Onda antifeminista avança nas eleições: ‘Disputa sobre o que significa ser mulher na política’, dizem especialistas

09 de outubro, 2026 Marie Claire Por Hysa Conrado

A eleição de Eduarda Campopiano (PL-SP), que faz da oposição ao feminismo uma bandeira, dá dimensão eleitoral a discursos contra o movimento. Especialistas analisam o cenário atual

Eduarda Campopiano (PL-SP), de 23 anos, disputou a eleição apresentando-se como “a maior inimiga das feministas de São Paulo”. Em 4 de outubro, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa paulista com 1.956.238 votos, a maior votação para o cargo no estado. Sua vitória coloca o antifeminismo no centro de uma questão que ultrapassa as redes sociais: como a oposição a um movimento por direitos das mulheres se transforma em uma plataforma eleitoral?

Para Camila Galetti, doutora em sociologia pela Universidade de Brasília, com pesquisa sobre antifeminismo e extrema direita a partir da atuação de deputadas federais eleitas, o cenário revela que há em curso uma mudança importante na forma como os conflitos políticos em torno das questões de gênero estão sendo organizados.

“O antifeminismo deixa de aparecer como uma reação aos movimentos feministas e passa a funcionar, sobretudo para a extrema direita, como uma identidade política, na qual é possível produzir sentimento de pertencimento e mobilização de votos”, explica.

A especialista define o antifeminismo como uma crença que considera a teoria e a prática feministas exageradas, nocivas e/ou opressoras tanto para homens quanto para mulheres e que, supostamente, encorajaria o ódio aos homens.

á a pesquisadora de gênero e misoginia Bruna Camilo, autora do livro Machosfera: quando a misoginia vira política, observa que também há uma disputa sobre o próprio significado de ser mulher na política.

“Isso não autoriza dizer que o Brasil se tornou antifeminista. O que o resultado mostra é que o antifeminismo conseguiu se apresentar como uma posição política mobilizadora, associada a outras disputas da direita contemporânea”, destaca.

Como interpretar o apoio a esse discurso?

As mulheres correspondem a 52,84% dos eleitores brasileiros, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas isso não transforma o eleitorado feminino em um bloco único. Nesse contexto, as especialistas ouvidas pela Marie Claire ressaltam que apenas a identidade de gênero não é um fator decisivo para determinar uma posição política.

Quando uma mulher vai à urna, está em jogo todo o repertório de vida que a acompanha, como as diferenças de classe, raça, religião, idade, território, escolaridade, orientação sexual e outras experiências de vida.

“Ela pode se identificar profundamente com determinadas experiências femininas e, ao mesmo tempo, rejeitar completamente o feminismo como uma linguagem política. A família, religião, comunidade e a experiência pessoal podem oferecer respostas melhores para ela. Então, é difícil generalizar que todas as mulheres votam nos próprios interesses”, observa a pesquisadora Bruna Camilo.

Além disso, a socióloga Camila Galetti explica que o apoio a esse discurso pode ser interpretado como um rechaço aos avanços dos movimentos feministas e à conquista de direitos e garantias que aconteceram ao longo das últimas décadas.

“Só existe antifeminismo por conta de todos os avanços dos movimentos feministas. É um contramovimento e ele é completamente contraditório, porque ocupa um espaço que foi conquistado mediante a luta coletiva de mulheres por representação e visibilidade às suas pautas”, analisa.

Misoginia como plataforma política

Um dos princípios difundidos pela machosfera, ecossistema digital formado por comunidades e influenciadores que difundem discursos masculinistas e misóginos, é o de que as mulheres devem ser submissas aos homens e de que sua presença na política representa uma perda de espaço e de direitos para eles.

A Marie Claire já mostrou que essas ideias se conectam à retomada do discurso contra o voto feminino, disseminado em conteúdos que viralizam nas redes sociais.

O influenciador Paulo Figueiredo, importante articulador da extrema direita na internet, afirmou em um dos seus vídeos que “mulher vota estatisticamente muito mal”, ao relacionar a escolha eleitoral delas a propostas progressistas.

Além disso, ele também apontou que mulheres casadas tendem a acompanhar o marido na escolha política, algo que ele considera positivo.

“O fortalecimento da misoginia é um projeto político, é uma estratégia da própria extrema direita. A machosfera não só contribui, mas é a protagonista dessa estruturação”, explica a pesquisadora Bruna Camilo.

A historiadora Mônica Karawejczyk, autora do livro As Filhas de Eva Querem Votar: Uma História da Conquista do Sufrágio Feminino no Brasil, afirma que a retomada do discurso contra o voto feminino mantém a mesma linha argumentativa da adotada séculos atrás.

“Parece um plágio. Podemos dizer que eles foram lá no passado, olharam o que se falava e estão falando exatamente a mesma coisa: que, uma vez dado o voto para a mulher, aconteceu o caos, a destruição da família”, ressalta.

Esposas tradicionais

Em uma participação no canal RedCast, no YouTube, em que debateu ao lado de Pietra Bertolazzi contra dois homens identificados como “esquerdomachos”, a deputada eleita Eduarda Campopiano negou que tenha sido o movimento feminista que conquistou o seu direito de concorrer à eleição.

No entanto, as brasileiras alcançaram o direito de votar e de concorrer a eleições em 1932, por meio do Código Eleitoral, conquista encabeçada pelas sufragistas, mulheres que lutavam pelo direito ao voto e à cidadania plena, sem distinção de gênero.

