Justiça reprodutiva também é uma questão de fé, por Emanuele Nascimento, Jamile Godoy e Simony dos Anjos

Ato em defesa da descriminalização do aborto

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

22 de maio, 2026 O Globo Por Emanuele Nascimento, Jamile Godoy e Simony dos Anjos

Negar o aborto como direito apenas empurra milhares de mulheres à clandestinidade, ao risco e ao abandono

Maria entoa no “Magnificat” um cântico de justiça. Iansã atravessa a guerra sem abrir mão da vida. Agar resiste ao abandono. Débora convoca seu povo à luta. Em tradições religiosas diferentes, essas mulheres nos lembram que cuidado, coragem, proteção e defesa da vida caminham juntos. É desse lugar que queremos falar sobre justiça reprodutiva.

No Brasil, a expressão ainda costuma aparecer aprisionada a uma chave moralizante e, quase sempre, reduzida à controvérsia sobre o aborto, como se tratá-lo como questão moral ou criminal fosse capaz de impedir sua prática. Na realidade, negá-lo como direito apenas empurra milhares de mulheres para a clandestinidade, o risco e o abandono. Justiça reprodutiva não se esgota aí. Também diz respeito às condições concretas em que mulheres gestam, criam filhos, cuidam, adoecem, trabalham e buscam sustentar a vida com dignidade.

Falamos do pré-natal que não chega, da creche que falta, da mulher que cria sozinha seus filhos, da avó que assume o cuidado cotidiano, da trabalhadora que passa horas em deslocamento, da família que depende do SUS, da mulher que encontra julgamento onde deveria encontrar acolhimento. Quando essas condições faltam, o que está em jogo não é uma abstração moral. É a vida como ela é.

Proteger a vida exige discutir saúde, cuidado, apoio às famílias, políticas públicas e direitos sociais. Inclui também enfrentar a naturalização do cuidado não remunerado, a sobrecarga histórica das mulheres e o abandono que organiza, silenciosamente, a vida social brasileira

Justiça reprodutiva é uma formulação política construída por mulheres negras nos anos 1990, no contexto do debate internacional sobre direitos reprodutivos. Ao articular raça, gênero e classe, elas ampliaram esse campo para além da linguagem liberal da escolha individual e colocaram no centro a materialidade da vida: quem pode criar filhos com segurança, quem tem acesso à saúde e à proteção, quem é empurrada para a morte, para a pobreza ou para o abandono. Esquecer essa origem esvazia a força política do conceito e embranquece uma agenda nascida do enfrentamento às desigualdades estruturais.

Também por isso, tratar justiça reprodutiva apenas como “pauta moral” interessa a quem quer restringir o debate. Superar a moralização do tema exige romper a falsa oposição entre fé e direitos das mulheres. O que muitas vezes aparece como “posição religiosa” no espaço público não representa toda a experiência de fé. Em geral, representa uma leitura masculina, hegemônica e punitivista, que tenta falar em nome da religião como um todo. Mas o campo religioso não é homogêneo. Há mulheres de fé refletindo sobre abandono, maternidade, violência, cuidado, família e direitos sociais sem abrir mão de suas crenças.

Ninguém precisa escolher entre ter fé e defender os direitos das mulheres. A fé é fonte de cuidado, responsabilidade e justiça. É uma linguagem de acolhimento diante da dor, da desigualdade e da violência. Num país profundamente religioso, reconhecer isso é parte fundamental de qualquer esforço sério para ampliar o debate público e romper estigmas.

Num ano eleitoral, quando decisões sobre o presente e o futuro passam pela disputa de valores e sentidos de vida, ampliar esse diálogo se torna urgente. Defender justiça reprodutiva, portanto, não é atacar a vida, a família ou a religião. É enfrentar as condições que tornam a vida mais precária, mais desigual e mais violenta para as mulheres e reconhecer que sua existência não se resume à reprodução.

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