Homens que forçam mulheres a engravidar, por Djamila Ribeiro

28 de fevereiro, 2025 Folha de S. Paulo Por Djamila Ribeiro

Direitos da mulher no Brasil são moeda de troca na política dominada por homens

Em 2014, Jandira Magdalena dos Santos Cruz, aos 27 anos, perdeu a vida ao se submeter a um aborto clandestino no Rio de Janeiro. Mulher de baixa renda e de família evangélica, Jandira já era mãe de dois filhos: o primeiro, parido logo após completar 14 anos, e o segundo, aos 17. O procedimento, realizado em condições precárias —apesar de ela ter pagado R$ 4.500—, resultou em complicações que foram fatais.

Para ocultar o ocorrido, o grupo que operava a clínica deu um tiro em sua cabeça, desmembrou seu corpo, arrancou seus dentes e carbonizou seus restos dentro de um carro, na tentativa de encobrir o crime e simular uma execução.

Mais tarde, descobriu-se que o homem que realizou o aborto era um falso médico. Segundo o magistrado que condenou o grupo, “valeram-se da vulnerabilidade de mulheres que, muitas vezes em situação de desespero, submetiam-se à ‘clínica’. Além de realizarem uma atividade ilícita, a quadrilha operava com um cirurgião sem diploma, sem qualquer cuidado com higiene e assepsia, instaurando um verdadeiro açougue humano, expondo inúmeras mulheres a risco. Tudo visando o lucro fácil”.

Complemento o juiz: visando um lucro fácil e se valendo de uma proibição criminosa imposta pelo Estado brasileiro. No caso de Jandira, o Estado já falha de partida quando obriga uma garota de 14 anos a ser mãe.

Segundo a ONG Girls not Brides, o Brasil possui 2,2 milhões de meninas menores de idade casadas ou em união estável, o que representa aproximadamente 36% da população feminina brasileira abaixo dos 18 anos. Isso é um absurdo, um crime cometido todos os dias e que prejudica a vida de meninas e mulheres.

Contudo, ainda assim, parlamentares são cínicos o bastante para dizerem frases como “é só usar camisinha” ou “ninguém mandou transar”. Ora, uma adolescente tem maturidade para uma decisão como essa? E mais, ainda que se diga que sim, e os casos em que homens forçam a gravidez nas mulheres, como ficam?

Esse mal atinge qualquer mulher fértil em qualquer idade. Nem estou falando apenas de gravidez resultante de estupro por penetração não consentida —que, ainda assim, é alvo de parlamentares que querem obrigar a mulher a levar adiante a gestação imposta pelo estuprador.

Refiro-me a outra situação: mulheres vítimas de “tentativa de engravidamento” ou de “engravidamento consumado”. Estabelece-se um patamar de discussão que criminaliza o homem que retira a camisinha no meio do sexo e ejacula sem o consentimento da mulher. Ok, isso é abusivo e é crime. Mas se esquece que o padrão é tão baixo que a realidade é de homens que se recusam a usar preservativo. Desconfio que uma menor parte deles alcance o estágio de violência do tirar a camisinha “no meio” do sexo, pois a maior parte sequer a usa.

Os homens que escreveram o Código Penal chamaram algumas dessas hipóteses de “fraude sexual”. Inclusive, segundo decisões judiciais e protocolos de segurança e de saúde, o crime de fraude sexual é justificativa para aborto legal.

Contudo, “fraude sexual” é um nome eufemístico e não comunica propriamente, pois sugere enganar alguém para obter sexo, o que de fato ocorre e merece discussão. Porém falha em investigar o objetivo específico de muitos desses atos: forçar a gravidez.

A inconsequência é, de fato, um privilégio do patriarcado (existe “engravidamento culposo”?). Mas sabemos que, muitas vezes, os homens medem exatamente o que estão fazendo e o que pretendem com aquilo. E sabemos dos engravidamentos consumados por desejo de controle, por sentimento de posse sobre a mulher, entre outros motivos. Vemos mulheres ao longo da vida serem atingidas por esse mal.

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