Levantamento do g1 mostra que curetagem, procedimento mais invasivo e doloroso, é usado em 98% dos atendimentos no SUS da cidade, contrariando orientação mundial. Mulheres relatam medo e falta de informação.
Imagine viver um pesadelo no qual você passa pela situação mais vulnerável da sua vida diante de uma plateia que aponta o dedo. É mais ou menos assim que se inicia o turbilhão de sentimentos que rodeia uma mulher que passa por um aborto. Cobertas de dúvidas, inseguranças e desinformação, elas conhecem a culpa e o medo, mas pouco sabem sobre os procedimentos aos quais serão submetidas.
Às vezes, não descobrem nem o nome de quem as acompanha. Apenas sabem que os seus corpos estão se mostrando incapazes de suportar dois desenvolvimentos ao mesmo tempo.
Um levantamento inédito do g1 em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) revela que, além da dor emocional, mulheres de Sorocaba (SP) são majoritariamente submetidas a um procedimento de esvaziamento uterino pós-aborto considerado mais doloroso, mais arriscado e não recomendado como primeira opção pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há mais de uma década.
Às vezes, o cenário é diferente para cada mulher que passa pelo procedimento: tem quem seja atendida em um hospital e receba a garantia do atendimento médico até o momento da alta, mas também tem quem passe por isso sozinha, muitas vezes em casa, tendo de um a dois contatos de emergência.
Dentre todas as experiências, um apelo é comum: elas gostariam de ter tido mais informações, mais segurança e mais acolhimento.
‘O corpo sente’: o medo e a desinformação
Cecília [nome fictício] é uma das mulheres que viveram essa experiência. Na memória do dia em que seu corpo expeliu um feto, ela se lembra principalmente do medo de morrer sozinha.
“Me falaram: ‘Se sair muito sangue, você chama a ambulância’. Mas a gente não sabe quando a gente deve chamar e a gente tem medo, né? Quando começamos a perder sangue, não sabemos o momento no qual devemos pedir socorro. Para quem não teve contato com nada da área da saúde, não faz a menor noção de quando pedir ajuda. O corpo não aguenta parar em pé. Você sabe quando o corpo expele o feto, não sei explicar, mas o corpo sente”, conta.
Seis anos depois, as dores do episódio ainda a perseguem. “Você fica se sentindo horrível. Fui procurar terapia seis anos depois, porque eu tinha muito medo de tudo, de sentir vergonha”, desabafa.
Uma dor a mais: os dados do DataSUS
De acordo com o Código Penal, o aborto induzido é crime com pena de detenção para a gestante e para quem auxilia na realização. A interrupção da gestação é legalizada apenas em três casos:
- Risco de vida à gestante;
- Gravidez por estupro;
- Anencefalia fetal, garantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Quando uma mulher é atendida em um hospital durante ou após um aborto, ela se torna parte das estatísticas oficiais. Foi por meio desses dados, no DataSUS, que o g1 levantou o número de procedimentos pós-aborto em Sorocaba.
Os números mostram que, em 2025, foram realizadas 269 curetagens pós-aborto na cidade – na proporção, é um procedimento a cada três dias. No mesmo período, apenas três procedimentos de Aspiração Manual Intra-Uterina (AMIU) foram registrados. Isso significa que a curetagem, método mais invasivo, correspondeu a 98,9% dos atendimentos.
Somado aos relatos, os números apresentam mais um ponto: o desencontro entre informação e acolhimento entre as mulheres e a medicina.
Curetagem x AMIU: o que diz a ciência?
Para entender a diferença entre os dois procedimentos, o g1 conversou com o ginecologista, obstetra e professor do curso de medicina pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Dr. Luiz Sampaio.
“A curetagem é um procedimento cirúrgico em que se usa um instrumento metálico que corresponde a uma espécie de bisturi circular para acessar a cavidade uterina e proceder a ‘raspagem’ da superfície mucosa. Pode ser indicado quando há uma circunstância em que a gravidez se encerrou com um abortamento e o processo do aborto não foi completo. Contudo, outros procedimentos são menos invasivos”, explica.
Segundo o médico, a Aspiração Manual Intra-Uterina (AMIU) está entre os procedimentos menos invasivos para o pós-aborto. Além de ser menos invasiva, ela tem menor custo hospitalar, porque não é necessária a internação das pacientes e não é um procedimento cirúrgico que exige anestesia geral.
Desde 2013, a OMS orienta que a aspiração a vácuo (como a AMIU) substitua a curetagem em gestações de até 12 semanas, por ser mais segura e menos dolorida. A realidade de Sorocaba, no entanto, é oposta.
Procedimentos pós-aborto realizados em Sorocaba nos últimos 15 anos
O ginecologista e plantonista Cristian Lopes atua em dois hospitais sorocabanos: um público e um particular. Em sua experiência, um detalhe que pode influenciar as decisões médicas em torno de qual procedimento realizar é a disponibilidade dos insumos para cada um.
“O problema é que alguns hospitais não dispõem de tantas AMIU. E eles demoram algum tempo para serem limpos ou lavados [os equipamentos]. Então, se tem duas em sequência, provavelmente uma vai fazer com AMIU e a outra com uma curetagem”, explica.
Ele também alerta para os riscos da curetagem para futuras gestações.
“A aspiração manual intrauterina é menos agressiva para o endométrio e para o próprio útero. Visualizando uma próxima gravidez, eu preciso preservar o útero da paciente. Então, quando eu vou fazer uma fertilização, por exemplo, e coloco o embrião, dá positivo para essa gravidez, mas depois ela acaba abortando, eu oriento: ‘Olha, não deixe fazer curetagem’. Agora, realmente pacientes que não estão em tratamento de fertilização, que, por exemplo, engravidaram, abortaram e ‘caíram’ no hospital, geralmente elas estão mal informadas. Elas não sabem muito sobre AMIU e, aí, depende do médico que está acompanhando”, completa Cristian.
Ciclo de dores
O registro de mais de 200 curetagens em um ano, comparado à realização de apenas três esvaziamentos de úteros com AMIU nos hospitais públicos de Sorocaba, expõe mais uma vez a dificuldade das mulheres em acessar o melhor da medicina, sendo preservadas de ao menos sentirem tantas dores físicas e psicológicas em todo o processo de uma perda gestacional.
Cecília, a jovem do início da reportagem, destaca como o isolamento e a desinformação a marcou como mais uma cicatriz daquele momento.
“Não foi me apresentado nenhum procedimento além da curetagem. Eu fiquei de cama uma semana e minha mãe não podia saber, meus pais não podiam saber, mas eu fiquei bem mal, até entender. Nunca tive dores iguais na minha vida depois”, se lembra.