Além disso, Campopiano também disse que, depois de cumprir sua missão de “acabar com o feminismo na política”, pretende voltar para casa e “bater massa de bolo o dia inteiro”.

O discurso se conecta com o movimento das tradwives (esposas tradicionais), mulheres que escolhem adotar papéis de gênero ultra tradicionais, dedicando-se exclusivamente ao trabalho doméstico, aos filhos e ao cuidado do marido.

Nas redes sociais, criadoras de conteúdo que adotam esse modelo de comportamento costumam aparecer em rotinas nas quais não há espaço para o desenvolvimento intelectual ou profissional.

A socióloga Camila Galetti explica que a valorização de uma vida doméstica por si só não é um problema, sobretudo para o movimento feminista, e não significa automaticamente uma submissão.

A questão se complica, segundo a pesquisadora, quando uma escolha individual passa a ser apresentada como um único modelo a ser seguido, como natural ou desejável para todas as mulheres.

Nesse contexto, a divisão sexual do trabalho é apresentada como algo natural do feminino, colocando a mulher no papel de cuidadora e o homem no de provedor.

“Deixa de ser apenas uma escolha e passa a funcionar como uma norma de gênero. Isso é muito perigoso, porque é excludente. Frequentemente vem acompanhada da desvalorização da autonomia econômica das mulheres e da ideia de que a dependência financeira em relação ao marido seria não apenas aceitável, mas algo desejável por elas”, explica Galetti.

Mais mulheres eleitas, o que isso significa?

Além de Eduarda Campopiano em São Paulo, três das mulheres mais votadas do país e da história de Santa Catarina, estado pelo qual saíram candidatas, também construíram suas trajetórias políticas com base no antifeminismo.

A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) foi reeleita com mais de 560 mil votos; Carol De Toni (PL-SC) conquistou uma cadeira no Senado Federal com mais de 2,6 milhões de votos; e Ana Campagnolo (PL-SC) foi reeleita para a Assembleia Legislativa com mais de 387 mil votos.

Na leitura da pesquisadora Bruna Camilo, a eleição desses nomes mostra que o antifeminismo não é apenas uma opinião marginal, mas um movimento que pode ser transformado em linguagem eleitoral e plataforma de candidatura, além de alimentar ressentimentos.

“A questão não é perguntar apenas quantas mulheres votaram em uma candidatura antifeminista. É entender que tipo de feminilidade está sendo oferecida como alternativa ao feminismo e por que ela consegue produzir identificação política”, observa.

Na mesma linha, Galetti ressalta que o alinhamento com candidaturas antifeministas pode estar associado a outros fatores, como identificação com o bolsonarismo, com as pautas de segurança, com o conservadorismo, com a religião, com a atuação nas redes sociais e, sobretudo, com a rejeição à esquerda.

“Podemos concluir que o antifeminismo funciona como uma identidade política, e que existe uma disputa em curso pela própria definição de representatividade, do que significa defender as mulheres”, afirma.

Com o resultado das eleições de 2026, a presença feminina no Congresso Nacional será a maior da história. Na Câmara dos Deputados, foram eleitas 109 mulheres, ante 91 em 2022. Elas ocuparão 21% das 513 cadeiras da Casa a partir de fevereiro de 2027.

No Senado, 12 mulheres foram eleitas entre as 54 vagas em disputa, o maior número de senadoras escolhidas em um único pleito desde a redemocratização. Com a manutenção das mulheres que já ocupam cadeiras com mandato até 2031, a bancada feminina deverá passar de 15 para 18 senadoras em 2027, o equivalente a 22% das 81 vagas.

Embora a representatividade seja importante, a Marie Claire já mostrou que eleger mais mulheres não significa, necessariamente, uma maior representação nas discussões pela conquista da igualdade de gênero e do combate à violência.

“A representação está crescendo. Representação importa, porque as mulheres estão historicamente excluídas dos espaços de decisão. Mas temos que pensar: quais mulheres chegaram lá? Quais os projetos que defendem? Quem elas representam? Quais políticas elas apoiam?”, avalia Camilo.

No caso de Campopiano, ela já disse, em entrevista, não acreditar na existência do feminicídio e caracterizou o assassinato de mulheres em função do gênero como “crime passional”.

“É uma tipificação que não funciona para evitar que o crime aconteça”, afirmou, além de dizer que a Lei do Feminicídio cria uma guerra dos sexos na qual todo homem é um agressor e toda mulher é uma vítima.

Por outro lado, outra parte das mulheres mais votadas do país tem uma atuação baseada em pautas que visam ao empoderamento feminino, à conquista de direitos e à igualdade de gênero.

São nomes como Paula da Bancada Feminista (PSOL-SP), eleita deputada estadual por São Paulo com mais de 326 mil votos; Sâmia Bomfim (PSOL-SP), reeleita para o terceiro mandato na Câmara dos Deputados com mais de 583 mil votos; Ana Elisa (PT-MG), eleita com mais de 524 mil votos; e Marília Campos (PT-MG), senadora eleita com mais de 3,9 milhões de votos.

“O que está em disputa não é apenas se somos a favor ou contra o feminismo. É quem tem direito de definir o que significa proteger as mulheres e as meninas, quais direitos devem ser reconhecidos e qual lugar as mulheres devem ocupar na sociedade”, conclui Camilo.

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