Conta tem sido transferida para dentro das casas, mais especificamente para o tempo das mulheres, que sustentam o modelo.
A pauta pelo fim da escala 6 X 1 avança na Câmara Federal e segue como um tema que vem mobilizando toda a sociedade. Os dados recentes da 12ª. Edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae junto a mais de 8.000 empreendedores em todo o país, revelam que o fim da escala 6 X 1 preocupa menos os pequenos negócios do que o debate público parece sugerir. Não se trata só de medir impacto econômico, mas de entender quem tem absorvido silenciosamente o custo de um modelo de trabalho que nunca foi neutro.
A própria pesquisa ajuda a relativizar o foco: a principal preocupação segue sendo o acesso a crédito, pois só 4 em cada 10 conseguem obtê-lo, enquanto cresce a proporção de empresas com dívidas em atraso. E esse gargalo é ainda mais desigual. Só cerca de 25% dos recursos destinados a pequenos negócios chegam a empresas lideradas por mulheres, limitando investimento, estoque e profissionalização.
Eu tendo a desconfiar de qualquer organização do tempo que funcione “bem demais” sem que alguém esteja pagando a conta. No caso da escala 6 X 1, essa conta tem sido transferida para dentro das casas, mais especificamente para o tempo das mulheres. Não é só que elas sustentam o modelo com seu tempo; fazem isso em condições materiais mais restritas, com menos acesso a capital.
É interessante observar que empreendedoras estão concentradas em setores que o próprio Sebrae identifica como menos resistentes à mudança da escala, como beleza, economia criativa e serviços. São atividades em que a jornada é negociada, adaptada, muitas vezes fragmentada, porque precisa caber na vida real de quem trabalha.
Não acredito ser por acaso que, justamente nesses segmentos que já operam sob outras lógicas de tempo, avançam experiências com a escala 5 X 2. Relatos de pequenos negócios nesses setores apontam redução de faltas, menor rotatividade e mais atração de talentos, indícios de que descanso não é perda, mas reorganização produtiva.
A vida real de mulheres empreendedoras é atravessada por múltiplas responsabilidades que o mercado insiste em tratar como externas ao trabalho. A empreendedora do pequeno negócio não é só gestora. Ela produz, atende, resolve e, ao mesmo tempo, organiza a casa, cuida de filhos, sustenta vínculos. Não há uma fronteira nítida entre “dentro e fora do trabalho”. Há sobreposição.
É por isso que me parece limitado discutir a escala 6 X 1 só em termos de custo de contratação ou impacto sobre o funcionamento das empresas. Esse modelo só se sustenta porque existe uma elasticidade fictícia do tempo feminino.
Um dia de descanso isolado, muitas vezes variável, não é suficiente para reorganizar a vida. Ele só permite que o acúmulo continue operando.
Defender a transição, porém, não ignora os desafios reais. Eu os conheço e sei que eles são concretos. Sem crédito, desoneração e menos burocracia, mudanças bruscas podem ampliar informalidade.
Mas também me parece que o arranjo atual já é subsidiado por um recurso invisível: o tempo das mulheres. Torná-lo visível não é agenda identitária, é pauta econômica. Nenhuma economia se sustenta na exaustão contínua de quem a mantém funcionando.