Mulheres negras buscam estabilidade e segurança para crescer profissionalmente

Volencia online

Foto: Tima Miroshnichenko/ Pexels

28 de julho, 2026 Folha de S. Paulo Por Paola Ferreira Rosa

  • No Dia Internacional da Mulher Negra, Folha perguntou o que elas sonham para trabalho, carreira e vida financeira

  • Elas querem segurança para desfrutar da vida sem medo da escassez e ambiente propício ao desenvolvimento

Ao se tornarem as primeiras de suas famílias a ingressar no ensino superior e se destacar no mercado formal, mulheres negras sonham com um futuro em que possam desfrutar da vida sem medo da escassez e com segurança para serem elas mesmas.

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Folha reuniu mulheres de diferentes perfis para perguntar o que elas desejam para a carreira e a vida financeira. A advogada Tulani Hipólito, 26, quer trabalhar em lugares onde veja pessoas negras em posições que valorizem o intelecto.

A servidora pública Heloisa Helena Amâncio, 52, sonha com mais visibilidade. “Quando olham para nós, não enxergam uma pessoa que já estudou e tem experiência. Primeiro olham a cor. Desejo que haja oportunidades para que possamos mostrar nossa capacidade”, diz ela, que é mestre em ciências da linguagem pela Unicamp e ouvidora da Universidade Federal de Itajubá, em Minas Gerais.

Filha de empregada doméstica, a executiva de tecnologia Grazi Mendes, 46, nasceu na periferia de Belo Horizonte e viu na faculdade de administração de empresas a chance de se formar: “Por ter estágio desde o primeiro período, seria a possibilidade de realizar o sonho de estudar, mas continuar auxiliando minha família.”

Hoje ela é professora na Fundação Dom Cabral e líder de impacto social para as Américas em uma consultoria global de tecnologia, responsável pelos indicadores estratégicos de cinco países.

Há três anos, a executiva foi diagnosticada com câncer de mama triplo negativo metastático em estágio avançado, tipo que mais atinge mulheres negras no Brasil. Segundo ela, um de seus desejos é que mulheres negras possam viajar pelo mundo sem culpa pelo sucesso que conquistaram.

Ainda ocupando o lugar de exceção por frequentemente ser a única entre homens brancos na área de tecnologia, Grazi busca contribuir para a inclusão de mulheres negras em cargos de liderança. Elas ocupam cerca de 3% dos cargos de chefia, diretoria e liderança executiva nas grandes empresas do Brasil, segundo dados de institutos como Ethos, Mover e Gestão Kairós.

Quando eu penso nesses sonhos que eu sei que não vou ver acontecer, isso me impulsiona a deixar minha casa para enfrentar uma maratona de viagens e palestras. Isso faz com que eu tenha vitalidade, me mantém em movimento para ultrapassar o prognóstico de 12 meses de vida que recebi. Mas também tenho sonhos do agora. O meu sonho de ontem era estar viva por mais um dia”, diz.

Para a educadora financeira Mariana Pinto, o trabalho de Grazi leva outras mulheres pretas e pardas a se enxergarem no lugar de liderança. “É importante que ela puxe outras como ela, não só indicando, mas criando espaços de conversa e reconhecimento”, afirma.

Ela destaca a importância de ações afirmativas nas empresas. “Junto com o machismo, essas mulheres enfrentam o racismo. Por isso, ao buscar um emprego, mesmo sendo a candidata com a melhor oratória ou o melhor currículo, essa mulher negra dificilmente conseguirá a vaga se tiver um homem ou uma mulher branca concorrendo com ela.”

Mulheres negras também são mais expostas à informalidade e ao desemprego, segundo o Índice de Justiça Econômica Racial, desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra do Fundo Agbara a partir do cruzamento de recortes de gênero e raça com indicadores de educação, renda, trabalho, moradia e infraestrutura.

Apenas 33% das mulheres negras possuíam carteira assinada no setor privado em 2023, percentual inferior ao observado entre mulheres brancas (37%) e homens brancos (40%). Já a taxa de desocupação de mulheres pretas e pardas era de 10,8%, mais que o dobro da registrada entre homens brancos (4,8%).

Adriana Barbosa, 49, estava desempregada quando começou o Instituto Feira Preta. No final dos anos 1990, ela vendia produtos em feiras de rua e decidiu criar um espaço onde pessoas como ela pudessem expor seus trabalhos e garantir sustento.

“Havia a escassez da grana, a sensação de não ter um lugar para trabalhar, mas tinha uma potência criativa urbana, a efervescência de uma cultura negra muito forte e um potencial de consumo dessa população”, conta. Ela fundou a Feira Preta, que se tornou um festival e hoje tem áreas de pesquisa de tendências, desenvolvimento de economia criativa e outras frentes de ação.

Ao longo desse processo, Adriana se formou e cursou pós-graduação em gestão cultural no Centro de Estudos Latino-Americanos da USP (Universidade de São Paulo). Agora ela se prepara para atuar na criação de políticas públicas.

Eu sempre quis viver de projetos que geram impacto social, mas existe um dilema em conciliar as finanças com o trabalho nessa área. Desejo sair de um lugar de sobrevivência para ir a um lugar de prosperidade e abundância. Quero poder conciliar propósito com estabilidade financeira”, afirma.

A Folha também perguntou às entrevistadas o que elas desejam quando pensam em segurança. “Desejo segurança para mostrar quem eu sou da forma nua e crua. Estamos o tempo inteiro pisando em ovos, estudando estratégias para sermos aceitas ou nos encaixarmos num modelo predefinido, quando o protagonismo está justamente em fazer diferente”, afirma Michele Salles, 44, diretora de impacto social na Profile, consultoria especializada em reputação e impacto.

Formada em psicologia e estudante do MBA Executivo na FGV, ela foi bolsista em escolas particulares e atuou em multinacionais desde o estágio. Hoje, seu sonho é contribuir para a construção de um mercado em que mulheres negras estejam em evidência pelos resultados que produzem.

Adriana sonha ainda com um futuro em que o trabalho não signifique sacrifício. “Eu gostaria que fosse mais leve, não como foi para minha bisavó, para minha avó e para minha mãe, porque o imaginário que eu tenho delas é associado ao sacrifício, à luta e à sobrevivência. Fico atenta para não construir essa imagem para a minha filha, de 13 anos. Quero que ela imagine uma vida mais leve”, diz.

Ela acredita que mulheres negras têm construído essa possibilidade geração a geração. “A gente ainda não chegou lá porque tem uma estrutura de racismo que faz com que as coisas demorem um pouco mais para nós, mas conseguimos construir novos imaginários para as mais jovens”, afirma.

Acesse a matéria no site de origem.

Nossas Pesquisas de Opinião

Nossas Pesquisas de opinião

Ver todas
Veja mais pesquisas