Meninas relatam mais tristeza, desamparo e insatisfação com o próprio corpo, mostram dados do IBGE

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Foto: Mídia Ninja

30 de março, 2026 g1 Por Bianca Muniz

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada na última semana, revela maior vulnerabilidade entre adolescentes do sexo feminino em diversos indicadores de saúde mental e percepção corporal. Fatores como cobranças sobre o cuidado, pressão estética e desigualdade de gênero ajudam a explicar esses resultados.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada na última quarta-feira (25), revela um cenário alarmante sobre a realidade das adolescentes brasileiras, que representam metade da população escolar (cerca de 6,2 milhões de jovens): as meninas apresentam indicadores de saúde mental, percepção corporal e exposição à violência mais críticos do que os meninos.

A PeNSE é uma pesquisa escolar realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação e traça um diagnóstico sobre mais de 12,3 milhões de jovens entre 13 e 17 anos das redes pública e privada do Brasil.

Segundo os dados, 41% das meninas relataram ter se sentido tristes na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa — índice quase 2,5 vezes maior que o dos meninos (16,7%). A vulnerabilidade emocional também aparece em outros sentimentos negativos:

  • Ideação de autolesão: 43,4% das meninas relataram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses (entre os meninos, 20,5%).
  • Desamparo: 33% afirmam sentir que ninguém se preocupa com elas.
  • Desesperança: 25% dizem acreditar que a vida não vale a pena ser vivida (entre os meninos, 12%).
  • Ansiedade e humor: 61,0% relatam preocupação excessiva com o cotidiano, e 58,1% dizem sentir irritabilidade ou mau humor com frequência.

Fatores sociais, culturais e estruturais ajudam a explicar o maior impacto na saúde mental de adolescentes — sobretudo entre meninas. De acordo com Gabriela Mora, do UNICEF no Brasil, questões como violência de gênero, assédio online, pobreza menstrual e padrões estéticos inalcançáveis estão por trás do cenário mostrado pela PeNSE: mais tristeza, maior insatisfação corporal e mais comportamentos de autoagressão entre elas.

Enquanto isso, meninos são socializados em uma lógica de masculinidade que valoriza o controle emocional e restringe a expressão de sentimentos — o que também impacta a saúde mental. Esse contraste, segundo a especialista, ajuda a moldar relações afetivas marcadas por ciúmes, controle e exposição nas redes, com efeitos para ambos os grupos.

Sinais como mudanças de comportamento, isolamento e sofrimento emocional precisam ser levados a sério por famílias e escolas. O acolhimento sem julgamento e a criação de espaços de escuta são fundamentais para evitar o agravamento desses quadros.

“Isso tudo é reflexo de um contexto de desigualdade de gênero e violência. Não se trata de um drama individual de cada menina, mas de uma questão social que ainda precisa ser enfrentada para que meninos e meninas vivenciem a adolescência de forma mais equilibrada e saudável.”

Para Gabriela, a escola tem papel central nesse cenário. Além de espaço de aprendizagem, pode funcionar como ambiente de proteção e de identificação precoce de situações de risco.

Pressão estética e imagem corporal

A satisfação com o próprio corpo é significativamente menor entre meninas. Segundo os dados, 36,1% se declaram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem — o dobro do registrado entre meninos (18,2%).

Enquanto eles tendem a buscar ganho de peso, 31,7% delas tentam emagrecer, e 21,0% se percebem como “gordas ou muito gordas”, muitas vezes com uma percepção distorcida do próprio corpo.

Vulnerabilidade à violência e assédio

Os dados de segurança mostram que meninas são as principais vítimas de diferentes formas de violência, incluindo agressões recorrentes e abusos de natureza sexual:

  • Bullying e cyberbullying: 30,1% relataram humilhações frequentes por colegas, e 15,2% disseram ter sido vítimas de agressões no ambiente virtual.
  • Violência sexual: 26,0% afirmaram ter sofrido assédio sexual — como toques ou exposição contra a vontade — e 11,7% disseram ter sido forçadas a ter relações sexuais.

Outro ponto destacado é a pobreza menstrual. É a primeira vez que a PeNSE traz dados sobre dignidade menstrual, que mostram que 15% das adolescentes deixaram de ir à escola ao menos um dia no último ano por falta de absorventes.

Apesar da existência de políticas públicas para distribuição de absorventes, barreiras burocráticas e logísticas ainda dificultam o acesso, especialmente para meninas em situação de vulnerabilidade.

De acordo com Gabriela Mora, o problema vai além do acesso a produtos. Falta de infraestrutura adequada nas escolas, como banheiros com privacidade e acesso à água, agrava a situação.

Além disso, o tema ainda é cercado por tabus culturais, dificultando o debate e a busca por soluções.

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