obra estrangeira que menciona o tema de maneira natural. Durante uma conversa aparentemente banal entre Vivian e sua mãe, enquanto caminham por Nova York, as duas revelam, sem remorsos, terem feito abortos na juventude.
Se, até aqui, a maior parte dessas narrativas aponta clínicas como o espaço de realização do aborto, vale lembrar o conto “Salsinha e Coca-Cola”, presente em Cadelas de aluguel, da mexicana Dahlia de la Cerda. Nele, uma jovem faz uso do misoprostol em casa, expondo a realidade marcada pela ausência de suporte e supervisão vivida por tantas latino-americanas.
O aborto nas narrativas brasileiras
No Brasil, o aborto permanece criminalizado – exceto em casos de estupro, anencefalia fetal e risco à vida da gestante – e segue cercado de estigma religioso e moral. Entretanto, a literatura nacional também tem produzido suas próprias formas de narrar o tema.
Em diálogo com Paula Mendonça Dias, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora que pesquisa a escrita de uma narrativa autoficcional sobre o assunto, foi possível elencar diversos livros brasileiros em que a interrupção da gravidez também encontra espaço.
Em Melhor não contar (2024), de Tatiana Salem Levy, o aborto aparece entrelaçado a outras camadas de violência e memória. Embora o livro tenha sido amplamente comentado pelas cenas envolvendo o padrasto da autora, a interrupção da gravidez está presente como episódio que atravessa o corpo da narradora, inclusive com complicações físicas.
Já em Todas as minhas mortes (2024), de Paula Klien, uma narradora jovem realiza o procedimento em uma clínica privada. O livro mistura elementos autobiográficos e ficcionais, e inclui o aborto como parte de um percurso que envolve, mais tarde, o desejo de maternidade. Aqui, é observado que o acesso a uma clínica segura pode mitigar os riscos, mas não elimina a complexidade emocional dessa decisão.
Mesmo em romances nacionais anteriores, como Calcinha no varal (2005), de Sabina Anzuategui, o aborto surge como parte da trajetória de Juliana, que narra em primeira pessoa as experiências afetivas e sexuais de sua juventude.
Esse conjunto de obras revela que, na literatura brasileira, o conservadorismo com que o tema é encarado não impede que mulheres narrem o aborto como experiências integradas às suas trajetórias.
Sobre precarização e criminalização
Fora da literatura, a realidade é marcada pela urgência. Propostas legislativas que ameaçam até mesmo os casos já previstos em lei voltam periodicamente à pauta política. E mulheres, meninas e pessoas que gestam enfrentam barreiras institucionais mesmo quando têm direito ao procedimento em hospitais.
A literatura, ainda que não esteja no lugar de resolver qualquer impasse jurídico, é capaz de produzir elementos fundamentais, como a linguagem e o registro. Ao narrar abortos, sejam legais ou clandestinos, acompanhados ou solitários, atravessados por classe, idade ou religião, as escritoras constroem um arquivo de experiências que afasta o silêncio. Assim, oferecem reconhecimento a quem já passou por isso e complexidade a quem observa de fora.
Não há, nessas narrativas, interesse em convencer, mas em mostrar que a experiência não é homogênea. Justamente por isso, precisa ser contada por múltiplas vozes, deixando registrados o medo, a burocracia, a possível hemorragia, a conversa banal entre mãe e filha, a clínica limpa ou o quarto improvisado.
Talvez o gesto mais interessante dessas obras seja recusar o excepcionalismo, deslocando o debate do campo perverso da moralidade.
Se o aborto esteve presente na vida de pessoas que gestam, em diversos lugares e tempos, o que parece novo no Brasil é a atenção que o público e as editoras começam a lhe dedicar. Ao ler essas obras ou muitos dos relatos da seção Divã, aqui d’AzMina, fica evidente que interromper uma gravidez faz parte da história de muitas mulheres e contar essas histórias também é disputar a forma como elas serão lembradas.
Desde abril de 2025, o História Guardada se preocupou em indicar por aqui livros, séries e filmes que instauram debates possíveis entre o feminismo e a cultura. Nesse último texto como colunistas fixas, agradecemos a todo mundo que nos leu e ecoou caminhos entre a arte e a luta pelos direitos das mulheres e das minorias sociais.