- Pesquisa identificou que mulheres respondem por 80% de toda a produção de ‘trabalho invisível’ no Brasil
- Trabalho não remunerado delas aumenta quanto mais baixa é a escolaridade; negras são mais afetadas
Jordana Cristina de Jesus, 34, é a filha do meio de uma família de cinco irmãos, três deles homens. Filha de mãe solo, aos 9 ela recebeu a incumbência de cuidar da irmã caçula, de 6, enquanto a mãe, empregada doméstica, saía para trabalhar.
“Ficava pensando por que eu tinha que assumir aquela função, se era só uma criança e tinha irmãos mais velhos”, lembra Jordana, que ainda na infância ganhou outros afazeres, como aprender a cozinhar. “Não sobrava muito tempo para estudar. Fazia isso de madrugada”, diz a professora adjunta do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), doutora em Demografia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
A vivência pessoal da garotinha que cuidava da casa e da irmã se transformou em objeto de pesquisa da professora, especialista em gênero, trabalho doméstico não remunerado e economia do cuidado. Ao lado de Simone Wajnman e Cássio M. Turra, ambos professores do Departamento de Demografia da UFMG, Jordana assina a pesquisa “Trabalho invisibilizado do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo do curso da vida”, recém-publicada.
O estudo aponta que meninas de 10 a 14 anos no Brasil fazem tanto ou mais pelo trabalho doméstico e de cuidados com parentes, o chamado “trabalho invisível”, do que homens em qualquer faixa etária: elas realizam 2,4% de todo o trabalho de cuidado. Este percentual é o máximo que homens dedicam a este tipo de tarefa, mas quando têm entre 30 e 34 anos. É nesta faixa etária, por sinal, que as mulheres mais se dedicam à casa e à família: realizam 9,1% do trabalho invisível não remunerado, ou seja, quase quatro vezes o realizado por homens que têm a mesma idade.
Essa divisão sexista do trabalho perpetua as desigualdades estruturais da sociedade e limita o acesso das mulheres a oportunidades de mobilidade social, com menos tempo para se dedicar ao estudo, à profissão ou ambos, diz a pesquisa.
“Desde pequenas, elas são educadas para que a necessidade dos outros tenham prioridade na sua escala de tempo”, diz Jordana, ressaltando que esse “aprendizado” não se restringe ao ambiente familiar, mas costuma ser reforçado em outros espaços sociais, como a escola, a igreja e os meios de comunicação. É apregoada a ideia de que para a mulher é “natural” cuidar, da casa e da família, como se fosse algo instintivo, biológico, enquanto ao homem cabe o papel de provedor que, como tal, não tem tempo ou aptidão para afazeres domésticos.
O estudo analisa as desigualdades por meio da metodologia demográfica Contas Nacionais de Transferência de Tempo (CNTT), associada à PNAD (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) de 2015, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os resultados indicam que mulheres são responsáveis por 79,7% do cuidado não remunerado no Brasil. Responsáveis por uma fatia de 20,3%, os homens consomem muito mais cuidados do que produzem ao longo da vida.
As mulheres negras são ainda mais afetadas: respondem por 44,2% de todo o trabalho de cuidado não remunerado, embora representem 24,1% da população. Entre as mulheres negras, 34,5% transferem mais de 20 horas de trabalho doméstico para os membros do domicílio, frente a 29% das brancas.
O termo transferência de tempo se refere à quantidade de horas, diárias ou semanais, que uma pessoa cede do seu próprio orçamento de tempo para realizar atividades das quais outros vão se beneficiar.
A pesquisa apontou que no grupo de baixa escolaridade (entre 0 e 8 anos de estudo), a maior discrepância nas horas de trabalho entre homens e mulheres ocorre por volta dos 27 anos, chegando a 47,2 horas. No grupo de alta escolaridade (12 ou mais anos), a diferença nas horas trabalhadas cai para 14,7 horas.
“A escolaridade reduz a desigualdade, mas não elimina —mesmo mulheres com ensino superior cuidam mais que homens”, diz Jordana, lembrando que, quanto mais escolarizada, maior a chance de a mulher ganhar mais e pagar por parte dos trabalhos domésticos. Ela chama a atenção para o pico da sobrecarga feminina, no início dos 30 anos, que coincide com a fase mais produtiva da carreira e também quando muitas mulheres formam suas famílias. Ou seja: enquanto elas precisam dar conta de tudo, estão em posição de desvantagem em relação aos homens, que podem se manter focados no trabalho.